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CAPES

Volume 11, Número 4, Out/Dez - 2007

PESQUISA

 

As condições de trabalho como fator desencadeador do uso de substâncias psicoativas pelos trabalhadores de enfermagem

 

The work conditions as unleash factor of the psychoactive substance use by the workers of nursing

 

Las condiciones de trabajo como factor desencadenante del uso de sustancias psicoactivas por los trabajadores de enfermería

 

 

Elizabeth Rose Costa MartinsI;Regina Célia Gollner ZeitouneII

IProfessora Assistente do Departamento de Fundamentos de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professora da Universidade Veiga de Almeida. Doutoranda da EEAN/UFRJ. E-mail: oigresrose@uol.com.br.
IIProfessora Adjunta do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública da EEAN/UFRJ. Doutora em Enfermagem. Pesquisadora / NUPENST / DESP / EEAN / UFRJ.

 

 


RESUMO

O estudo teve como objeto o uso de substâncias psicoativas pelos trabalhadores de enfermagem e sua relação com o trabalho. O objetivo foi analisar as condições de trabalho como fator desencadeador do uso de drogas pelo trabalhador de enfermagem. O referencial teórico estruturou-se a partir do conceito de drogas e modelos explicativos da drogodependência, apoiados nas concepções de Dejours (1999) e Laurell & Noriega (1989). Estudo descritivo de abordagem qualitativa com 40 sujeitos trabalhadores de enfermagem de clínica médica de um hospital universitário no Município do Rio de Janeiro, realizado em 2005 e 2006. Como instrumento de coleta de dados utilizou-se a entrevista semi-estruturada. Os resultados mostraram que a utilização de substâncias psicoativas pelos profissionais no local de trabalho pode estar relacionada com as condições de sobrecarga de trabalho e com a facilidade de acesso e que tais substâncias comprometem a sua saúde e o desenvolvimento de suas atividades laborais.

Palavras-chave: Enfermagem. Abuso de Substâncias Psicoativas. Saúde do Trabalhador.


ABSTRACT

The study had as object the psychoactive substance use by the workers of nursing and its relation with the work. The objective was to analyze the work conditions as unleash factor of the use of drugs by the nursing worker. The theoretical referential was structuralized from the concept of drugs and clarifying models of the drug dependency, supported in the conceptions of Dejours (1999) and Laurell & Noriega (1989). Descriptive study of qualitative approach with 40 citizens workers of nursing of medical clinic of a university hospital in the City of Rio de Janeiro - Brazil, carried through in 2005 and 2006. As instrument of data collection, was used the half-structuralized interview. The results showed that the psychoactive substance use by the professionals in the work place can be related with the conditions of overload work and with the easiness of access and that such substances compromise their health and the development of their labor activities.

Keywords: Nursing. Substance-Related Disorders. Occupational Health.


RESUMEN

El estudio tiene como objeto el uso de substancia psicoactivas por los trabajadores de enfermería y su relación con el trabajo. El objetivo fue analizar las condiciones de trabajo como factor desencadenante al uso de drogas por el trabajador de enfermeria. El referencial teórico se estructuró a partir del concepto de drogas y modelos explicativos de la drogodependencia, apoyado en las concepciones de Dejours (1999) y Laurell y Noriega (1989). Estudio descriptivo y enfoque cualitativo con 40 sujetos trabajadores de enfermeria, de clínica médica de un hospital universitário del Municipio de Rio de Janeiro- Brasil, realizado en 2005 y 2006. Como instrumento de recolección de datos, la entrevista semiestructurada. Los resultados revelan que la utilización de substancias psicoactivas, por los profesionales, en el local de trabajo, puede estar relacionada con las condiciones y carga excesiva de trabajo, con la facilidad de acesso y con las condiciones familiares, ambientales y sociales. Se concluye que esas substancias comprometen la salud de ellos y el desarrollo de sus actividades laborales.

Palabras clave: Enfermería. Trastornos Relacionados con Sustâncias. Salud Laboral.


 

 

INTRODUÇÃO

O estudo teve como objeto o uso de substâncias psicoativas pelos trabalhadores de enfermagem e sua relação com o trabalho, abordando não apenas as drogas encontradas no contexto hospitalar, mas todas as substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, considerando a possibilidade de o uso ser anterior ou não ao início das atividades profissionais.

