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CAPES

Volume 12, Número 3, Jul/Set - 2008

REVISÃO

 

A temática do álcool e outras drogas na produção científica de enfermagem

 

Alcohol and other drugs theme in the nursing scientific production

 

La temática de alcohol y otras drogas en la producción científica de enfermería

 

 

Malena Storani Gonçalves RosaI; Claudia Mara de Melo TavaresII

IEnfermeira formada pela Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense
IIEnfermeira - Professora Titular da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa / UFF. Doutora em Enfermagem. Coordenadora do Núcleo de Estudos Imaginário Criatividade e Cuidado em Saúde / NEICCS. Vice-Coordenadora do Mestrado. Profissional em Enfermagem Assistencial / UFF

 

 


RESUMO

Este trabalho analisa a inserção do enfermeiro na prática de atenção ao usuário de álcool e outras drogas através da revisão sistemática de artigos em periódicos científicos. Foi realizada uma revisão sistemática de literatura nas bases de dados virtuais BDENF, SCIELO, LILACS e BIREME no período de 2001 a 2006. Foram encontrados 29 artigos relacionados com a temática. Os dados foram agrupados nas seguintes categorias: formação do enfermeiro para lidar com usuários de álcool e outras drogas; dificuldades encontradas pelos enfermeiros na atenção aos usuários de álcool e outras drogas e estratégias para promoção à saúde. Conclui-se que a Enfermagem ainda carece de profissionais qualificados para atender às necessidades dos usuários de álcool e outras drogas, fato que pode ser modificado com a inclusão da temática nas disciplinas da graduação e com a realização de treinamento dos enfermeiros dos diferentes serviços de saúde.

Palavras-chave: Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias. Atenção à Saúde. Assistência de Enfermagem.


ABSTRACT

This paper analyses the insertion from the nurse attention in practice to the user as of alcohol and other drugs in the review systematic as of articles into periodic scientific.It was realized a literature review at the virtual data bases BDENF, SCIELO, LILACS e BIREME from the year of 2001 to 2006. It was found 29 articles. The data were put in groups by the following categories: nurse's knowledge about how to deal with user as of alcohol and other drugs; limits for patient care and intervention, such as strategies promoting the good health. It had been concluded that nursing still needs qualified professionals to assist the necessities of the alcohol and drugs users, fact that can be modified by the inclusion of the theme on the graduation disciplines and the realization of nurses' training to the several health services of this care.

Keywords: Substance-Related Disorders. HealthCare. Nursing Care.


RESUMEN

Ese estudio analiza el inserción de la enfermería en la práctica desde atención a los usuarios de alcohol y otras drogas vía una revisión sistemática de artículos de periódico científico. Fue realizada una revisión sistemática de la literatura en las bases de datos virtuales BDENF, SCIELO, LILACS y BIREME en lo periodo de 2001 hasta 2006. Fueran encontrados 29 artículos relativos a la temática. Los datos fueran agrupados en las siguientes categorías: formación del enfermero para tratar a los usuarios de alcohol y otras drogas; límites para atención a los usuarios y estrategias de intervención y promoción.Se puede concluir que la enfermería todavía carece de profesionales cualificados para atender a las necesidades de los usuarios de alcohol y otras drogas, facto que puede ser cambiado con la inclusión de la temática en las disciplinas de la graduación y con la realización de entrenamiento de los enfermeros de los distintos servicios de salud.

Palabras clave:Trastornos Relacionados con Sustancias. Atención a la Salud. Atención de Enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

O uso de drogas, tanto lícitas quanto ilícitas, vem crescendo ao longo dos anos e é hoje um dos grandes problemas de saúde pública mundial.

No Brasil, o percentual de pessoas que já fizeram uso de qualquer droga na vida (exceto álcool e tabaco) é de 19,4% e o do uso de álcool é de 68,7%1. Além disso, quanto às internações em hospitais psiquiátricos por dependência de drogas, 90% acontecem devido ao uso de álcool2.

O uso abusivo de álcool e outras drogas constitui-se um fenômeno complexo, pois engloba uma série de fatores e atinge direta ou indiretamente diferentes setores da sociedade. A violência de uma maneira geral e os acidentes de trânsito, por exemplo, são fatores relacionados e muitas das vezes agravados pelo uso abusivo de drogas.

