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CAPES

Volume 11, Número 4, Out/Dez - 2007

PESQUISA

 

Na boca da CRUSP: Programa de Prevenção e Acolhimento em caso de uso problemático de álcool e drogas

 

Inside the Crusp: Program for Prevention and Assistance in case of problematic use of alcohol and drugs

 

En el Crusp: Programa de Prevención y acogida en el caso de uso problemático de alcohol y drogas

 

 

Marília Rita Ribeiro ZalafI; Rosa Maria Godoy Serpa da FonsecaII

I Assistente Social. Mestre em Enfermagem em Saúde Coletiva pela Escola de Enfermagem da USP. Assistente Social da Coordenadoria de Assistência Social da USP. E-mail: mazalaf@usp.br;
IIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da USP. Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Área de Concentração: Enfermagem em Saúde Coletiva.

 

 


RESUMO

Este estudo descreve a experiência de um programa de prevenção do uso problemático de álcool e outras drogas, desenvolvido no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, no campus Butantã. O programa objetiva divulgar informações atualizadas sobre drogas lícitas e ilícitas e doenças sexualmente transmissíveis. Para estudantes com situação problemática de uso de álcool e outras drogas, adota estratégias como acolhimento, aconselhamento, sensibilização e encaminhamento para instituições de apoio, tratamento e acompanhamento. A avaliação do programa constituiu parte da dissertação de mestrado "Uso problemático de álcool e outras drogas em moradia estudantil: conhecer para enfrentar". A experiência permitiu concluir que a prevenção de drogas na universidade deve ser aberta a diversas estratégias de aproximação com os usuários e trabalhar de acordo com a realidade que se apresenta nos distintos meios sociais. Foi possível concluir também que um programa de acompanhamento e apoio a tratamento no próprio ambiente fez diferença no processo saúde-doença das pessoas atendidas.

Palavras-chave: Alcoolismo. Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias. Prevenção Primária.


ABSTRACT

This study describes the experience of a prevention program in cases of problematic consumption of alcohol and other drugs in the Residential Area of the University of São Paulo, at the Butantã campus. The program aims to divulge updated information about licit and illicit drugs and sexually transmissible diseases. For students bearing a problematic condition in the consumption of alcohol and other drugs, adopt strategies such as assistance, advising, emotionally moving and forwarding to support institutions, treatment and follow-up. The evaluation of the program was extracted from the master dissertation "Problematic Use of Alcohol and Other Drugs in the Students Residence: Knowing How to Face it". The experience allowed us to conclude that the prevention of drugs at the University should be open to several approaching strategies with users and work according to the reality that is present on different social levels. It was also possible to conclude that a program of accompaniment and support to the treatment in the environment itself made quite a difference in the process health-disease of the people attended.

Keywords: Alcoholism. Substance-Related Disorders. Primary Prevention.


RESUMEN

Este estudio describe la experiencia de un programa de prevención del uso problemático de alcohol y otras drogas en el Conjunto Residencial de la Universidad de São Paulo (USP), en el campus Butantã. El programa tiene como objetivo divulgar informaciones actualizadas sobre drogas lícitas e ilícitas, así como sobre enfermedades sexualmente trasmisibles. Para estudiantes con una situación problemática de uso de alcohol y otras drogas, se adoptan estrategias tales como acogida, consejo, sensibilización y encaminamiento para instituciones de apoyo, tratamiento y acompañamiento. La evaluación del programa ha sido una de las partes de la disertación de maestría "Uso problemático de alcohol y otras drogas en una residencia estudiantil: conocer para enfrentar". La experiencia permitió concluir que la prevención de drogas en la Universidad debe estar abierta a diversas estrategias de aproximación con los usuarios y trabajar de acuerdo con la realidad que se presenta en los distintos medios sociales. También fue posible concluir que un programa de acompañamiento y apoyo para tratamientos en el propio ambiente hace la diferencia en el proceso salud-enfermedad de las personas atendidas.

Palabras clave: Alcoholismo. Trastornos Relacionados con Sustancias. Prevención Primaria.


