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Ministério da Educação
CAPES

Volume 11, Número 4, Out/Dez - 2007

PESQUISA

 

Grupo de ajuda como suporte aos alcoolistas1

 

Help group as support to the alcoholics

 

Grupo de Ayuda como Soporte a los Alcoholistas

 

 

Alice do Carmo JahnI; Verginia Medianeira Dallago RossatoII; Sabrina Santos de OliveiraIII; Evanir Parcianello MeloIV

IEnfermeira, Mestre em Enfermagem Fundamental pela EERP/USP. Professora Assistente do Departamento de Enfermagem UFSM/CESNORS Palmeira das Missões RS. Coordenadora do curso de Enfermagem. e-mail: alicejahn@terra.com.br;
IIEnfermeira, Mestre em Assistência de Enfermagem pela UFSC. Professora Assistente do Departamento de Enfermagem UFSM/CESNORS Palmeira das Missões RS. Membro do grupo de pesquisa Cuidado, Saúde e Enfermagem. E-mail: vmrossato@yahoo.com.br;
IIIEnfermeira do PSF de Formigueiro-RS;
IVEnfermeira, Mestre em Assistência de Enfermagem pela UFSC. Professora Assistente do curso de Enfermagem da UNIFRA/RS- Santa Maria/RS. Enfermeira do CAPS - ad Santa Maria /RS.

 

 


RESUMO

Trata de estudo descritivo exploratório, que teve como objetivo conhecer a história de pessoas alcoolistas que freqüentam grupos de ajuda do Centro de Atendimento Psicossocial para Dependentes de Álcool e Drogas (CAPS-ad). A coleta dos dados foi realizada com dez pessoas alcoolistas no ano 2005 no Município de Santa Maria-RS. Foram utilizados um instrumento estruturado e uma técnica projetiva, o desenho-história com tema. Nos resultados, os relatos expressam como é a trajetória de suas vidas. Já o apoio que recebem através dos grupos foi demonstrado pela visão de que o local representaria uma casa, uma família, um lugar seguro, onde todos com o mesmo problema se ajudam para a reconstrução de suas vidas. Entende-se como necessário o trabalho do enfermeiro neste processo, para que o usuário consiga manter-se em abstinência.

Palavras-chave: Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias. Local de Trabalho. Redução do Dano. Enfermagem do Trabalho.


ABSTRACT

It is about a descriptive exploratory study that had as objective to know the history of alcoholic people, who attends aid groups of the Center of Psychosocial Attendance for Alcohol Dependents and Drugs (CAPS-ad). The collection of the data was made with ten alcoholic people in the year 2005 in the city of Santa Maria RS (Brazil). Were used a structuralized instrument and a projective technique, the drawing-history with subject. In the results, the stories expressed how the trajectory of their lives is. The support that they had received through the groups was demonstrated by the vision that the place would represent: a house, a family, a safe place, where all the involved with the same problem help each other for the reconstruction of their lives. It is understood as necessary the work of the nurse in this process, that can the dependent people can be on abstinence.

Keywords: Nursing. Population. Alcoholism.


RESUMEN

Se trata de un estudio descriptivo exploratorio que tuve como objetivo conocer la historia de personas alcoholistas, las cuales frecuentan grupos de ayuda del Centro de Atención Psicosocial para Dependientes del Alcohol y Drogas, (CAPS- ad). La colecta de los dados fue realizada con diez personas alcoholistas en el año 2005 en el Municipio de Santa Maria RS.  Fueron utilizados un instrumento estructurado y una técnica proyectiva, el dibujo historia con tema. En los resultados, los relatos expresan como es la trayectoria de sus vidas. Ya el apoyo que reciben a través de los grupos fue mostrado por la visión de que el local representaba una casa, familia, un lugar seguro, donde todos con el mismo problema se ayudan para la reconstrucción de sus vidas. Es entendido que se hace necesario el trabajo del enfermero en este proceso, para que el usuario consiga mantenerse en abstinencia.

Palabras clave: Enfermería. Población. Alcoholismo.


