ISSN (on-line): 2177-9465
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Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
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CAPES

Volume 8, Número 2, Mai/Ago - 2004

RELATO DE EXPERIENCIA

 

Dia 20 de Maio de 2004 - Jubileu de Ouro da classe de 1954: discurso de saudação e relato de experiênciasª

 

May 20th, 2004 - Gold Jubilee of the Class of 1954: Salutation speech and experience report

 

Día 20 de mayo de 2004 - Jubileo de Oro de la Clase de 1954: Discurso de felicitación y Relato de Experiencias

 

 

Vilma de Carvalho

Professor Emérito da Escola de Enfermagem Anna Nery / UFRJ

 

 


RESUMO

Trata de relato de experiências, na forma de um discurso de saudação, e com testemunhos da Classe de Enfermeiras Diplomadas de 1954, na comemoração de seu Jubileu de Ouro. Em abordagem simples e direta, a autora descreve a Residência / Internato, o Pavilhão de Aulas e o Hospital Escola São Francisco de Assis, conjunto de edifícios da Escola Ana Néri da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ) cenários de experiências da aprendizagem e vida estudantil existentes nos anos 50. Em estilo literário livre, expõe alguns princípios norteadores da graduação da enfermeira consistentes com a atitude e a conduta no estilo Padrão Ana Néri. E apresenta agradecimentos pela educação recebida ao longos dos anos da formação profissional.

Palavras-chave: Ensino. Bacharelato. História.


ABSTRACT

It is an experience report, in the form of a salutation speech, and with the testimonial of the Class of Nurses Graduated in 1954, in the celebration of its Gold Jubilee. With a simple and direct aproach, the author describes the Residency/Boarding School, the Class Pavillion and the School Hospital São Francisco de Assis, bulding complex of the Ana Néri School of Nursing of the University of Brasil (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ in the present days) scenery of learning experiencies and student live existent in the 50's. With a free literary style, that expose some principles that guides the graduation in nursing consistent with the attitude and behavior in the Ana Néri Model style. And presents thankfulness for the education received through the professional formation years.

Keywords: Learning. Baccalaureate. History.


RESUMEN

Se trata de relato de experiências, en la forma de un discurso de felicitación, y con testimonios de la Clase de Enfermeras Diplomadas de 1954, en la conmemoración de su Jubileo de Oro. En tratamiento simple y directo, la autora describe la Residencia / Internado, el Pabellón de Aulas y el Hospital Escuela San Francisco de Asís, conjunto de edificios de la Escuela San Francisco de Asis, conjunto de edificios de la Escuela Anna Nery de la Universidad de Brasil (actualmente Universidad Federal de Rio de Janeiro - UFRJ), escenarios de experiencias del aprendizaje y vida estudiantil, y como existentes en los años 50. En estilo literario libre, expone algunos principios normativos de la graduación de la enfermera coherentes con la postura y la conducta en el estilo Patrón Ana Neri, y presenta agradecimientos por la educación recibida durante los años de la formación profesional.

Palabras clave: Enseñanza. Bachillerato. Historia.


 

 

PREÂMBULO

Há 50 anos passados, no dia 20 de Maio de 1954, nesta Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro, à época Universidade do Brasil, celebrava-se a Formatura de Enfermeiras Diplomadas da Classe de 1954. Vivíamos a grande alegria de haver concluído o curso universitário no reconhecido Padrão Ana Néri. A cerimônia foi realizada no auditório principal do Ministério da Educação e Cultura, nesta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, então Capital da República. Naquela ocasião, éramos 30 diplomandas as que constituíam a Classe de 1954, e hoje estão presentes as que puderam atender à chamada para esta celebração. Da relação nominal, apenas uma já não se encontra entre nós: Neilde Ferreira Torquato que, após anos de serviços na profissão de enfermeira, formou-se em direito e ainda advogou por um tempo em Vara de Família. Hoje encontra-se, certamente, em uma das moradas da Casa do Pai. Como podemos imaginar, talvez esteja registrando-se no arquivo espiritual, este nosso encontro de hoje. Como todas sabemos, a colega Neilde era uma espécie de escriba e vivia registrando tudo que se passava conosco em seu diário anedotal designado, por ela mesma, Bauzinho. A última vez que a encontrei, aqui mesmo neste Pavilhão de Aulas, ela carregava o pequeno dossiê sem mostrar o que registrava. Confesso a minha curiosidade jamais satisfeita.