O fenômeno das drogas é um problema multidimensional, portanto não basta circunscrevê-lo à mera relação existente entre uma pessoa e uma substância. Faz-se necessário considerar a interação que ambos efetuam num determinado contexto, os valores e crenças e suas relações sociais, econômicas e políticas, incluindo-se o trabalho.

O trabalho de enfermagem em unidade hospitalar traz situação de risco e alguns fatores podem interferir na potencialização desses riscos: a habilidade ou não dos trabalhadores para agirem diante das situações de maneira adequada (não aumentando o risco natural); os instrumentos de trabalho suficientes e em boas condições ou insuficientes e em más condições; a rotatividade de pessoal, as questões relacionadas à gerência dos serviços e de pessoal, dentre outros.

No contexto de trabalho dos profissionais da área da saúde, em específico, na perspectiva de tentar melhorar as condições de trabalho e, conseqüentemente, a assistência prestada, devemos considerar "o cotidiano do trabalho hospitalar com cargas de tensão e conflito a mobilizar sujeitos concretos que se situam nos limites geográficos desta atividade humana" 1.

Os ritmos e as complexidades que o trabalho alcançou neste mundo moderno por si só constituem um alto risco quanto ao uso de substâncias psicoativas. Tanto a falha no trabalho como as demandas que isto impõe quando o trabalhador é comprometido criam condições favorecedoras para o suposto mundo irreal de bem-estar, de tranqüilidade ou de poder que oferecem as drogas socialmente aceitas, como álcool, os tranqüilizantes e o tabaco, o que torna o fator mais nocivo e perigoso para a saúde, ao qual a sociedade moderna deve enfrentar2.

Percebe-se que as concepções dadas sobre o significado e os modos de organizar o trabalho se agregam, em particular, às ações inovadoras ou não, instituídas em algum momento da trajetória da sociedade. As muitas formas de "olhar" esse fenômeno têm a ver, também, com os recortes de análise, os valores culturais, éticos, familiares e mesmo com as concepções de trabalho.

A enfermagem, como trabalho, e portanto prática social e histórica, situa-se na organização do processo de trabalho mais geral e, neste estudo, dentro do hospital e mais precisamente nas unidades de clínica médica, vivenciando a crise da saúde brasileira, com uma desestrutura de recursos humanos, materiais e tecnológicos.

Existe uma onipresença do trabalho humano em todas as expressões da vida social, situando o trabalhador numa hierarquia de valores com prestígio diferenciado e remetendo-o a diferentes possibilidades de consumo, felicidade, adoecimento e morte3.

Hoje o trabalhador não atua somente para viver, mas também para satisfazer um conjunto de necessidades que correspondem ao nível de vida que a sociedade veicula e ainda para atender os interesses da acumulação no contexto capitalista.

O que se deseja é uma perspectiva de melhorar as condições de trabalho, a eficácia da organização e uma melhor resposta ao usuário dos serviços, as quais somente poderão ser alcançadas se for considerado "o cotidiano do trabalho hospitalar com as cargas de tensão e conflito a mobilizar sujeitos concretos que se situam nos limites geográficos desta atividade humana"1.

Neste sentido, o estudo em tela teve como objetivo: analisar as condições de trabalho como fator desencadeador ao uso de drogas pelo trabalhador de enfermagem.

 

METODOLOGIA

Tratou de um estudo do tipo descritivo com abordagem qualitativa que favorece a obtenção de dados necessários para o desenvolvimento da pesquisa. Através das descrições, pode-se delinear acontecimentos, situações e citações que favorecerão a interpretação e análise das informações4.

A pesquisa qualitativa preocupa-se com uma realidade que não pode ser quantificada, respondendo a questões muito particulares, trabalhando com um universo de significados, crenças e valores que correspondem a um espaço mais profundo das relações, dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis5.

O cenário do estudo foi um hospital universitário situado no Município do Rio de Janeiro. Seguindo a orientação da Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, obteve-se da instituição a autorização para a realização do estudo e aprovação do Comitê de Ética.

Os sujeitos investigados foram os trabalhadores que compunham a equipe de enfermagem de clínica médica (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem), num total de 40 profissionais efetivos em atividade, na instituição.