 

 

INTRODUÇÃO

O alcoolismo é uma doença crônica que se desenvolve sem a pessoa perceber que está ficando dependente, não consegue separar-se do álcool, e acredita que para todos os problemas ele é a solução. No momento em que se fala para o usuário que o alcoolismo é uma doença, normalmente a sua primeira reação é negar a dependência. O álcool por ser uma droga lícita e se apresentar de diversas formas e sabores, facilita o uso indiscriminado, e, muitas vezes quando o dependente procura ajuda, ele já está num estágio avançado, tornando mais difícil e demorada a sua recuperação.

Como profissional da saúde, o enfermeiro tem um papel importante na relação de ajuda, mediante a escuta atenta do usuário, que é fundamental para que se possam esclarecer as dúvidas do mesmo acerca da doença, bem como oferecer uma assistência integral e de qualidade, objetivando a adesão deste à terapia grupal. É de relevância a abordagem do enfermeiro como suporte na recuperação do indivíduo intervindo no processo terapêutico1.

Existem várias modalidades terapêuticas que podem contribuir com o dependente durante o seu tratamento, oferecendo todo o apoio durante essa fase, como, por exemplo, os Grupos de Alcoólicos Anônimos (AA), Fazendas Terapêuticas, Centro de Atendimento Psicossocial para Dependentes de Álcool e outras Drogas (CAPS-ad), entre outras. Essas modalidades de atenção à saúde visam à recuperação do dependente, à redução de danos e sua reinserção social o mais rápido possível.

Este estudo foi realizado no CAPS-ad do Município de Santa Maria-RS e teve como objetivos: (a) conhecer a história de pessoas alcoolistas, que freqüentavam grupos de ajuda; e (b) descrever a importância desses grupos na concepção dos usuários do serviço.

 

O GRUPO COMO SUPORTE

Existem em diferentes locais vários grupos de ajuda para familiares e dependentes químicos. Neles são realizados trabalhos gratuitos de prevenção e tratamento com usuários que pretendem abandonar o uso do álcool, ou seja, estão motivados para isto. O trabalho em grupo, a assistência de profissionais preparados e a troca de experiências de quem já passou pela situação são enriquecedores para saber como agir diante do problema. A ajuda gratuita está assegurada no texto da Lei 10.216, de 06 de abril de 2001, um marco legal da Reforma Psiquiátrica. Nela foram ratificadas, de forma histórica, as diretrizes básicas que constituem o Sistema Único de Saúde.2

Nos grupos de apoio, há um contrato terapêutico no qual são feitas combinações tais como a manutenção do sigilo, o compromisso com assiduidade, bem como a de manutenção da abstinência alcoólica. Caso ocorram recaídas, ou seja, se o usuário voltar a beber, o fato deve ser trazido aos demais integrantes do grupo para que ele seja apoiado por aqueles que já passaram por esta situação. Em alguns grupos, há espaço também para as famílias, o que possibilita a troca de experiências e ajuda.

No processo interpessoal enfermeiro-usuário estabelecido através de uma relação entre dois seres humanos, no qual um precisa de ajuda e o outro fornece ajuda, o enfermeiro proporciona meios para o cliente enfrentar a situação da doença, aprender com a experiência e encontrar o seu significado.3

Alguns sentimentos que com freqüência observam-se no alcoolista são os de baixa estima, abandono e desvalia. Nos grupos de apoio, busca-se resgatar valores, possibilidades, potencialidades e pertencimento. Porém, deixa-se claro que o enfrentamento e a possibilidade de mudança de comportamento dependem de cada um. Valorizar a vida é buscar a realização de projetos pessoais e coletivos, criando uma interação entre seres humanos. Nessa relação não se evidencia qualquer processo de hierarquia, de modo que ambos compartilhem seus sentimentos, valores e significados através do processo de comunicação.3

 

CAMINHO PERCORRIDO

A metodologia adotada para desenvolver o estudo está inserida na abordagem qualitativa, do tipo descritivo-exploratória. A pesquisa descritiva busca conhecer as diversas situações e relações que ocorrem na vida social, política e econômica e demais aspectos do comportamento humano, tanto do indivíduo isolado como dos grupos.4

A população do estudo foram pessoas alcoolistas inseridas na modalidade intensiva do Centro de Atenção Psicossocial para dependentes de álcool e drogas (CAPS-ad) do Município de Santa Maria-RS.