 

 

INTRODUÇÃO

O presente artigo refere-se ao relato de experiência de um programa de prevenção de uso problemático de álcool e outras drogas, denominado "Na Boca do Crusp Prevenção e Acolhimento", desenvolvido junto a alunos moradores do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), pela Coordenadoria de Assistência Social (Coseas) da Universidade de São Paulo, por meio da Divisão de Promoção Social (DPS).

O Crusp é hoje referência nacional em moradia estudantil, tanto pelo seu tamanho como pela importância que ocupa enquanto apoio aos estudantes com dificuldades socioeconômicas para sua permanência na Universidade e formação acadêmica. Consiste em um conjunto de sete prédios de seis andares, com onze apartamentos por andar, onde residem cerca de 1.400 alunos, sendo que 1.060 estão distribuídos em cinco prédios destinados para a graduação e 340 ocupam dois prédios destinados à pós-graduação (mestrado e doutorado). Está localizado na Cidade Universitária "Armando de Salles Oliveira", no bairro do Butantã, na cidade de São Paulo, e sua administração manutenção do espaço físico, destinação e monitoramento do uso das vagas é de responsabilidade da Coseas, órgão diretamente vinculado à Reitoria da Universidade. A moradia é gratuita, o ingresso dos alunos se dá por meio de avaliação baseada em critérios socioeconômicos e é realizada por assistentes sociais devidamente qualificadas. Além disso, tais profissionais são também responsáveis pelo atendimento individualizado aos alunos para acompanhamento de sua situação de vida na moradia estudantil, visando inclusive à prevenção de problemas como o uso problemático de álcool e outras drogas. Nesse cotidiano, fica claro que o uso de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, exerce um efeito bastante negativo no andamento da vida desses alunos.

O alcoolismo e o uso problemático de outras drogas se apresentam como grandes problemas no ambiente estudantil, conforme estudo nesta área demonstra: "o uso de álcool e drogas por estudantes universitários é maior do que na população em geral" 1:18. Embora a Universidade se preocupe com o tema, fato este que pode ser constatado pelas inúmeras abordagens que são feitas sobre isto, em geral, quando há problemas, não existe uma política clara estabelecida em relação ao enfrentamento do uso drogas pelos estudantes, tanto no que se refere à prevenção quanto ao tratamento.

No que tange à moradia estudantil, dada à origem socioeconômica dos estudantes, que são de classes sociais desprivilegiadas, muitos deles trazem da família situações de carência não só financeira, mas também afetiva e relacional. Não mantêm contato freqüente com suas famílias por falta de condições financeiras, de tempo e distância. As atividades de lazer são restritas. Os espaços de uso comum são utilizados para festas e outras atividades onde o álcool e outras drogas estão sempre presentes, muitas vezes como atores principais, favorecendo o consumo tanto para os que já apresentam algum tipo de dependência como para aqueles que ainda não iniciaram o uso.

Em levantamento bibliográfico realizado em bancos de dados virtuais, um dos estudos encontrados1 avaliou o padrão de uso de álcool e outras drogas pelos alunos de graduação da USP no campus São Paulo e concluiu que:

Estudantes com mais fracos suportes sociais, menos engajamentos e vínculos e atividades coletivas dentro da universidade são os que apresentam maiores riscos para o desenvolvimento do abuso e dependência do álcool e outras drogas.1:105

Em um único estudo abordando especificamente o problema das drogas na moradia estudantil da USP2, a autora analisou o discurso dos moradores sobre o consumo de drogas com o objetivo de conhecer sua ideologia a respeito de seus processos de socialização e do consumo de drogas. Concluiu que nos discursos estavam presentes tanto a concepção americana de guerra às drogas como a de redução de danos. Quanto à prevenção, a idéia dos moradores era favorável ao pressuposto da redução de danos e sugeria que o tema fosse amplamente discutido na comunidade. De acordo com Laranjo,

O objetivo desse fórum de discussão pode ser o estabelecimento de uma política sobre o uso de drogas no Crusp, o esclarecimento sobre o encaminhamento para o tratamento da dependência e a formulação de um programa de prevenção ao uso indevido de drogas que se proponha a desenvolver atividades de lazer e promova interação entre os moradores. 2:127

