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Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
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Ministério da Educação
CAPES

Volume 6

INTRODUÇÃO

A desnutrição infantil é considerada um dos maiores problemas de saúde pública no Brasil, sendo resultante de diversos fatores ínter-relacionados. Entre tais fatores causais encontram-se: pobreza, desemprego, baixa escolaridade, precárias condições de moradia, acesso inadequado aos sistemas de saúde, rede social frágil, experiências adversas da mãe, dificuldade de acesso a alimentos e medicamentos, hábitos alimentares inadequados, doenças associadas e carência de micronutrientes (FERNANDES et al, 2002).

Sabe-se que a efetividade de uma ação de combate à pobreza pode ser impedida por problemas simples como dificuldade para tirar documentos, transporte, dificuldade de comunicação entre a pessoa em situação de pobreza e os profissionais da saúde, além do desconhecimento dos serviços disponíveis - devido ao isolamento. Vários estudos têm demonstrado, ainda, que a descontinuidade e a má administração dos programas podem ser os grandes vilões do fracasso de uma ação social, levando à pulverização e ao desperdício de grandes somas de recursos (SAWAYA, A L. & SOLYMOS , G. M.B., 2002, p.11).

De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde - PNDS, a prevalência de desnutrição energético-protéica entre as crianças brasileiras menores de cinco anos, era de 10,5%, considerando como critério a relação estatura em relação à idade. Este mesmo estudo mostrou que no país, há um predomínio da forma crônica da desnutrição (BRASIL, 1996).

Neste contexto, é relevante a necessidade do estabelecimento de medidas que visem a redução dos índices de morbimortalidade entre as crianças de uma comunidade, garantindo um padrão de crescimento e de desenvolvimento satisfatório. Para que essas propostas se viabilizem é preciso: definir um método de atuação profissional; realizar o diagnóstico da desnutrição; identificar as crianças de maior risco e traçar estratégias para prevenir, controlar ou tratar a desnutrição na comunidade, nos centros educativos ou nos serviços de saúde.

 

OBJETIVO

O presente Curso tem por objetivo oferecer uma visão acerca das estratégias encontradas no combate à desnutrição infantil na comunidade.

 

METODOLOGIA

O método para intervenção na comunidade

Ao iniciar a intervenção de prevenção e controle da desnutrição na comunidade, é importante que tal trabalho seja realizado por uma equipe interdisciplinar e que esta possa seguir um método para a abordagem das famílias em situação de pobreza e conhecimento da realidade encontrada.

Portanto, para responder quem é a pessoa em situação de pobreza e como combater a pobreza pode-se partir de três grandes pilares metodológicos: o realismo, a racionalidade e a moralidade. O realismo exige que ao cuidar de uma criança desnutrida o profissional de saúde não dê preferências a nenhum esquema que já tenha em mente, mas procure privilegiar uma observação insistente e apaixonada da realidade a ser conhecida; a racionalidade indica um olhar para todos os fatores relacionados com a situação da criança e a busca de metodologia adequada ao objeto em questão (como por exemplo, valorizar o trabalho interdisciplinar); enquanto a moralidade privilegia um amor à verdade da situação maior do que o apego às opiniões que já temos sobre ela (GIUSSANI, 2000; SAWAYA, A L. & SOLYMOS, G. M.B., 2002, p.11). Outro método importante para conhecer a pessoa e suas necessidades é o método da condivisão, ou seja, o acompanhamento da pessoa no seu nível de problemática, possibilitando laços de confiança mútua que permitem a adesão das mães e das famílias atendidas aos ensinamentos e tratamento da equipe (GIACOMINI, 1987).

A partir desses pressupostos, a desnutrição deve ser abordada nos seus aspectos, biológico, social, psicológico e familiar.

Diagnóstico e avaliação da desnutrição

Para o estabelecimento das medidas de prevenção e controle da desnutrição na comunidade é necessário o diagnóstico e a avaliação do déficit nutricional das crianças em questão. Uma das estratégias simples, eficaz e de baixo custo é a aferição das medidas antropométricas (peso e estatura), que pode ser realizada na própria comunidade, mediante a metodologia do "mutirão antropométrico". Neste "mutirão", são realizadas as seguintes etapas: - contato com a liderança local, levantamento das crianças menores de cinco anos, mediante visitas domiciliares; - mensuração do peso e estatura em dia previamente agendado, levantamento das condições de saúde das crianças, preenchimento do gráfico de crescimento e orientações ao responsável pela criança (SAWAYA, A & SOLYMOS, G. M.B, 2002, p.24).