Foram adotados alguns critérios para selecionar a amostra, tais como: ter idade acima de 20 anos; apresentar possibilidade de uma comunicação efetiva; ser capaz de realizar desenhos simples; morar no Município, aceitar participar da pesquisa e fazer parte dos grupos de apoio do CAPS-ad. Assim, a amostra foi constituída por 10 pessoas alcoolistas, e a coleta de dados foi realizada no CAPS-ad no segundo semestre de 2005.

Para localizar os sujeitos da amostra considerando-se os critérios expostos, procederam-se as seguintes etapas: inicialmente foi feito contato com a enfermeira coordenadora do CAPS-ad, para a qual a proposta e os objetivos da pesquisa foram expostos.

Antes de proceder a coleta de dados, foram expostos aos usuários os objetivos do estudo, e eles foram convidados a participarem do mesmo. Depois de sua aceitação, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado em duas vias, ficando uma com o entrevistado e outra com o pesquisador. Foram observados os preceitos éticos conforme a Resolução do Conselho Nacional de Saúde 196/96, que regulamenta a pesquisa em seres humanos.do projeto por Comitê de Ética em Pesquisa.

Para coletar os dados foram utilizadas duas técnicas: a história oral temática e o desenho acromático. Para obter a história oral, foi utilizado um instrumento estruturado, para guiar a entrevista, a qual foi registrada através do gravador. A fala dos entrevistados foi transcrita na íntegra, sem correções, e digitada no computador, deixando-se margens tanto à direita como à esquerda do papel para anotações.

A história oral temática é uma técnica que vem sendo utilizada para elaboração de documentos, arquivamento e estudo sobre a vida social das pessoas. Ela é sempre uma história do tempo presente e é também conhecida por história viva.5 A análise temática, com o recorte do conjunto das informações, através de categorias projetadas sobre os conteúdos, levanta os temas significativos.

A análise constituiu-se de três fases: a primeira de pré-análise, que compreendeu a seleção e organização do material, permeadas de sucessivas leituras, o que veio constituir o corpo documental do trabalho; a segunda fase, que abrangeu a exploração do material; e a terceira fase, que compreendeu o tratamento dos dados.

Aos participantes da pesquisa foi solicitado que realizassem um desenho e depois contassem uma história referente ao mesmo. O desenho-história com tema foi utilizado no estudo como um instrumento no âmbito da pesquisa. O desenho é uma forma de comunicação escrita dos usuários, e a história, a comunicação oral. Assim, emergiram três temas principais. Para os alcoolistas, o grupo de ajuda tem a importância de uma casa; ajuda; direção.

 

ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

A seguir será apresentado o desenho-história referente à importância dos grupos de ajuda para os alcoolistas.

 

 

Eu não tenho outra família além dessa daqui e eu fico sozinho em casa. O meu segundo lar é aqui junto com meus familiares [...] (Entrevista 1).

Observa-se no desenho que a pessoa alcoolista, na sua percepção, vê os grupos de ajuda como sua casa, sua proteção e a sua família. No momento, devido aos seus problemas com o álcool, ele está afastado do convívio familiar, vivenciando uma estrutura familiar desorganizada. São necessárias constantes modificações na família porque a mesma é um sistema, e a existência de um membro dependente de substâncias faz com que a família movimente-se para adaptações, levando a dificuldades no desenvolvimento de seus membros e da família como uma unidade.6

O usuário busca força nos grupos para reconstruir sua família, como exemplifica o depoimento à seguir:

 

 

Os grupos são uma família que se entende, que tem os mesmos problemas, uns tentam ajudar os outros [...] (Entrevista 2).