Em levantamento realizado junto ao Serviço de Ação Comunitária e Segurança (SACS) da Coseas, relativo ao número e tipo de ocorrências envolvendo situações indicativas de uso problemático de álcool e outras drogas, ao longo de quatro anos (2003-2006), foi verificado declínio significativo de tais fatos concomitante ao desenvolvimento do programa de prevenção implantado em 2001, denominado "Na Boca do Crusp Prevenção e Acolhimento", voltado exclusivamente para alunos moradores do Crusp. Em 2003, foram registradas 34 ocorrências de intoxicação por álcool e outras drogas, e, em 2006, foram registradas 20, ou seja, houve um declínio de 41%. Os registros apontam que o número de intoxicações por álcool é sempre muito mais elevado do que o de intoxicações por outras drogas. Por exemplo, em 2006, esses números foram de 14 e 6, respectivamente.

O "Na boca do Crusp" foi instituído pela Coseas em 2001, por intermédio da Divisão de Promoção Social, para atender uma demanda que exigia iniciativas urgentes e efetivas. É interessante afirmar que tal implantação contou com a importante participação de um aluno dependente químico que passava por um árduo processo de recuperação, acompanhado por uma assistente social devidamente qualificada e habilitada para lidar com a questão.

A finalidade do Programa é propiciar melhoria de qualidade de vida de alunos que vivenciam relação problemática com as drogas e, por conseqüência, garantir meios para que eles concluam sua formação acadêmica. O trabalho inicial é feito por meio da aproximação com o aluno e pelo desenvolvimento de vínculo que lhe permita problematizar o envolvimento com o álcool e as drogas. É garantido o sigilo profissional e o anonimato, e está totalmente desvinculado da concessão ou perda de qualquer apoio que o aluno possa ter, uma vez que é a própria Divisão quem administra as bolsas de apoio para que aqueles com necessidade socioeconômica possam concluir os cursos.

Os objetivos do programa são: divulgar informações atualizadas a respeito de drogas lícitas e ilícitas e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs); acolher, aconselhar e sensibilizar aqueles envolvidos em situação problemática em relação ao uso de álcool e outras drogas, e, quando necessário, encaminhar para instituições de tratamento, com o devido apoio e acompanhamento.

As atividades são desenvolvidas por assistente social devidamente qualificada no tema Especialista em alcoolismo e drogadição e Mestre em Enfermagem em Saúde Coletiva. Quando necessário, conta com o apoio e supervisão de uma enfermeira especialista em saúde mental e doutora em Enfermagem Psiquiátrica. Conta também com a participação de alunos bolsistas que trabalham na elaboração de um boletim com uma tiragem de 1.000 exemplares, com periodicidade bimestral, que é distribuído no Crusp. Ademais, são distribuídos mensalmente cerca de 1.200 preservativos masculinos, fornecidos pelo Centro de Referência e Treinamento de DST/AIDS da Secretaria de Estado da Saúde, com o intuito de incentivar o sexo seguro e evitar a transmissão das DSTs e AIDS. O atendimento individual e o monitoramento do tratamento são realizados visando a fortalecer o aluno para a prevenção de recaídas. É feito ainda o acompanhamento pós-tratamento para facilitar a manutenção do controle da dependência.

 

OBJETIVO E METODOLOGIA

O presente estudo teve como objetivo avaliar o programa de prevenção em tela e constituiu parte das entrevistas semidiretivas, com questões abertas e fechadas, realizadas para a coleta de dados da dissertação de mestrado intitulada "Uso problemático de álcool e outras drogas em moradia estudantil: conhecer para enfrentar"3, onde foi focalizada a história do processo saúde-doença relacionado ao uso problemático de drogas na vida antes e depois do ingresso no Crusp.