Cumpre-me mencionar a incumbência de dirigir algumas palavras nesta ocasião. A colega Maria Tereza da Silva que, nos idos de 1951, fora eleita representante de turma designou-me para esta missão de "dar testemunho e apresentar agradecimentos" por nossas experiências de estudantes e pelo tempo de nossa passagem por esta amada Escola. Ela, a Maria Tereza, entregou-me pessoalmente a estrutura básica deste discurso de saudação, com a estrita recomendação de que não esquecesse nada.

 

REGISTRO DE ALGUNS TESTEMUNHOS

Melhor caberia em uma oportunidade como esta falar do que é importante recordar. Tentarei resumir, pois o tempo é sempre um limite. O arquivo de nossa memória de alunas de enfermagem é muito rico. Mas, não dá para trazer a público tudo que temos gravado, principalmente no tecido sensível e delicado de nossas almas. E temos o dever de não expor em demasia, nos rastros de nossos sentimentos tão típicos dos anos dourados de jovens enfermeiras, tudo o que de nossas experiências ressalta-se, hoje, no nobre pergaminho da memória da idade avançada, e que ainda não nos foi possível apagar nem diminuir. Mas é um privilégio e uma dádiva de Deus, podermos comemorar data tão importante, e quando dispomos, no tempo de nossas vidas, desse momento rico de alegria para podermos recordar e confraternizar.

A Escola Ana Néri dos anos 50, como Unidade de Ensino foi, para nós, a nossa segunda casa. Porém, para nossa visão de mundo, tudo parecia monumental, desde que todas nós chegamos aqui vindas de nossas famílias e de várias regiões do país, e aonde as nossas casas nos pareciam bem menores, não obstante as nossas famílias fossem bem numerosas. Em geral, chegávamos primeiro à Residência/Internato (situada na Avenida Rui Barbosa 762, Botafogo, Rio de Janeiro RJ), um edifício belíssimo, de dois andares principais - térreo/primeiro, o segundo e o terceiro pisos com um único salão bastante espaçoso, chamado de "céu". O prédio era capaz de abrigar várias turmas de alunas dos Cursos de Enfermagem, de Serviço Social e de Auxiliares de Enfermagem, umas poucas enfermeiras e alguns funcionários também residentes. A estrutura física parecia-nos esplêndida, compondo áreas de: - cerca de 160 Quartos/dormitórios aproximadamente situados ao longo de extensos corredores; a Biblioteca deslumbrante de mais de 8000 títulos e toda revestida de madeira jacarandá; o suntuoso Salão de Festas com candelabros de cristal e vários conjuntos de poltronas, espelhos e móveis de decoração junto às paredes e entre umbrais de portas lavradas em estilo aproximado ao colonial, e dispondo de um enorme piano de cauda; havia outro imenso Salão/Refeitório com paredes revestidas ao meio em madeira, conjuntos de mesas grandes e cadeiras de espaldares elevados e capacidade para atender mais de 100 pessoas; a cozinha de dimensões e utensílios avantajados; e, nesse prédio, ainda existente no mesmo local, constavam as salas de entrada, de recepção e a da Chefia de Disciplina; e havia mais várias outras salas de apoio e serviços diversos.

No andar superior, parte de cima do Refeitório e lado esquerdo do prédio, havia a Capela do Sagrado Coração de Jesus, onde o capelão Padre Helder Câmara celebrava a Missa, diariamente, às 6:00 horas da manhã, e que podia ser freqüentada, também, por moradores da elite do casario que circundava o Morro da Viúva. Cabe referir que o Padre Helder, mais tarde elevado à categoria arquiepiscopal, foi também nosso professor de Ética Profissional, juntamente com a Diretora Waleska Paixão. De tão estimado, e com justa razão, ele foi nosso escolhido Paraninfo para a nossa Solenidade de Formatura, em 20 de Maio de 1954.