Já os serviços de saúde estão entre os setores da sociedade diretamente ligados a essa problemática, uma vez que o usuário de drogas freqüentemente apresenta distúrbios, sejam eles físicos, psicológicos ou biológicos, que acabam por levá-lo à procura de assistência no âmbito da saúde.

A assistência aos usuários de drogas, no entanto, é bastante diferenciada. Por ter características intrínsecas e polissêmicas, exige um contato direto não apenas com os usuários, mas com familiares e a comunidade. Além disso, é necessário um embasamento teórico que transite por vários campos do saber, para que a abordagem a essa questão não se dê de forma tangencial ou focal, desconsiderando os diversos aspectos que o tema encerra1.

Os enfermeiros são os profissionais que mantêm maior contato com os usuários dos serviços de saúde e, por isso, têm grande potencial para reconhecer os problemas relacionados ao uso de drogas e desenvolver ações assistenciais3.

Acreditando na importância do tema e tendo como objeto de estudo a atuação do enfermeiro na promoção e atenção aos usuários de álcool e outras drogas, pergunta-se:

Como o enfermeiro vem se inserindo na atenção ao usuário de álcool e outras drogas?

Para o desenvolvimento dessa pesquisa, determinou-se como objetivo geral analisar a inserção do enfermeiro na prática de atenção ao usuário de álcool e outras drogas através da revisão sistemática de artigos em periódicos científicos.

 

METODOLOGIA

Este estudo consiste em uma pesquisa bibliográfica. Para realizá-la foram utilizados como fontes de consulta artigos científicos, livros, folhetos e políticas governamentais implementadas sobre o assunto. As bases de dados consultadas foram: SCIELO, BIREME, LILACS e BDENF a partir dos seguintes descritores: transtornos relacionados ao uso de substâncias; atenção à saúde e assistência de enfermagem. Para refinamento da pesquisa foram selecionados os artigos que estivessem de alguma forma relacionados à Enfermagem.

No montante de publicações pesquisadas, foram encontrados 29 artigos que estavam relacionados com o tema deste trabalho. Desse total, 13 apresentavam resumo e texto completo nas bases de dados; 4 apresentavam apenas resumo, mas foram encontrados os artigos na íntegra através da busca manual; 2 não possuíam resumo ou texto completo, porém foram obtidos posteriormente na íntegra através da consulta aos periódicos nas bibliotecas; e 3 não constavam nas bases de dados, mas foram encontrados com texto completo em site específico. Obtiveram-se, ainda, 7 novos artigos diretamente através da busca manual.

Os critérios de seleção adotados foram que os artigos tivessem sido publicados nos últimos cinco anos, do período de 2001 a 2006, e que abordassem formação ou preparo do enfermeiro em relação à questão das drogas, bem como atuação e dificuldades enfrentadas na assistência aos usuários de álcool e outras drogas. Foram excluídos, portanto, artigos com data de publicação fora do período estipulado e aqueles que relacionavam uso de drogas com violência doméstica, criminalidade, acidentes ou com risco de contaminação por HIV. Apesar de esses serem alguns dos problemas muito graves, acarretados pelo uso indevido ou abusivo de drogas, não representam o foco deste estudo.

Além do período de publicação, foram adotadas, para análise dos artigos, as seguintes variáveis de caracterização: periódicos em que foram publicados, idiomas (artigos em português, inglês e espanhol), sujeitos da pesquisa (enfermeiros, acadêmicos de enfermagem e usuários de drogas) e temáticas abordadas.

Os textos selecionados foram posteriormente categorizados segundo a análise temática de conteúdo.

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Conforme a Tabela 1, na página seguinte, o periódico que apresentou maior número de publicações sobre o assunto foi a Revista Latino-Americana de Enfermagem, com 10 artigos, seguida pela Revista Texto e Contexto Enfermagem, com 5 artigos.

 

 

 

Dos artigos encontrados em outros idiomas, 3 eram em espanhol e foram publicados na Revista Latino-Americana de Enfermagem e 1 era em inglês e pertencia à Revista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina São Paulo.

Os artigos selecionados e que apresentavam texto na íntegra foram divididos em três grupos temáticos para serem analisados, sendo que alguns deles podiam se encaixar em mais de um grupo, uma vez que os temas se complementam. Os grupos foram assim intitulados: 1- Formação do enfermeiro para lidar com usuários de álcool e outras drogas; 2- Dificuldades encontradas pelos enfermeiros na atenção aos usuários de álcool e outras drogas e 3- Estratégias para promoção à saúde dos usuários de álcool e outras drogas.