Foram convidados a participar da pesquisa oito estudantes, seis homens e duas mulheres residentes no Crusp, que, à época da coleta dos dados, estavam ou já haviam estado envolvidos com uso problemático de álcool e outras drogas. Praticamente todos estavam sendo ou já haviam sido atendidos pelo programa "Na Boca do Crusp Prevenção e Acolhimento". A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Escola de Enfermagem da USP, e todos os sujeitos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Nenhum estudante se opôs à gravação das entrevistas, cada discurso foi transcrito fielmente, e todos os sujeitos pesquisados tiveram acesso ao material transcrito para eventuais correções. Os dados referentes à categoria empírica "Avaliação do Programa" apareceram também em várias outras categorias, constituindo muitas vezes argumentação para afirmações a respeito da vida na moradia estudantil e da problemática enfrentada pelo uso problemático de álcool e outras drogas. Neste trabalho que ora apresentamos, tais dados foram destacados e analisados para evidenciar a importância do Programa para a coletividade estudantil.

Os discursos dos estudantes sobre a avaliação do programa foram submetidos ao mesmo tratamento e análise utilizados na referida dissertação.3

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

É importante ressaltar que, durante a realização das entrevistas, denotou-se total confiança por parte dos sujeitos pesquisados na pessoa da pesquisadora, ao exporem suas vidas de maneira clara e objetiva, praticamente sem omissões em relação aos itens do guia de entrevista. Isto pode ser atribuído ao vínculo estabelecido com ela, enquanto assistente social que os acompanhava no programa "Na Boca do Crusp", e também à confiança adquirida por intermédio da credibilidade no programa. As falas a seguir ilustram tal afirmação:

Estou à disposição para o que precisar e se eu puder ajudar o outro, dar uma frase que ajuda alguém, para mim é muito importante.

Agradeço estar participando e espero que contribua um pouco porque tentei ser o mais sincera possível.

Me sinto muito bem de falar essas coisas, morrem na gente. Porque para o meu psiquiatra eu não vou falar. Quando eu vou ao psicólogo também. A gente está conquistando algo. Nem para o assistente social eu falaria porque eu não vou confiar, e eu falo isso porque é registro, é ciência e são opiniões, não só a minha como a de outros, bem diferente do que é convencional.

Uma das doze questões da entrevista abordava o comportamento em relação ao uso de álcool e outras drogas após o ingresso do estudante no Crusp. Nessa questão, vários sujeitos pesquisados fizeram referências, diretas ou indiretas, ao Programa de Prevenção, avaliando-o, e aos resultados positivos em relação à sua vida. Um deles citou tacitamente que dividia a sua vida em duas partes: antes e depois do Crusp. Alegou que ao vir para a moradia e se inserir num programa de prevenção contra o uso de drogas, e assim obter mais informações técnicas e científicas, ampliou sua consciência a respeito da doença. Avaliou também que o programa o ajudou a mudar seu comportamento em relação ao uso de drogas e que hoje, durante as recaídas, consegue usar droga com responsabilidade:

... provavelmente eu teria tido uma recaída muito pior se eu não estivesse no Crusp.

O acompanhamento realizado pelo programa preconiza a proteção à saúde do aluno usuário de drogas, de forma que as recaídas durante o tratamento possam ser detectadas ainda no início, evitando assim o seu agravamento. Para tanto, busca-se preparar e fortalecer o sujeito para que ele possa se conhecer a ponto de prever e controlar os episódios de agravamento do consumo.

Outro sujeito informou que, depois que ingressou no Crusp, embora não tenha conseguido controlar sua compulsão, sua consciência em relação ao uso de drogas mudou:

O fato de eu estar morando no Crusp ajudou a se estabelecer em mim uma consciência de que eu preciso deixar a droga.

O Programa "Na Boca do Crusp prevenção e acolhimento" busca ampliar a consciência política dos alunos a respeito da produção, do tráfico e do uso de drogas, ou seja, da complexidade da questão nos contextos social, político e econômico, tanto local como nacional e internacional:

Explicar o consumo de drogas inserido na dinâmica social na sua dimensão estrutural requer, portanto, em primeiro lugar, situar a condição histórica que inscreve a droga como uma mercadoria, ora lícita proveniente de uma indústria com lucros aviltantes, ora ilícita produzida e distribuída pelo narcotráfico. Em segundo lugar, é necessário compreender o processo contemporâneo de produção e distribuição da mercadoria droga como conseqüência das formas atuais de acumulação capitalista 4.