Ao lado da Capela, havia o Dormitório Comum das alunas recém-ingressadas - as preliminares. Pode-se dizer foi o local de nosso primeiro encontro de estudantes de enfermagem. Mas, além de ponto de chegada e de local de convivência de novas alunas, ele servia também para favorecer a avaliação de nossas atitudes e condutas face à nova situação na Escola. Durante os seis primeiros meses, foi ali que aprendemos a conviver como grupo. A uma simples leitura de nossas memoráveis experiências nesse local, é impossível esquecer a visita diária e passagem sutil da então solteiríssima e bela Professora Elvira De Felice, responsável por fazer, ali, uma espécie de ronda para nos apreciar em conjunto e pelo comportamento grupal de novas alunas/residentes. Todas sentíamos o encanto de sua presença, principalmente quando dirigia a palavra a cada uma de nós. Mas tínhamos a certeza de que suas visitas implicavam também medida de controle disciplinar, o qual, no que dizia respeito à ambiência, na Residência/Internato, era exercido com mais rigor pelas Chefes de Disciplina, entre as quais a pioneira Josephina Brito (Classe de 1925) que não perdia ocasião de relevar aos nossos olhos de preliminares, os princípios que norteavam os valores educacionais da formação de enfermeiras.

Na entrada do prédio, um pouco mais à esquerda da fachada principal, havia a entrada comum-acesso à Sala de Recepção, ao Refeitório e à Capela, e que servia também de garagem capaz de comportar os dois ônibus (um com 30 assentos e outro com 42) e a camioneta da Diretora. Tudo no prédio era grandioso, bem tratado e com limpeza e aparência impecáveis. Lamentavelmente, perdemos o direito de posse desse prédio monumental por conta da autoridade governamental e devido, principalmente, a nossa impossibilidade de reação institucional à política reinante no ano de 1974. Atualmente, ele faz parte do patrimônio da UFRJ. De nossas vivências, na Residência/Internato, fizeram parte algumas enfermeiras e servidores que exerciam, ali, suas atividades. Penso que nenhuma de nós conseguiu esquecer o quanto de suas presenças ficou impregnado em nossas lembranças e que, de certa forma, muitos ajudaram a esmerilhar nossa atitude solidária e capacidade de compartilhar "o direito de ser e de estar no mundo".

A Escola Anna Nery sempre incluiu, também, este prédio do Pavilhão de Aulas (na Rua Afonso Cavalcanti, 275, Cidade Nova, Rio de Janeiro RJ), onde estamos agora e sem modificações na estrutura física, porque, felizmente graças aos muitos esforços de Ex-Diretoras, de algumas Professoras e de nossa Associação de Ex-Alunas, conseguimos integrá-lo ao patrimônio histórico e artístico da nação brasileira (SPHAN). À época em que aqui chegamos, esse prédio servia apropriadamente à Direção e administração e, principalmente, às salas de aulas das várias disciplinas teóricas e aos laboratórios de práticas de anatomia e fisiologia, de nutrição e preparo de alimentos, de treinamento de técnicas e procedimentos de enfermagem. No andar térreo, havia um pequeno refeitório para almoço, onde existe a atual Biblioteca Setorial de Pós-Graduação em Enfermagem, e havia no 3º piso um quarto/dormitório para alunas de plantão em estágio de cirurgia e salas de operações. É importante mencionar que esse Pavilhão de Aulas (o P.A.) significou, outrossim, mais um espaço digno das vivências estudantis entre a Residência/Internato e o prédio do Hospital Escola São Francisco de Assis (o HESFA), situado em frente, na mesma rua, e tratado carinhosamente de nosso Velho Chico.

Em 1951, nesses dois prédios, o P.A. e o HESFA, iniciamos os primeiros passos e a aprendizagem de princípios fundamentais à caminhada empreendida para aprender a palmilhar as veredas da Enfermagem Profissional. Vale dizer do HESFA que, a nosso ver, àquela Instituição dava perfeitamente conta de uma assistência de qualidade no que se refere a cuidados e serviços de enfermagem. Mesmo sem contar com sofisticação instrumental e tecnológica a instituição podia prestar os tratamentos clínico-assistenciais de alta qualidade e dignos para atender a uma clientela variada em ambulatórios e unidades de internação para cerca de 250 leitos, os quais eram distribuídos em vários serviços e enfermarias no bloco principal e em outros prédios anexos - Serviço de Oftalmologia, Maternidade Thompsom Motta e Pavilhão Carlos Chagas de Doenças Tropicais e Infecto-parasitárias. Com efeito, reconhecemos que tivemos a estrutura adequada à aprendizagem de cuidados de enfermagem e experiências hospitalares significativas da competência e proficiência necessária à formação de enfermeiras. De nossa rica aprendizagem, nesses cenários hospitalares, muito devemos aos nossos clientes, sem os quais não teríamos adquirido as experiências consistentes com princípios de solidariedade e reciprocidade e de dedicação na prática profissional da enfermagem como "missão de servir sem medidas".