Objetivando uma seleção, pertinente ao objeto de estudo, buscou-se criar alguns critérios de inclusão dos sujeitos, como: pertencer ao quadro efetivo do hospital; desenvolver suas atividades profissionais nas clínicas médicas; usuários ou não de substâncias psicoativas que se dispuseram a participar do estudo.

Como instrumento para coleta de dados utilizou-se entrevista semi-estruturada, com as seguintes questões: Que motivos podem levar o trabalhador de enfermagem a utilizar as substâncias psicoativas? Fale sobre a relação do ambiente de trabalho e o uso de substâncias psicoativas.

A identidade dos trabalhadores foi mantida em sigilo. O estudo foi realizado de acordo com o protocolo de pesquisa com seres humanos, sendo a eles fornecido um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, conforme Bardin. Em relação ao caminho a ser seguido, devido à facilidade com que emergiam algumas temáticas no momento da construção dos dados, optou-se pela técnica da análise temática6.

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

Para pensar o porquê e os motivos que levam o trabalhador de enfermagem ao uso de drogas, faz-se necessário refletir sobre a história, e o que o meio social e a própria condição de ser humano causam em muitas pessoas, como frustrações, insatisfações, medos e angústias, em maior ou menor grau, que podem fazer com que se busquem atividades e meios que tragam alívio para seus problemas e prazer não encontrado.

Além dessa condição de ser humano, o trabalhador de enfermagem, em seu dia-a-dia numa unidade de clínica médica, cuida de clientes idosos em sua terminalidade na maior parte do tempo. O tipo de atividades desenvolvidas e o perfil dos depoentes são alguns indicadores relevantes, como por exemplo: 80% eram do sexo feminino, 40% desses sujeitos atuavam em clínica médica há mais de 10 anos; 45% com 2 empregos e 20% com 3 empregos. Tais características pessoais e as condições de trabalho e suas cargas expõem o trabalhador de enfermagem a um freqüente desgaste, ou seja, a uma perda progressiva da capacidade de realização das suas atividades laborais.

Ao pensar nos motivos que podem levar o trabalhador de enfermagem a usar drogas, é necessário entender o que vêm a ser fatores de risco e proteção, para o uso dessas substâncias.

Fatores de risco são atributos e/ou características individuais, condição situacional e/ou contexto ambiental que incrementam a probabilidade do uso e/ou abuso de drogas (início) ou uma transição no nível de implicações com as mesmas (piora). Ligados a este conceito, encontram-se os fatores de proteção, atributos ou características individuais, condição situacional e/ou contexto ambiental que inibem, reduzem ou atenuam a probabilidade do uso e/ou abuso de drogas ou a transição de um nível de implicações com as mesmas7.

Esse entendimento ajuda a compreender o motivo pelo qual, no ambiente de trabalho, vivenciando a mesma estrutura, com tensões próprias da profissão, uns têm comportamento de risco e utilizam, enquanto outros utilizam de fatores de proteção para não se envolver com as substâncias psicoativas.

Assim, obteve-se que as condições de trabalho, a sobrecarga de trabalho e a facilidade ao acesso às drogas são alguns dos possíveis motivos para o uso de drogas.

Condições de trabalho

Vale salientar que o trabalho desempenhado pela Enfermagem nas instituições hospitalares é diferenciado dos demais trabalhos executados por outros profissionais de saúde. Contínuo, desgastante, exaustivo, desenvolvido a partir de uma relação interpessoal com o cliente, mas também capaz de proporcionar alegria, satisfação e prazer, sem os quais seria impossível continuar na profissão.

[...] acho que tudo que acontece no trabalho é motivo, profissão desgastante, difícil lidar com a doença, as condições de trabalho [...]. (E.2)

[...] a falta de condições adequadas de trabalho, como falta de material, pessoal, medicamentos. Condições pessoais como banheiro, vestiário, enfim condições dignas para se trabalhar, sem se estressar. Depois de tantas coisas que você passa na unidade, só uma bebida alcoólica para diminuir a tensão ao sair do plantão. (E.10)

As condições de trabalho surgem como um dos motivos, pois freqüentemente os trabalhadores se vêem na contingência de ter que atuar com recursos materiais em condições inadequadas de funcionamento, de qualidade questionável, insuficientes, expondo a biossegurança dos trabalhadores, dos clientes, a falta de privacidade e intimidade diante da organização das unidades, dentre outros elementos que poderiam ser apontados. E emerge a questão de como cuidar adequadamente do outro, se quem se reconhece como cuidador é desrespeitado e permite que seu saber seja desrespeitado, como refere a fala a seguir:

[...] se tivéssemos condições melhores de trabalho, não haveria tanto estresse em nosso dia-a-dia e talvez não fosse necessário utilizar de drogas a fim de melhorar a cabeça [...]. (E.8)

Com vistas a esta fala, cabe dizer que uma das formas de enfrentamento é a utilização de estratégias defensivas. Tais defesas visam a evitar o aspecto doloroso, muitas vezes inconsciente que o sofrimento resgata para o trabalhador, sendo difícil o confronto e a convivência com este sentir para a manutenção do equilíbrio psíquico, que requer a proteção do ego contra os conflitos que se encontram na base do sofrimento.

O uso de substâncias psicoativas com a finalidade de diminuir tensão, estresse e outros sintomas é mecanismo utilizado pelo trabalhador para negar ou minimizar a percepção da realidade que o faz sofrer. Tal defesa depende de condições externas e se sustenta no consenso de um grupo específico de trabalhador 9.

Alguns autores denunciam a contradição existente entre uma visão idealizada da profissão e as condições de trabalho enfrentadas, a baixa remuneração, o trabalho excessivo, o trabalho por turnos, a precariedade de recursos materiais e humanos, e a insegurança no trabalho, negando não apenas a si, mas possivelmente comprometendo o cuidado dos clientes9.

Atualmente, as instituições de saúde vêm passando por diversas dificuldades, e, dentre elas, as condições de trabalho vêm chamando a atenção; os profissionais têm que desenvolver suas atividades com qualidade sem que a instituição lhe dê condições para tal, e as complexidades no cuidar aumentam a cada dia e o profissional se sente cada vez mais exigido na sua competência, como a seguinte fala:

[...] nós não temos condições de trabalho adequado, mas tenho que ter eficiência no meu cuidar. Às vezes acho que vou pirar, pois tenho que dar conta apesar de tudo. E isso só uma substância para aliviar[...]. (E.14)

Neste momento surgem as questões: será necessário utilizar as drogas, a fim de diminuírem os problemas, pois elas causam mais problemas? Será que o profissional tem consciência de que só complicam mais ao utilizarem essas substâncias? Acredita-se que pelo nível de conhecimento dos investigados, estes reconhecem os benefícios e malefícios decorrentes do uso de drogas; no entanto, este conhecimento não é suficiente para evitar que em situação de desgaste, estresse, conflitos e outras condições, reflitam sobre as possibilidades adversas que a droga poderá causar.

Os trabalhadores de enfermagem apontam um desgaste emocional e físico, que tem relação direta com as condições precárias de trabalho, levando a insatisfação e sofrimento, entre outras.

O desconhecimento do trabalhador com relação aos riscos existentes no processo de trabalho explica o baixo índice de conflitos relacionados com essa temática. Este fato pode ser percebido quando o trabalhador diz que só uma substância pode aliviar o desgaste proporcionado pelo trabalho, surgindo o uso de substâncias psicoativas como possível solução ao desgaste9.

[...] as condições precárias de trabalho me levam ao desgaste mental, pois tenho que dar conta do trabalho e não sei como [...]. (E.40)

[...] essas condições de trabalho que o hospital me dá algumas vezes fazem com que eu precise beber, afim de aliviar o desgaste emocional [...]. (E.34)

E se esses indivíduos não tiverem os seus fatores de proteção, como família, religião, condições emocionais e outros bem estruturados, conseqüentemente irão utilizar outros meios na tentativa de diminuir a angústia e o sofrimento.

[...] às vezes penso que sou eu, outras penso que é o trabalho, pois as condições de trabalho não ajudam. Às vezes até penso se não seria um motivo para usar algo, pois podia me aliviar [... ]. (E.13)

Ao discutir questões relacionadas ao trabalho, dentre os sistemas defensivos individuais, o sofrimento presente na vivência e no discurso dos trabalhadores manifesta-se principalmente sob dois aspectos: a insatisfação e a ansiedade. Tais sentimentos, por sua vez, influenciam fortemente as relações no trabalho, ou seja, os laços humanos criados pela organização do trabalho10.