Formação do enfermeiro para lidarcom usuários de álcool e outras drogas

A preocupação com a formação acadêmica do enfermeiro voltada para assistência aos pacientes usuários de álcool e outras drogas é percebida em quase todos os artigos analisados. Pillon et al.1 abordam a questão da falta de preparo dos enfermeiros para lidar com essa clientela e a vinculam ao conhecimento insuficiente sobre o assunto recebido durante a graduação.

Alguns estudos2,3 averiguaram o ensino sobre dependência química nos cursos de enfermagem, o conteúdo abordado e o conhecimento dos acadêmicos a respeito dessa temática; destacarama necessidade de inclusão do conteúdo sobre álcool e outras drogas nos cursos de graduação de Enfermagem como preparo fundamental para o enfermeiro poder exercer seu papel nessa área.

Ramos et al.5 ressaltam que o preparo e o treinamento dos enfermeiros são necessários para que estes sejam capazes de atuar fazendo um levantamento adequado da história de substâncias psicoativas pelos pacientes, de implementar intervenções e estratégias de educação em saúde para os mesmos, avaliando, sabendo identificar o uso abusivo ou prejudicial de drogas e provendo cuidados de saúde e suporte durante a reabilitação e prevenção à recaída.

Campos e Soares4 abordam que os acadêmicos, ao responderem questões relativas à dependência química, apresentam pouco embasamento científico, deixando transparecer em suas respostas conceitos veiculadospela mídia ou preconceitos e estereótipos inseridos na sociedade a maioria deles sente-se despreparada para lidar com dependentes químicos, principalmente no que diz respeito ao tratamento dessa clientela. Isso demonstra que o tema abuso de substâncias não é abordado suficientemente nos cursos de graduação em Enfermagem.

Em uma pesquisa5 realizada com enfermeiros que trabalham na atenção a dependentes químicos, a opinião dos entrevistados foi unânime: a graduação fornece pouca ou nenhuma condição para atuar com a dependência química, seja para orientação ou para encaminhamento.

Inúmeros autores2,6,7,8,9 destacam a tentativa em estimular a pesquisa de enfermagem na área de álcool e outras drogas e a elaboração de propostas para ampliar o conhecimento sobre o tema durante a graduação.

As universidades poderiam enfatizar o tema na graduação e na pós-graduação, além de incentivar o desenvolvimento de projetos de extensão e pesquisa sobre alcoolismo que realmente apresentem impacto social9.

É preciso que a formação acadêmica do enfermeiro contemple os conteúdos mais abrangentes sobre a temática nos currículos, criando grupos de discussão, pesquisa, para conduzir os alunos a pensarem criticamente e a desenvolverem formas de assistir essas pessoas, de maneira criativa 2.

Apesar de alguns autores10,11,12 relatarem que novos investimentos têm sido feitos nessa área e de ter havido um aumento da pesquisa produzida pela Enfermagem nos últimos anos, a maioria dos autores diz que é necessário uma melhor formação do enfermeiro para atender às necessidades que a assistência a um usuário de drogas requer desse profissional.

Para que se alcance uma melhor qualificação dos enfermeiros, no entanto, é preciso que as universidades atentem para a realização de mudanças nos currículos de modo não apenas a estimular o interesse dos alunos na pesquisa acerca do assunto, mas também a desenvolver atividades que reduzam o estigma e o medo que muitos deles apresentam em lidar com dependentes químicos.

Dificuldades encontradas pelos enfermeiros na atenção aos usuários de álcool e outras drogas

Como todo trabalho a ser desenvolvido, a assistência a pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas traz alguns desafios para os profissionais que vão realizá-la. Alguns fatores dificultam essa assistência e outros podem até impedir que se estabeleça uma relação eficiente entre profissional e paciente. Entre os principais problemas citados pelos autores que abordam a temática estão os mitos, os estereótipos e o preconceito dos próprios profissionais em atender essa clientela.

A forma como uma parcela da enfermagem percebe o usuário de drogas não difere muito do senso comum, no qual essas pessoas são designadas por uma série de expressões pejorativas3.

O desafio do profissional está em saber lidar com seus próprios sentimentos.A capacidade de julgamento assegura-lhe a esperança de permanecer no mundo contrário ao do paciente, o mundo sadio8.