A importância do grupo de ajuda para o entrevistado 2 é demonstrada através do desenho de uma casa, expressando, assim, a proteção, a segurança, o acolhimento que o ambiente proporciona como um espaço livre das tentações da bebida, como também o fato de estar compartilhando experiências no grupo com pessoas que possuem o mesmo problema. No nosso entendimento, este espaço de acolhimento, do qual o enfermeiro faz parte, muitas vezes não faz parte da realidade do usuário do serviço, assim se constituindo em uma oportunidade de construção-reconstrução de maneiras mais saudáveis de vida à pessoa alcoolista.

A flor e a árvore, conforme depoimentos dos entrevistados, representam a proteção e a luta contra a dependência, buscadas nos grupos de ajuda para superar as fragilidades e adquirir força para se manter em abstinência. Em um estudo com grupos de AA, há o relato de que a partir das reuniões os usuários começaram a perceber o alcoolismo como doença progressiva e incurável e trazem a troca de experiências semelhantes como fator que muito colaborou na sua recuperação.7

Os eventos devem confrontar o usuário com sua atual realidade de vida, levando-o a reconhecer todos os comprometimentos existentes e induzindo-o à construção dos valores corretos que representem o despertar para uma vida proveitosa sem a dependência do álcool.8

A convivência com pessoas que possuem a mesma dependência, durante os encontros nos grupos, favorece a troca de experiências, contribuindo para que o indivíduo aprenda a lidar com as situações desafiadoras. O objetivo desta ajuda é proporcionar os meios para o cliente enfrentar a situação da doença, aprender com a experiência e encontrar o seu significado,3 como a fala a seguir exemplificada:

 

 

Eu encontrei o CAPS. Eu acho que aqui dentro tem árvores, o sol ilumina e as pessoas também iluminam a gente. Aqui tudo é diferente, meu primeiro lar, meu porto seguro [...] (Entrevista 3).

A fala do entrevistado 3 transmite o modo como se trabalha dentro de um centro de ajuda, no qual a equipe multidisciplinar busca alternativas para tentar contornar os problemas decorrentes do uso do álcool. O trabalho desenvolvido remete a pessoa à sua responsabilidade, não para condená-la pelo que acontece, nem para culpá-la, mas sim para ajudá-la a reconhecer no seu comportamento as escolhas que ela fez para chegar à atual situação sem fazer julgamento.9

 

 

Essa casa representa o meu dia-a-dia aqui no CAPS, participando dos grupos e buscando apoio para o meu tratamento [...] (Entrevista 4).

A fala do entrevistado 4 mostra sua adesão ao tratamento, participando dos grupos, para obter apoio e para recuperar sua dignidade diante da sociedade e da sua família

Neste sentido:

Os programas de tratamento de álcool utilizam o aconselhamento em grupo para o paciente e para a sua família, a reabilitação vocacional para o paciente, sessões centradas no uso adequado do tempo livre e o estabelecimento de um grupo de companheiros que estão abstinentes.10

O usuário que participa dos grupos precisa estar em abstinência, o que é uma motivação para a pessoa alcoolista parar de beber. Para isto, cada indivíduo deve procurar em si seus limites e decidir de que maneira irá manter-se em equilíbrio.11

Caso ocorra uma recaída, é recomendado ao usuário dependente que exponha ao grupo para que se possa debater e refletir sobre o fato, levantando as hipóteses prováveis sobre o que poderia ter ocasionado a recaída, e para que os demais que já vivenciaram esta situação possam ajudá-lo. Entretanto, confirmando a análise, se a pessoa alcoolista, porém, voltar a beber, espera-se que o fato seja tratado no próprio grupo para que ela possa ser ajudada por aqueles que já passaram por esta situação.12

Os grupos são realizados tratando de um assunto específico, por exemplo, o alcoolismo. Com relação a ele, são expostos os problemas e as dificuldades que o usuário está tendo para se manter em abstinência. São contadas as experiências de cada membro do grupo, para que, a partir disso, os outros membros possam tirar proveito e aprender com as situações abordadas.

Os sentimentos relatados pelos pesquisados de proteção, de socialização, de adesão, de busca e de acolhimento que este espaço proporciona foram representados através do desenho de casas, demonstrando a importância que os grupos têm para os usuários. Com a reforma psiquiátrica e a criação de serviços de saúde mental, o grupo torna-se um espaço terapêutico para a clientela e de afirmação de uma nova atuação dos profissionais.13

 

 

Cada rosa desta a, representa todos, representa as pessoas que coordenam os grupo, que tão sempre conversando e orientando todos [...] (Entrevista 5).