A insatisfação no trabalho está quase sempre atrelada às exigências inerentes às tarefas desenvolvidas pelos trabalhadores, muitas vezes o atendimento/cumprimento dessas exigências "terminam numa auto-repressão do funcionamento mental individual e num esforço para manter os comportamentos condicionados"10.

[...] eu muitas vezes me sinto insatisfeita, querendo trocar de unidade, mas logo percebo que não é a solução, pois falta de condições de trabalho está em todo o hospital. Então continuo sofrendo do mesmo jeito, na mesma unidade. (E.22)

Assim devem-se considerar alguns princípios, como: a vivência de prazer ou de sofrimento depende da mediação entre a subjetividade do trabalhador e as condições ambientais, sócio-culturais, econômicas e políticas, nas quais o trabalho está inserido; a organização do trabalho exerce um papel importante8.

O uso de substâncias psicoativas, como o álcool, na perspectiva dos depoentes, mostra que o consumo depende de como a pessoa interpreta essa experiência, de seus efeitos e como responde a nível psicológico. Nestes fatos, a personalidade e o ambiente social do indivíduo têm um significado especial. Para Del Moral Fernandez, isso caracteriza o Modelo Social de Peele, quando a pessoa não tem modos alternativos de satisfação e capacidade de adaptar-se a situações desfavoráveis11.

A sobrecarga de trabalho e o acesso à droga

O trabalhador de enfermagem está cotidianamente exposto às cargas de trabalho, que são elementos presentes no trabalho e podem causar danos ao trabalhador.

Convive, ainda, com situações de tensão em seu trabalho, durante anos repetindo as tarefas na mesma unidade. Essas atividades vão da menor complexidade até as de maior complexidade, exigindo desse trabalhador maior desempenho de suas competências.

Além dessa situação, tem-se que considerar o número de empregos que os sujeitos relatam, levando ao que eles referem de sobrecarga de trabalho, visto que o perfil desse trabalhador mostra que 80% dos sujeitos do estudo são mulheres e que 45% têm dois empregos, como observado nas seguintes falas:

[...] tenho dois empregos e mais as tarefas de casa, filhos, etc...[...] (E.6 )

[...] além do trabalho na enfermagem, um diurno e outro noturno, tenho todo o trabalho de casa [...] (E.18)

Diante dessas falas, observa-se a sobrecarga de trabalho decorrente das múltiplas atividades desenvolvidas pelas mulheres, tanto nas instituições de saúde como no próprio lar. Considerando que hoje elas são responsáveis pelo sustento das famílias, num percentual bastante significativo, cresce a responsabilidade desta mulher profissional e do lar em termos de provedora da família e de cuidadora de enfermagem.

Os depoimentos a seguir são reveladores das situações de riscos cotidianos a que estão submetidos os trabalhadores de enfermagem.

[...] a necessidade financeira faz o trabalhador de enfermagem buscar dois ou três empregos (sobrecarga de trabalho), e este pode ser um dos motivos. (E.5)

[...] a sobrecarga de trabalho, mais de um emprego, condições de trabalho, estresse, são fatores que podem levar ao uso de drogas. Mas penso que nem os usuários sabem direito, pois junto tudo isso e no fim vem a droga. (E.17)

Os depoentes revelam que as situações às quais a enfermagem se encontra exposta, aliadas à sobrecarga de trabalho, ensejam o uso de substâncias psicoativas, levando o trabalhador a uma diminuição de raciocínio, de reflexos e outros efeitos provocados pela droga.

[...] ter muitos empregos diminui o tempo de descanso e, conseqüentemente, a necessidade de se manter desperto e as condições de trabalho que as instituições nos oferecem. (E.7)

A fala traz a sobrecarga de trabalho e a necessidade de se manter desperto como fatores que levam à utilização de substâncias psicoativas na tentativa de conseguir trabalhar, tendo como situação de risco a manipulação de material perfurocortante, diminuição de raciocínio e reflexos, dentre outros.

[...] ter mais de um emprego significa que trabalho 24 horas seguidas, saio de um entro em outro emprego. (E.9)

O estresse laboral se deve à existência de fatores próprios da organização e ao conteúdo de trabalho porque há fatores tanto quantitativos (de trabalho, pressões de tempo), como qualitativos (trabalhos com pouca criatividade e escassa interação social) que podem provocar riscos nos trabalhadores e, inclusive, potencializam o uso de drogas12.