Os resultados de uma pesquisa13 mostram que a maioria dos enfermeiros entrevistados não se sente à vontade ou está insatisfeita em trabalhar com pacientes dependentes de álcool. Segundo os autores, a representação social do alcoolista como uma pessoa agressiva e descontrolada pode levar o enfermeiro a sentir-se embaraçado ao falar com o paciente, talvez por temer reações agressivas, o que impede, muitas vezes, a interação entre o profissional e o indivíduo alcoolista, não existindo uma comunicação efetiva entre eles. Um mecanismo de defesa comum nesses pacientes, a negação da doença, pode muitas vezes ser encarado pelos profissionais como recusa de ajuda ou tratamento.

Autores8,9,13,14 que estudaram a atuação do enfermeiro na assistência aos usuários de álcool e outras drogas constataram o despreparo, medo, insegurança ou insatisfação desses profissionais em realizar tal trabalho.

Poucos são os enfermeiros que receberam treinamento para lidar com a clientela usuária de álcool e drogas. Por falta de uma política adequada e de impacto, acabam por atuar junto aesses usuários de forma arbitrária, embora com solidariedade, não seguindo parâmetros técnico-científicos15.

Reafirmando a necessidade de uma política adequada para o atendimento a essa clientela, cabe destacar que, apesar de já existirem documentos que preconizam a assistência aos usuários de álcool e outras drogas, como a Portaria 336/02 do Ministério da Saúde e a Política Nacional Antidrogas, não são suficientemente discutidos nos trabalhos da Enfermagem. Dos artigos analisados, apenas o 16 da Tabela 1 cita o primeiro documento, e nenhum artigo aborda o segundo documento.

Estratégias para promoção à saúde dos usuários de álcool e outras drogas

É unânime, entre os autores dos artigos analisados, que é característica dos enfermeiros a capacidade de planejamento de cuidados, realização de atividades de prevenção de doenças e promoção à saúde dos indivíduos, visando não apenas a recuperação dos pacientes, mas também a reinserção dos mesmos em seu contexto social.

Especificamente na assistência aos usuários de álcool eoutras drogas, o poder de observação do enfermeiro permite a esse profissional a identificação dos problemas, e a partir daí lhe é possível desenvolver um plano de assistência e realizar intervenções tais como educação, aconselhamento e atendimentos individualizados e personalizados para pacientes que apresentam uso abusivo ou a dependência de alguma substância psicoativa.

O enfermeiro tem um papel de facilitador, não apenas da entrada do paciente no tratamento, como também de sua permanência no mesmo.

A consulta de enfermagem é destacada por alguns autores8,9 como a principal forma de aproximação do paciente e do estabelecimento de um vínculo entre ele e o profissional. Afirmam ser um momento crucial para reconhecer os problemas relacionados ao uso abusivo ou dependência de algum tipo de droga.

A maioria dos profissionais entrevistados, em um estudo9 realizado com enfermeiros do trabalho, afirma que a educação em saúde é a melhor forma de intervenção de enfermagem para o paciente alcoolista. As autoras desse estudo ressaltam ainda que o enfermeiro do trabalho deve atuar além da prevenção, realizando a promoção da saúde do trabalhador, porque esta consiste nas ações implementadas com o objetivo de transformação de comportamento dos indivíduos, tendo como foco a mudança do seu estilo de vida dentro da família, no ambiente de trabalho e na sua comunidade.

Barros et al.16 destacam a prevenção ao uso abusivo e/ou dependência de álcool e outras drogas como um processo de planejamento, implantação e implementação de múltiplas estratégias voltadas para a redução dos fatores de vulnerabilidade e riscos específicos, e fortalecimento dos fatores de proteção.

Como estratégia primordial para se alcançar um trabalho efetivo de prevenção e controle do uso de drogas pela clientela assistida, destaca-se o investimento na capacitação e treinamento dos enfermeiros de uma forma geral.

A necessidade de investimentos em pesquisas e o desenvolvimento de programas de graduação e pós-graduação na área de dependência química também são citados em alguns artigos1,10,12 como uma preocupação que vem crescendo entre as faculdades de Enfermagem. Além disso, as organizações internacionais interessadas na redução do consumo de drogas, como é o caso da Comissão Interamericana para o Controle do Abuso das Drogas (CICAD), vêm estabelecendo parcerias com as instituições de ensino superior e criando programas de desenvolvimento de lideranças para atuarem no campo de redução da demanda.