Na fala do entrevistado 5, nota-se a importância atribuída ao trabalho em equipe que é realizado no CAPS, no qual é preconizada a relação mútua, a interdisciplinaridade e o fortalecimento do vínculo terapêutico. Neste sentido,

É importante ressaltar que os vínculos terapêuticos estabelecidos pelos usuários com os profissionais e com o serviço, durante a permanência no CAPS, podem ser parcialmente mantidos em esquema flexível, o que pode facilitar a trajetória com mais segurança em direção à comunidade, ao seu território reconstruído e ao seu ressignificado.2

Durante o encontro dos grupos não se fala somente em alcoolismo. São abordados vários assuntos que o dependente ache necessário expor ao grupo e que sirvam como lição de vida. Os temas são os mais diversificados possíveis, variando desde a bebida nos seus mais diferentes aspectos, até a atividade profissional e social, as relações familiares, a relação sexual e os problemas íntimos dentre outros.14 Esta situação fica evidenciada nas seguintes falas:

Dentro de uma sala de grupos não se fala só em alcoolismo. Muitos desabafam sobre a família, isso é muito bom [...] (Entrevista 6).

Tem os grupos que o que eu puder abrir o peito ali e falar, eu falo. Também, porque eu sei que o que eu falar pode servir de exemplo pra alguma pessoa [...] (Entrevista 7).

Gosto muito dos grupos, porque ajuda muito no tratamento. E eles explicam muitas coisas [..] (Entrevista 8).

Os grupos são importantes para ajudar o dependente a se manter em abstinência, reintegrar-se à sociedade e à família. É importante ressaltar que as pessoas alcoolistas permanecem freqüentando os grupos de ajuda, para continuarem tendo forças para se manterem em abstinência. Quando eles se distanciam do grupo, faltam às reuniões e não procuram seus companheiros; acontecem as recaídas. Então, é todo um processo que retoma seu curso e coloca todo o tratamento em risco.14

 

 

Cada vez que eu consigo admirar o sol eu sei que é mais um dia que eu não bebi. Isto, graças à ajuda dos grupos [...] (Entrevista 9)

 

 

Esta estrela é o grupo que vem orientando todo mundo a seguir uma direção. É a resposta que as pessoas procuram [...] (Entrevista 10)

Fica evidenciado na fala dos entrevistados 9 (Figura 6) e 10 (Figura 7) que os grupos de ajuda são vistos como uma luz nos seus caminhos, iluminando os seus passos e transmitindo forças para que se mantenham sóbrios. Qualquer tentativa terapêutica deve vir acompanhada de um "clima" afetivo, no qual o paciente sinta a cada momento que toda a equipe está ao seu lado e da sua família, e não contra ele.15 Por isto, é importante que o profissional que coordena os grupos deixe os usuários dependentes à vontade para falarem sobre o que perturba a eles e que problemas estão enfrentando, para que juntos possam achar a melhor solução.

Assim, é importante que a pessoa alcoolista participe dos grupos, que são grandes aliados para a sua recuperação, pois é durante os encontros que eles convivem com as diferentes experiências de cada participante, já que a situação decorrente da doença é a mesma para todos. No alcoolismo pode ocorrer uma mudança de vida, com base em ensinamentos já experimentados por outras pessoas que tiveram a mesma doença e encontraram nesta mudança o caminho certo para a sua recuperação.8

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O alcoolismo é uma doença que tem afetado pessoas de todas as idades e sexos, e que já se expandiu por todas as classes sociais, mesmo que antigamente ela tenha sido considerada uma doença das classes menos favorecidas e aparecesse mascarada nos níveis mais altos da sociedade.

O Centro de Atendimento Psicossocial para Usuários de Álcool e Drogas (CAPS-ad) desenvolve um trabalho junto aos alcoolistas que visa recuperar o dependente, reduzir danos e resgatar seu convívio com a família e a sociedade. Esse trabalho é realizado a partir dos grupos de ajuda, nos quais são expostos os problemas vivenciados pelos alcoolistas. Nesses grupos, é fundamental a presença do enfermeiro para orientar e buscar soluções junto ao grupo, visando entender o comportamento humano.