Refletindo acerca da sobrecarga de trabalho, o que se percebe é que o trabalhador de enfermagem está deixando o lazer, o descanso em detrimento de melhores condições financeiras ou de sobrevivência.

[...] eu preciso sobreviver e, para isso, preciso de dois empregos. Já tive até três, mas resolvi desistir de um, hoje tenho dois, mas não tenho tempo para nada a não ser trabalhar [...]. (E.12)

Esse depoimento expressa o cotidiano do trabalhador de enfermagem, mostrando a dimensão do trabalho que realizam. Pode-se inferir, diante das evidências, que o trabalho é conscientemente realizado de forma irregular, podendo estar associado a riscos à saúde do cliente e à saúde do trabalhador.

É reveladora a condição de trabalho imposta pela ideologia capitalista que absorve toda a força de trabalho para fazer jus ao mundo consumista, idealizado histórico e socialmente como prerrogativa de viver bem, ter qualidade (materiais) de vida.

A sobrecarga de trabalho, no que se refere ao cuidar de si, interfere nos meios para garantir a promoção da saúde, da integridade física e sua qualidade de vida, impedindo que os indivíduos busquem condições para uma relação de trabalho, na qual se priorizem o descanso físico e a disponibilidade de tempo para o cuidado de si.

As satisfações concretas estão associadas à proteção da vida, ao bem-estar físico, biológico e mental, ou seja, à saúde do corpo, enquanto as satisfações simbólicas tratam da vivência qualitativa da tarefa que desenvolvem. Nessa perspectiva, é o sentido e a significação do trabalho que importam nas suas relações com o desejo e com as motivações8.

Essas concepções de satisfação não se dão isoladamente, mas se intrincam de maneira complexa na realidade do trabalhador de enfermagem. Os depoimentos a seguir expressam, de maneira significativa, a satisfação que sentem ao cuidar do outro, apesar de todas as dificuldades vivenciadas.

[...] eu gosto muito do que faço, cuidar do outro é muito bom, mas tem o outro lado que traz sofrimento [...].( E.32)

[...] eu adoro ser profissional de enfermagem, mas tem momentos que fico triste.( E.8)

As ambivalências de sentimentos geram conflitos no trabalhador de enfermagem, que, se, por um lado, conseguem vislumbrar aspectos positivos no seu cotidiano de trabalho, por outro, identificam as situações adversas que levam ao sofrimento. Estas condições dialeticamente colocadas produzem estresse e podem sinalizar possibilidades de alívio das tensões mediante a utilização de substâncias psicoativas.

Ao referir-se a sobrecarga de trabalho, alguns pontos são relevantes, como as condições de baixo salário, levando o trabalhador a ter mais de um emprego na tentativa de sobreviver com um pouco mais de dignidade, com condições melhores de habitação, alimentação, transporte, escola, saúde e lazer. Mas, ao mesmo tempo, não lhe sobra tempo para conviver com a família e o lazer, que se podem inferir como fatores de proteção ao uso de drogas.

Outro aspecto é o desgaste devido à sobrecarga de trabalho, quando o profissional tem que acumular as atividades do colega usuário de drogas, no local de trabalho, a fim de evitar danos à assistência prestada, como:

[...] sei que não é solução, mas fazemos algumas atividades pelo colega, pois o mesmo não tem condições de fazer [...]. (E.31)

[...] mesmo quando estamos sobrecarregados, ajudamos o colega que naquele momento não tem condições de realizar suas atividades.... mas mesmo assim eu faço porque quero e porque gosto.[...]. (E.11)

Mesmo diante das situações estressantes e das próprias condições de trabalho, o espírito de companheirismo se faz presente entre os profissionais de enfermagem. Tal fato revela que as cargas de trabalho anteriormente discutidas não são fortes o suficiente para desconsiderar as inter-relações que se estabelecem no grupo.

O prazer e o sofrimento formam uma relação dialética de uma mesma unidade de sentido. Estes sentimentos se imbricam e se completam na relação do homem com o mundo. O homem como ser social é também dotado de fortes contradições, que o caracterizam e dão sentido à sua própria humanidade.