Mas foi preciso aprender, também, outros princípios básicos às habilidades técnicas e aos cuidados adequados à assistência de Enfermagem de Saúde Pública, de Enfermagem Psiquiátrica e Saúde Mental e de Enfermagem Obstétrica, pelo que devemos uma referência especial às nossas Professoras e Enfermeiras Supervisoras nos campos de estágios ligados à Unidade Sanitária do Campo de São Cristovão, às enfermarias masculina e feminina do Instituto de Psiquiatria (IPUB) e à Maternidade Escola. Tudo nos parecia muito adequado aos ensinamentos recebidos: as subidas e descidas para efetuar visitas domiciliares nas comunidades dos Morros da Mangueira, do Querozene, da Formiga, e do conjunto de moradias na Favela da Barreira do Vasco. Também é impossível esquecer as idas e vindas de ônibus nas manhãs de estágios, no "campus" da Praia Vermelha, para aprender a lidar e cuidar de afetados por distúrbios mentais e psiquiátricos, e lembramos com intensidade a emoção de atender às jornadas de práticas diurnas e noturnas, às vezes tão extenuantes, para aprender a cuidar de mães e crianças na Maternidade em Laranjeiras. Em verdade, não podemos esquecer as aulas teóricas e práticas no Instituto de Microbiologia, à época situado no "campus" da Praia Vermelha, onde vivemos experiências inolvidáveis de aprender princípios de prevenção e profilaxia de patologias infecciosas e condutas adequadas ao manejo do microcóscopio e de técnicas do plantio de culturas bacteriológicas. De tão interessantes e prazerosas as aulas dos Professores Dr. Paulo de Góes e Enfermeira Noemia Perrin de Góes, que ainda encontrávamos tempo para manejar as máquinas fotográficas a fim de obter os retratos comprovantes de nossa passagem.

Nesse particular aspecto de nosso aprender a ser profissionais da saúde, há muito o que recordar e que nos cabe testemunhar. Em realidade, a um olhar retrospectivo, parece-nos quase impossível aquilatar o quanto devemos pela nossa formação de Enfermeiras Diplomadas. A título de nossa estimativa e apreço, consideramos inestimável o muito que devemos a todas as dignas Professoras de Enfermagem, que consideramos nossas mestras magistrais, sem esquecer o quanto devemos às Enfermeiras Supervisoras e às Enfermeiras Chefes dos Serviços de Enfermagem, as quais reconhecemos como nossas mestras de oficina de trabalho, e a todos os outros profissionais e servidores que puderam contribuir para nosso crescimento como pessoas e como profissionais. Com efeito, de nossas experiências estudantis, guardamos marcas indeléveis relativas aos princípios e conceitos fundamentais de enfermagem, mas, principalmente, quanto à postura profissional face ao "sentido da arte das" "servas irmãs do que padece, sem ver a quem e seja aonde for"1.

Toda essa nossa aprendizagem teve sua correspondência programática em disciplinas de um Currículo Pleno, desenvolvido sob a competência docente de muitos professores - enfermeiras, médicos e outros - que souberam nos transmitir, além dos conteúdos das ciências, o entusiasmo de sua proficiente sabedoria. A uma simples leitura das páginas dos anais de nosso espírito, e verificamos que aprendemos muito mais do podíamos imaginar àquela época. E cabe-nos especial referência a dois princípios fundamentais da ar te pedagógica desta Escola. O primeiro, de natureza nightingaleana e peculiar à "arte de enfermeira" herdada de Ethel Parsons e das Pioneiras que implantaram a Enfermagem no Brasil, é o princípio da demonstração pelo exemplo e que, a nosso ver, serviu de âncora à postura profissional e às bases do ensino de enfermagem em geral. O segundo, muito avançado no plano da pedagogia ananerina e que, no plano do espírito de enfermagem, serviu para balizar uma concepção flexível de aprendizagem nos termos de um processo dinâmico de - fazer as coisas com técnica e com creatividade, ou como nos ensinava a belíssima Pioneira Professora Olga Salinas Lacorte - "fazer as coisas na enfermagem e para os clientes é saber criar e fazer com muito, com pouco e até com nada, mas sempre com amor e inteira capacidade de doação".