O enfermeiro tem um papel fundamental no tratamento do alcoolismo, pois ele auxilia o dependente na aceitação de sua doença, o que favorece seu tratamento efetivo. Esta facilitação do enfermeiro subsidia realmente o alcance de efeitos positivos e definitivos, que não sirvam apenas como uma medida paliativa, uma vez que o tratamento é feito de forma contínua. Para que estes efeitos sejam alcançados, também é necessário que o usuário se comprometa a participar dos grupos de ajuda.

Os resultados evidenciaram que os grupos de ajuda são vistos pelos alcoolistas como uma família, uma casa, um lugar seguro, onde todos convivem com o mesmo problema, ajudam-se mutuamente para conseguirem se manter em abstinência e adquirirem força para reconstruir suas famílias e recuperarem a confiança e a dignidade, que ficam comprometidas pelo processo da doença.

 

REFERÊNCIAS

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2. Ministério da Saúde (BR). A política do Ministério da Saúde para atenção integral a usuários de álcool e outras drogas. Brasília(DF): Secretaria de Atenção à Saúde. SVS/CN DST/AIDS; 2004 d. p.27.

3. Leopardi MT. Teorias em enfermagem: instrumentos para a prática. Florianópolis(SC): Papa-Livro; 1999. p.85.

4. Cervo AL, Bervian PA. Metodologia da pesquisa. 5ª ed. São Paulo(SP): Prentice Hall; 2002.

5. Meihy JCSB Manual de história oral. 3ª ed. São Paulo(SP): Loyola; 2000.

6. Rossato VMD, Kirchhof ALC. Famílias alcoolistas: a busca de nexos de manutenção, acomodação e repadronização de comportamentos alcoolistas. Rev Gaucha Enferm [on line] 2006 jun; [citado 15 set 2007]. 27(2). Disponível em: <http://www.portalbvsenf.eerp.usp.brhttp://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69332006000200012&lng=pt&nrm=iso

7. Silva SED, Souza, MJ. Alcoolismo: representações sociais de alcoolistas abstêmios. Esc Anna Nery Rev Enferm 2004 dez;8(3):426.

8. Tonico LS. Alcoolismo: como entender e ajudar. 3ª ed. São Paulo(SP): Paulinas; 2001.

9. Andrade AG, Nicastri S, Tongue E. Drogas: atualização em prevenção e tratamento. São Paulo(SP): Lemos; 1993.

10. Schuckit M. Abuso de alcool e drogas: uma orientação clínica ao diagnóstico e tratamento. Porto Alegre(RS): Artes Médicas;1991. p.308.

11. Araújo VA. Compreender o alcoolismo: teoria e prática. São Paulo(SP): Edicon; 1986.p.23.

12. Silva MRS. Família e alcoolismo: em busca do conhecimento. [dissertação de mestrado]. Florianópolis(SC): Programa de Pós Graduação em Enfermagem/ UFSC; 1996,p.68.

13. Souza AMA, Fraga MNO, Moraes LMP, Garcia MLP, Moura KDR, Almeira, PC, et al. Grupo terapêutico: sistematização da assistência de enfermagem em saúde mental. Texto & Contexto Enferm 2004 out./dez.;13(4):626.

14. Zuse AS. A autonomia que a educação não tornou consciência, resultou em dependência alcoolismo. [dissertação de mestrado] Santa Maria(RS): Universidade Federal de Santa Maria;1991.

15. Ramos SP, Bertolote JM, et al. Alcoolismo hoje. 2ª ed. Porto Alegre(RS): Artes Médicas;1997.

 

 

Recebido em 26/10/2006
Reapresentado em 28/09/2007
Aprovado em 15/10/2007

 

 

1Pesquisa referente à elaboração do Trabalho de Conclusão do Curso de Enfermagem da UNIFRA (Centro Universitário Franciscano - Santa Maria/RS).

 

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