Na população, em geral, a escolha da substância é influenciada pela disponibilidade e pela exposição11. Essa questão leva a pensar que o trabalhador está lidando com as drogas e que, ao se perceber com algum tipo de necessidade, se vê diante da solução, sem gastos e de fácil acesso. Surge mais um fator de risco ao uso e abuso das drogas, a disponibilidade.

A disponibilidade da droga é um fator ambiental de risco; dependendo das leis e normas da sociedade, sejam as drogas lícitas ou ilícitas, o seu uso pode estar associado à facilidade de acesso à substância12.

[...] eu já vi colegas usarem substâncias da caixa, sem perceberem que é uma droga, pois o paciente faz uso, ele também pode fazer [...]. (E.20)

[...] a facilidade de acesso levando à automedicação [...]. (E.6)

[...] fácil acesso a determinadas drogas no ambiente de trabalho, levando à automedicação [...]. (E.5)

Essas falas apontam o acesso livre aos psicotrópicos como um dos fatores que facilitam o uso de drogas. Essa questão faz pensar, pois da mesma maneira que se tem acesso às substâncias psicoativas, se tem acesso a vários materiais de consumo, permanentes e instrumentais etc. Enfim, a facilidade existe, mas apenas se existir um indivíduo com problemas de saúde para que seja um fator relevante.

Os fatores de risco da comunidade incluem a privação econômica e social, a desorganização comunitária, a mobilidade e a transição e a disponibilidade de substâncias psicoativas. Essa afirmação vem reafirmar o acesso facilitado como um fator de risco ao uso de substâncias psicoativas.

Ao mesmo tempo, deve-se pensar se resolveria essa situação com um controle mais rígido dessas substâncias? Se não houvesse esse acesso livre ele iria buscar outras drogas? Será que o fato de não ter custo financeiro é um incentivo ao uso?

Acredita-se que quaisquer que sejam as abordagens escolhidas, deve-se levar em consideração a questão dos fatores de risco (condições de trabalho, sobrecarga de trabalho, acesso livre ) a que esses indivíduos estão submetidos.

O fenômeno das drogas é um dos maiores desafios na atualidade mundial, e cabe a cada um, individual e coletivamente, agir no sentido de reduzir suas dimensões através da prevenção.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

À medida que se considera o cotidiano do trabalho, com as características próprias da unidade, perfil da clientela, do trabalhador, dentre outros, é facilitada a identificação dos problemas na tentativa de se prevenir doenças e promover a saúde desses trabalhadores.

Nesse caminhar, a enfermagem tem avançado na compreensão do fenômeno drogas, principalmente no desenvolvimento de estudos críticos e compreensivos da realidade, mostrando uma coerência sócio-cultural, político e econômica importante. No entanto, os estudos mostram a necessidade de discutir a possibilidade do uso pelo trabalhador de enfermagem, como um problema de saúde do trabalhador.

Neste sentido, o estudo buscou estas questões e pode perceber dificuldades no processo de amadurecimento pessoal, que propiciam uma susceptibilidade ao uso de drogas, tudo isso associado a fatores facilitadores, como as condições e sobrecarga de trabalho, o estresse ambiental, a exposição às drogas, os problemas pessoais, familiares e sociais.

As instituições de saúde atualmente vêm passando por sérias dificuldades, e as condições de trabalho surgem como um fator que vem trazendo transtornos ao profissional no desenvolvimento de suas atividades, levando à insatisfação e à angustia. Os sinais de estresse se manifestam de maneira que o indivíduo se utilize das drogas, na tentativa de aliviar as tensões.

À medida que a organização do trabalho amplia sua importância na relação trabalho/saúde, requerem-se novas estratégias para modificação de condições de trabalho. No âmbito das relações saúde x trabalho, os trabalhadores buscam o controle sobre as condições e ambientes de trabalho, para torná-los mais saudáveis.

Há, portanto, diante dos resultados da pesquisa, de se buscar conhecer a realidade de trabalho dos profissionais de enfermagem de forma tal que seja possível acompanhar situações em que há a utilização de drogas psicoativas pelo profissional e, juntamente com a equipe do serviço de saúde do trabalhador, propor um plano de atenção ao trabalhador.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 18/12/2006
Reapresentado em 03/09/2007
Aprovado em 17/09/2007

 

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