O Crusp - dimensão particular neste estudo - consiste em apoio em forma de uma vaga gratuita na moradia para estudantes - dimensão singular - que não teriam condições de concluir seus cursos sem essa bolsa. Por esse motivo, todos que lá residem passam por seleção socioeconômica efetuada por assistentes sociais. Durante o referido processo, é possível verificar que, em sua grande maioria, esses estudantes procedem de famílias com situações de carência financeira, problemas de saúde física e mental, desemprego, más condições de moradia e de estudo, desagregação familiar e violência, situações que estão presentes na vida de todos os estudantes que compuseram esse estudo. Do ponto de vista da Saúde Coletiva, o processo saúde-doença não se refere apenas ao biológico, mas também a manifestações individuais das condições coletivas de vida resultantes da forma de inserção das pessoas nos processos de produção e reprodução social5. Essas condições são determinantes das formas específicas de sobrevivência e exposição dos diferentes grupos sociais aos processos de riscos e potencialidades para a saúde; portanto, diferentes classes sociais têm diferentes níveis de qualidade de vida e estão sujeitas às diferentes formas de exposição a doenças e diferentes formas de acesso a serviços de saúde6.

O Crusp está ladeado por bairros com muitos pontos de comércio ilegal de drogas que são freqüentados pelos alunos. Além disso, o ambiente universitário é propício a festas onde o álcool é oferecido gratuitamente. Uma pesquisa realizada entre universitários constatou que eles se encontram na fase da vida em que as pessoas mais bebem, porque é um momento de mudanças decisivas, o que pode constituir, de outra parte, um fator de risco para o alcoolismo e a drogadição7. Diante disso, tanto nos atendimentos individuais como nos boletins informativos, o Programa aborda o tema nas suas várias nuances, visando a provocar reflexões a respeito.

Dentre as falas que avaliaram o Programa, uma aparece bastante significativa, considerando tratar-se do primeiro aluno que foi atendido. Tal aluno, em conseqüência de seu alto grau de dependência química, chegou muito perto de perder a vaga na universidade. O acompanhamento e o apoio do programa que envolveram, entre outras coisas, duas internações, permitiram que ele não só recuperasse a vaga, como também conseguisse concluir a graduação e retomasse o controle de sua vida. Hoje, apesar de ainda não conseguir se abster da droga por longos períodos, é consciente da gravidade de sua doença:

Eu preciso escolher: ou o centro da minha vida é aquilo que eu estabeleço como prioridade ou é usar droga. Ela tomou um volume na minha vida que não dá para conciliar.

Embora ainda tenha que enfrentar fortes recaídas, chegando a colocar sua vida em risco, esse aluno tem plena consciência dos riscos a que se expõe ao consumir ainda que apenas uma pequena dose de álcool. Sendo assim, a melhor forma de apoiá-lo é ajudando-o a enxergar que o melhor caminho para o seu tratamento é a completa abstinência de todas as drogas, pois "a simples ingestão de álcool pode desencadear fissura por cocaína e quebrar a abstinência" 8:246

Além dos resultados explicitados na dissertação de mestrado citada, outra manifestação explícita a respeito da avaliação do Programa "Na Boca do Crusp" por parte de um dos alunos atendidos esteve presente numa das edições do boletim bimestral, onde há espaço para que os moradores se expressem através de matérias ou depoimentos:

A Coseas oferece a opção de encaminhar o usuário de drogas para tratamento de acordo com o interesse da pessoa, e são observados as teorias e práticas da redução de danos e o direito à liberdade de escolha do cidadão. O programa tem obtido bons resultados, oferecendo ajuda ao usuário que o procura e ampliando sua qualidade de vida. 9:6

Este depoimento demonstra a simpatia do aluno à redução de danos. O Ministério da Saúde admite hoje a aplicação dessa estratégia para usuários de drogas, visando reduzir os danos para aqueles que não conseguem ou não querem se abster10. Muitos dependentes abandonam o tratamento por não conseguirem se manter abstêmios, conforme exigências de muitos programas, e, nesses casos, a proposta da estratégia de redução de danos poderia ter melhores resultados. O "Na Boca do Crusp" considera que qualquer forma de aproximação com uma pessoa que esteja utilizando drogas de forma problemática é válida e que a estratégia a ser adotada deve se adaptar aos objetivos e metas do usuário, desde que estes estejam direcionados para o controle da doença.