Dos artigos analisados, apenas dois, os de nº 16 e 20 da Tabela 1, esboçam estratégias de prevenção ao uso de drogas ou de promoção à saúde desse usuário. São necessárias, portanto, maior criação e divulgação das atividades desenvolvidas pela Enfermagem na área, como contribuição para a formação e aprimoramento desses profissionais.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da literatura analisada, pode-se concluir que, apesar de ter havido um aumento da produção de pesquisas e da construção do conhecimento relacionado com o uso de drogas psicoativas, foi possível verificar que a Enfermagem ainda carece de profissionais qualificados e que estejam aptos a atender as necessidades apresentadas pela clientela que sofre com o uso abusivo dessas substâncias.

Os estudos analisados informam que há deficiência para abordar a temática da dependência química e a preocupação com a inclusão do tema nos currículos das universidades para melhor formação do enfermeiro.

Para que possa haver um preparo adequado do profissional, no entanto, é necessário que os cursos de graduação trabalhem melhor a problemática das drogas através de pesquisas e cursos de extensão, além da inserção da temática nas disciplinas da graduação.

Como qualquer outro campo de atuação da Enfermagem, a atenção ao usuário de álcool e outras drogas requer qualificação e treinamento dos profissionais para que sejam capazes de identificar os problemas e realizar a intervenção de modo a otimizar a recuperação do paciente. Processos de educação permanente nesta área devem privilegiar estratégias para manutenção da abstinência do usuário, oferecendo condições para prevenção à recaída, amenizando seu sofrimento e promovendo seu bem-estar.

Recomenda-se que, ao lidar com usuários de álcool e outras drogas, o enfermeiro deve despir-se de preconceito e olhar o paciente como alguém em sofrimento, que necessita de ajuda e de um cuidado humanizado como qualquer outro indivíduo.

Através da consulta de enfermagem, no levantamento dos problemas para prescrição dos cuidados, pode-se identificar o padrão de consumo de drogas e distinguir o nível de dependência dos usuários para poder intervir e realizar os encaminhamentos necessários.

É importante salientar que, seja na assistência primária à saúde, no Programa de Saúde da Família, no ambiente hospitalar ou em qualquer unidade de saúde, o enfermeiro está sujeito a se deparar com pacientes que apresentam problemas relacionados ao uso abusivo de drogas e deve estar preparado para prestar a devida assistência aos mesmos.

Na bibliografia analisada observa-se uma lacuna no que diz respeito às estratégias de prevenção e promoção da saúde dos usuários. Aborda-se a necessidade de atuar na prevenção do problema, mas pouco se apresenta sobre trabalhos realizados por enfermeiros para redução do consumo de drogas. Seria uma contribuição importante que houvesse mais artigos expondo algumas atividades executadas por enfermeiros para o controle do consumo de drogas, bem como os resultados dos métodos que foram ou não eficazes.

É importante destacar também que não se observa nos artigos pesquisados qualquer tipo de referência à Política Nacional Antidrogas e seus pressupostos. A apropriação do conteúdo da Política Pública específica fornece embasamento e suporte ao profissional para atuar em uma atividade tão delicada quanto o cuidado aos usuários de drogas, sendo de valia, portanto, que haja maior divulgação desse material.

Faz-se necessária a integração entre os diversos tipos de serviços existentes para recuperação dos usuários de drogas, bem como a criação e execução de novas estratégias para prevenção e controle do consumo/dependência dessas substâncias. O enfermeiro pode atuar tanto em equipes multiprofissionais, desenvolvendo atividades terapêuticas, visando à prevenção à recaída e à promoção à saúde dos usuários, como individualmente, ouvindo e aconselhando esses pacientes, procurando motivá-los ou até mesmo fazendo o encaminhamento para grupos de auto-ajuda, como, por exemplo, os Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos.

Muito precisa ser feito ainda para que se possa atingir uma assistência de enfermagem de qualidade para os usuários de álcool e outras drogas. Espera-se, contudo, que os cursos de Enfermagem encarem a atenção a esses indivíduos como um campo em expansão para atuação do enfermeiro e possam desenvolver cada vez mais programas e atividades que despertem o interesse e preparem os futuros profissionais para atender essa clientela.

 

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Recebido em 10/11/2007
Reapresentado em 01/03/2008
Aprovado em 07/04/2008

 

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