Todavia, tivemos outros princípios a modelar nossa forma de ser enfermeiras. Para não ampliar demais este discurso, cabe referência aos que apelam "ao sentido da consciência moral", próprio da atitude dos que aprendem a arte de ser profissional no "padrão ana néri", esse padrão tão paradigmático e reiterado tantas vezes por todas as professoras e, principalmente, pela Professora Anna Jaguaribe da Silva Nava, na oportunidade de discutir conosco nossos relatórios mensais de prática de estágios. Mas cabe referência especial a todos os princípios básicos da enfermagem moderna e, ainda, a tantos outros derivados das ciências da saúde. Mormente, cumpre-nos lembrar o quanto fomos impregnadas pelos princípios dos direitos à saúde e à assistência de enfermagem.

Por tudo isso, parece-nos impossível esquecer de tudo "o mais" que aprendemos de diretrizes filosóficas e de valores hierárquicos fundamentais à atitude para compreender o sentido da tradição, da vocação profissional, da responsabilidade em todas as situações e atividades, da dedicação e do compartilhamento com o outro, do dever cumprido na assistência de enfermagem, da necessidade de competência no estudo continuado e do sentido ético de servir na enfermagem. Nesse aspecto, vale referir, em especial, um princípio que diz respeito à humildade e à sabedoria. Reporto-me à Professora Waleska Paixão, quando, de uma certa feita, asseverou-me - "é preciso humildade para saber e ousar, sempre é tempo de aprender a aprender, para poder ensinar a outros o que é preciso aprender para poder saber".

Mais umas poucas palavras para selar este relato de experiência e estes testemunhos. Na década de 50, a Escola usufruía de muito privilégio e da elevada consideração do Magnífico Reitor da Universidade do Brasil Professor Dr. Pedro Calmon Muniz Bittencourt. Nada nos faltava. À nossa percepção de alunas só podemos dizer que sentíamos o apoio universitário para uma aprendizagem produtiva compatível com "o sentido de qualidade de vida e direito ao trabalho". Nesta Escola mesma, aprendíamos significados de vida confortável, com alimentação farta e satisfatoriamente variada, com professores qualificados para desenvolver o ensino e apoiar nossos estudos em elevado nível de qualidade, em termos de aulas e estágios. Mas, tivemos que aprender a viver em comunidade e a cumprir os requisitos e exigências. Não podemos esquecer o quanto aprendemos das práticas de estágios "extracurriculares", além de aprofundar a experiência de aprender a lidar com as situações de enfermagem, em todos os canteiros da atividade profissional. Serviu-nos até para discernir entre o significado de nossas necessidades e o específico aos direitos dos outros.

Aprofundando a idéia de aprendizagem produtiva, qualidade de vida e direito ao trabalho, não poderíamos completar nossos testemunhos sem mais uma menção à nossa passagem pela Residência/Internato, onde aprendemos a cumprir horários em relação à pontualidade nas entradas e saídas e a observar regras de conduta irrecusável em relação aos momentos dedicados à Biblioteca e às condições de silêncio para assegurar o direito ao repouso e ao sono, principalmente após as jornadas de serviço noturno, quando não nos era permitido dormir. A quebra de exigências implicava penalidades que iam de mera advertência a perdas do direito de saída para folga e lazer em fins de semana. Mas aprendíamos rápido, e aceitávamos tudo sem perder a alegria de viver e o entusiasmo de jovens que se entendem, hoje, como tendo sido privilegiadas, sobretudo pela assistência à educação e à saúde. Além do mais, mesmo naquela vida de muitas obrigações, podíamos contar com programações festivas, como o calendário mensal da "hora da família", destinada a confraternizações, à recepção de familiares, amigos e convidados. Nessas ocasiões, havia espaço para atividades coordenadas pelas alunas, como programas especiais de representação expressiva de dança, canto, poesia, e arte dramática. Eram célebres as comemorações natalinas, as da Páscoa e as de "festas juninas", quando os salões eram abertos para convidados, parceiros de danças - quadrilhas e outros festejos caipiras típicos. Algumas Classes de Formatura tiveram seus "bailes a rigor", no Salão Nobre e com orquestras famosas. A Classe de 1954 teve seu Baile de Formatura com a Orquestra Tabajara do Maestro Severino Araújo. E jamais vamos esquecer a euforia da prática domingueira do café da manhã e do almoço, quando a refeição era bem mais rica e, se não saíamos para visitar a família, não esquecíamos as saídas em pequenos grupos para a praia, para o cinema ou à procura de algum refrigério de danças na Casa do Estudante do Brasil.