 

CONCLUSÃO

Passados seis anos da implantação do programa "Na Boca do Crusp Prevenção e Acolhimento" na moradia estudantil do campus Butantã da Universidade de São Paulo, a experiência permitiu concluir que o difícil trabalho de prevenção de drogas no meio universitário deve estar aberto a diversas estratégias de aproximação com os usuários, utilizando para isso instrumentos que permitam trabalhar com a realidade que se apresenta em meios sociais distintos, ou seja, deve ser voltado para as especificidades e características próprias de cada grupo social. Foi possível concluir também que um programa de acompanhamento e apoio a tratamento estabelecido no próprio ambiente da moradia estudantil fez diferença no tocante à transformação do processo saúde-doença das pessoas atendidas.

Por fim, evidenciou-se que, enquanto transformações na dimensão estrutural (políticas públicas de segurança e saúde) acontecem em longo prazo, intervenções que propiciam transformações na dimensão particular (meios sociais distintos) e singular (indivíduos) se mostram imprescindíveis e possíveis em curto prazo, justificando, portanto, a existência de programas do tipo deste relatado.

 

REFERÊNCIAS

1. Stempliuk VA. Uso de drogas entre alunos da Universidade de São Paulo: 1996 versus 2001 [tese de doutorado]. São Paulo(SP): Faculdade de Medicina/ USP; 2004.

2. Laranjo THM. O Crusp: processos de socialização e consumo de drogas. [dissertação de mestrado]. São Paulo(SP): Escola de Enfermagem/USP; 2003.

3. Zalaf MRR. Uso problemático de álcool e outras drogas em moradia estudantil: conhecer para enfrentar. [dissertação de mestrado]. São Paulo(SP): Faculdade de Medicina/ USP; 2007.

4. Soares CB. Consumo contemporâneo de drogas e juventude: a construção do objeto na perspectiva da saúde coletiva. [tese de doutorado]. São Paulo(SP): Faculdade de Medicina/ USP; 2007.

5. Fonseca RMGS, Bertolozzi MR. A epidemiologia social e a assistência à saúde da população. In: Associação Brasileira de Enfermagem. A classificação das práticas de enfermagem em saúde coletiva e o uso da epidemiologia social. Brasília(DF): ABEn; 1997.p.1-60. Série Enfermagem em Saúde Coletiva

6. Egry EY. Saúde coletiva: construindo um novo método em enfermagem. São Paulo(SP): Ícone; 1996.

7. Centro de Informação sobre Saúde e Álcool -CISA. Entrevista com a Profa. Dra. Florence Kerr-Corrêa [texto na Intenet]. São Paulo, 2006. [citado 10 mar 2006]. Disponível em: http://www.cisa.org.br/categoria.html?FhldTexto=513ebb4bfdbfbfefe2c6e7ac864a

8. Leite MC, Cabral ACJ. Promoção da abstinência. In: Leite MC, Andrade AG, Segal A, Gigante AD, Malbergier A, Cabral ACJ, et al. Cocaína e crack: fundamentos ao tratamento. Porto Alegre(RS): Artmed; 1999. p.238-53.

9. Universidade de São Paulo-USP. Coordenadoria de Assistência Social -COSEAS. Na Boca do Crusp-boletim 2007 jun/jul.

10. Ministério da Saúde(BR). Coordenação Nacional de DST e Aids. Manual: redução de danos: saúde e cidadania. Brasília(DF); 2001.

 

 

Recebido em 11/09/2007
Reapresentado em 19/10/2007
Aprovado em 25/10/2007

 

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