Pensando nos nossos anos de jovens estudantes de enfermagem daquela época, tudo nos parece agora como fruto de uma experiência fantástica e de uma espécie de encantamento, que só as almas raras conseguem declinar em todo seu repertório. Felizmente, alcançamos o privilégio deste encontro de hoje, a fim de congraçarmos e podermos compartilhar com outros estas nossas lembranças de um tempo venturoso que não volta mais. Não importa se foi preciso vasculhar o arquivo de nossas memórias e se, para tanto, foi necessário resgatar de nossos sentimentos e emoções tudo o que, possivelmente, nos pesava como lembranças escondidas e que o tempo não foi capaz de apagar. Éramos e somos pessoas felizes em poder aliviar a alma para colocar à mercê das reflexões - nossas e de outros - o rico material de nossas vivências estudantis. Esperamos que ainda sirvam à apreciação da consciência profissional tão ao gosto da pedagogia do Espírito de Enfermagem sempre presente nesta Escola.

 

NOSSOS AGRADECIMENTOS

À guisa de finalização, cumpre-nos selar agora nossos agradecimentos, pelos quais vale dizer como na sabedoria de São Paulo: Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, graças à virtude d' Aquele que nos amou (Romanos: 8, 35 - 37). Com essas palavras, apresentamos com toda dignidade e a mais elevada estima e consideração os nossos agradecimentos:

A Deus santo e todo poderoso, que nos deu sua bênção: sim, agradecemos ao Deus de Amor que nos permitiu aprender sobre Enfermagem, sobre o Dom da vida e que nos impôs o respeito maior a esse Dom, Deus de Luz que nos permitiu chegarmos até aqui, após as lutas do bom combate para aprender o que era preciso aprender e depois da longa caminhada empreendida, para alcançar os objetivos de cumprir nosso tempo de servir na nobre e bela profissão que escolhemos.

À Diretora da EEAN / UFRJ, Professora Drª. Maria Antonieta Rubio Tyrrell: não temos palavras para agradecer a excelsa gentileza com que acolheu nosso pleito da comemoração de hoje, assumindo sua realização, aqui no Pavilhão de Aulas, a despeito de todas as vicissitudes por que passa a instituição universitária. Mas, segundo as recomendações de Maria Tereza da Silva, secundadas pela Comissão que tratou da realização deste evento: "A Sra. Diretora nos encanta e nos emociona com seus gestos".

À Presidente da Associação de Ex-Alunas, Professora Drª. Ivone Evangelista Cabral: por ter sido a primeira a nos receber para apreciar nosso pleito e a reconhecer nosso desejo e merecido direito a esta comemoração de "Jubileu de Ouro", e a quem somos muito gratas, pois, além de seu inestimável apoio e orientações, ofereceu-se com gentileza para algumas providências iniciais imprescindíveis à solenidade comemorativa deste dia de hoje.

À Professora Ivone Pereira Ferreira, designada "mestra de cerimônia": não tem preço sua valiosa colaboração quanto ao planejamento e execução de atividades deste nosso encontro, graças a sua incondicional disponibilidade para nos ajudar, nossa tão almejada reunião até parece um grande evento que, para nós, tem a ressonância de uma verdadeira e magnífica celebração.

A todas as Professoras e Professores que foram nossos "mestres maiores": na roda viva das várias experiências da formação profissional, de certa forma, todos foram magníficos e muito ajudaram na compreensão do que nos parecia incompreensível. A maioria já está habitando na Casa do Pai - o Senhor Deus, mas agradecemos a todos por ter podido aprender inclusive a estima que diziam sentir quanto à posição de docentes desta Escola. Alguns poucos se encontram entre nós - os vivos deste mundo, a esses nossos agradecimentos por não nos terem negado, na transmissão pedagógica, os fundamentos e conteúdos de seu saber. De modo especial, agradecemos às Professoras Enfermeiras das várias disciplinas profissionais, pelo que nos orientaram na aprendizagem da magistral "arte de servir ao próximo e a nós mesmas em nome da causa da Enfermagem". Nesse particular, entendemos por bem agradecer, em caráter especial, às Professoras Elvira De Felice Souza e Cecília Pecego Coelho, nossas inesquecíveis mestras de Arte de Enfermagem, as primeiras que se incumbiram de nos dar de sua sabedoria e de nos favorecer, com um zelo inegável, na aquisição modelar de atitudes e condutas movidas pelo espírito vocacional baseado no lema que nos legaram: - "Certas do caminho a seguir".

A todos os demais professores, alunos e funcionários desta Escola: agradecemos especialmente aos que nos honram hoje com sua presença. De modo especial, não podemos deixar de agradecer a alguns poucos servidores que se excederam para nos atender. Então, cabem nossos agradecimentos à Chefe de Atividades Gerenciais, Srª. Regina Célia Magalhães Waltemberg, à Secretária da Escola, Srª. Rosália Ximenes Machado e à jovem Bolsista da Central de Eventos Raphaela Ximenes Machado, elas foram de extrema gentileza e generosidade para nos ajudar em atividades de programação desta nossa reunião.

A todas as Enfermeiras Diplomadas da Classe de 1954: acredito que todas nós merecemos um agradecimento especial, mas não só pela beleza e alegria deste nosso encontro. Em que pese o ponto de vista, acredito piamente que não medimos esforços para levar a bom termo esta reunião. É bem verdade que todas sentimos a falta da celebração da Missa. Porém, tivemos que aceitar a impossibilidade de poder contar com um sacerdote (envolvidos que estão em assuntos da Cúria Metropolitana). Mas o importante é que estamos felizes e agradecidas por nos sentirmos, ainda, com a energia e a força capaz de vencer obstáculos para nos congregarmos e para proclamar, a nós mesmas e ao mundo, que somos diletas Ex-Alunas desta Veneranda instituição educacional de mais de 80 anos, todos contados como tempo de "plantar e de colher" na messe do Senhor Deus e, portanto, um tempo de inestimáveis serviços prestados à sociedade brasileira. Assim, acredito ter podido expressar, neste discurso de saudação, o quanto todas estamos de acordo em relação ao fato de que somos as estimadas colegas que sabem cultivar a amizade iniciada há 50 anos passados. Somos as velhas amigas que compõem um dos mais significativos grupos de enfermeiras brasileiras, fato indiscutível de que nos consideramos, genuinamente, Enfermeiras Diplomadas da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

À GUISA DE CONCLUSÃO

Em suma, no que concerne à incumbência de expressar uma saudação e relatar algumas de nossas experiências, neste dia de nosso "Jubileu de Ouro", penso que as palavras ditas não chegam para realçar, plenamente, a nossa obrigação moral de dar testemunhos e apresentar nossos agradecimentos. Em realidade, as palavras são poucas para expressar nossa gratidão por todos os ensinamentos recebidos, pelo apreço com que recordamos as experiências de vida e que nos tornaram esta especialíssima Classe de 1954.

Neste dia de hoje, sentimos falta das que não puderam estar presentes. Mas, temos a certeza da grata satisfação de todas as que se esforçaram para chegar até aqui para enriquecer com suas presenças esta nossa celebração, a fim de compartilhar o desejo tão sonhado de nos revermos, neste Pavilhão de Aulas, o qual, agora mais do que antes, é parte significativa de nossas vidas e, sem dúvida alguma, o contexto digno de ser lembrado como espaço de um tempo em que, realmente, fomos felizes. Portanto, esta nossa saudação abrange, de modo muito indiscutível, a todas nós hoje reunidas para dar testemunho de fatos que envolveram nossa vida de estudantes e, acima de tudo, de expressar valores inequívocos dos sentimentos que nos prendem. Que nossos testemunhos e agradecimentos possam valer em nome da estima cultivada por esta Escola e que sejam significativos do amor fraterno de enfermeiras que aprenderam, mesmo quando separadas, a lutar o bom combate em prol da Enfermagem Brasileira.

 

REFERÊNCIAS

1 Celso ME, Souto E. Hino das Enfermeiras -1955 [CD-ROM]. Rio de Janeiro (RJ): EEAN / Centro de Documentação/ UFRJ ; 1999.

 

NOTAS

ª Reunião da Classe de 1954, no Pavilhão de Aulas da Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ, no dia de comemoração de seu "Jubileu de Ouro" - 20 de maio de 2004.

 

Recebido em 01/06/2004
Reapresentado em 00/00/2000
Aprovado em 29/07/2004

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