A classificação do estado nutricional na comunidade pode ser efetuada mediante análise do percentil de peso para a idade e de estatura para a idade, apresentado na curva de crescimento da criança (Quadro I e II) (SAWAYA, A & SOLYMOS, G. M.B, 2002, p.41); ou utilizando o critério de Gomez (GOMEZ et al., 1956), que baseado no indicador peso para a idade (P/l) considera três níveis de gravidade para desnutrição, segundo o percentual de adequação. (Quadro III).

 

 

 

 

Para os cálculos da porcentagem de adequação do peso para a idade pode ser utilizado o sub-programa Epinut do programa Epi-info 6.0, que compara os dados obtidos com um padrão de referência (NCHS - National Center for Health Statistics), recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS, 1977).

Segundo Fernandes (2002, p. 107) de acordo com a classificação nutricional, as crianças deverão receber tratamentos diferenciados que vão desde um acompanhamento na própria comunidade até o atendimento médico imediato.

 

VISITA DOMICILIAR: INTERVENÇÃO JUNTO À FAMÍLIA NA COMUNIDADE

A presença da equipe interdisciplinar na comunidade é de suma importância, pois possibilita:

 promover a saúde da família, mediante o conhecimento das condições do domicílio;

 realizar o acompanhamento do crescimento das crianças e;

 fortalecer o vínculo da comunidade com os serviços de saúde.

Na visita ao domicílio das crianças desnutridas é possível, ainda:

 observar as condições de moradia e de vida da criança;

 compreender melhor os hábitos da família;

 conhecer os problemas da comunidade;

 conhecer os recursos disponíveis;

 aumentar e fortalecer a rede de apoio social estabelecida entre a família, comunidade e os serviços;

 saber quais serviços de saúde a família utiliza;

 fornecer orientações sobre o cuidado da criança, adequando a realidade;

 observar a realização de procedimentos que visam a promoção da saúde, prevenção de agravos ou o tratamento da criança doente.

Esta prática de atenção ao contexto familiar, permite ao profissional considerar todos os fatores envolvidos no acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança, tendo um olhar integral, atento e personalizado para com a mesma. Neste sentido, considerando que, toda pessoa tem uma dignidade, um desejo de verdade, realização e de felicidade; a prática de visita domiciliar torna-se uma forma de aproximação da realidade da família atendida e não uma mera fiscalização.

Além disso, pode ser uma ocasião para fortalecer o relacionamento de amizade e confiança com a mãe e estabelecer vínculos com os demais membros da família (SOLYMOS, 2002).

No domicílio, as ações de educação em saúde são mais eficazes a partir do momento em que o profissional identifica o grau de conhecimento, as condições de moradia e as reais necessidades da família e assim pode auxiliá-la na busca de soluções para os problemas ou na continuidade dos cuidados com a saúde da criança (WASIK et al, 1990).

Educação para a saúde

No trabalho de intervenção em saúde, a educação é uma atividade essencial e não pode ser entendida apenas como a transmissão de conhecimentos técnicos. Ao se realizar uma atividade educativa devemos ter a atenção para a realidade, as condições de vida, bem como para as experiências adquiridas das pessoas a quem se dirige a nossa intervenção. Além disso, devemos ajudá-las a se darem conta dessa mesma realidade, mas sempre de forma positiva, buscando soluções em conjunto, pois uma das coisas que mais limita a intervenção em saúde é o fatalismo: "não dá, não tem jeito, é impossível, etc." Uma das condições para que ocorra o aprendizado é que a pessoa encontre uma correspondência entre aquilo que lhe é dito e algo que já está presente nela. Partindo da realidade em que a pessoa está inserida, a intervenção é mais eficiente (SOLYMOS, 2002).

A intervenção junto à família é fundamental, tanto para o desenvolvimento dos cuidados de saúde fornecidos pela equipe, quanto para a continuidade destes em casa.

As orientações acerca da saúde da criança podem ser dadas mediante contatos individuais ou reuniões em grupos previamente agendados. Estas reuniões contribuem para a troca de experiências entre os pais e entre estes e a equipe. Nos encontros poderão ser abordados diversos temas, de acordo com a necessidade ou a circunstância apresentadas, tais como: cuidado com a saúde infantil; dificuldades ou problemas apresentados pelas crianças ou pela família ao prestar o cuidado; higiene e outros.

No trabalho educativo com os pais/responsáveis, o ponto de partida é escutar a experiência da pessoa e acompanhá-la na busca de soluções para os seus problemas, ou seja, escutar a experiência, sem a preocupação inicial de construir um conhecimento analítico, mas totalmente atenta para viver uma experiência de compartilha, o que significa uma constante abertura ao que se apresenta na realidade, sem uma análise a priori ou um pré-conceito.

A preocupação primeira é encontrar o outro, a sua realidade e não desperdiçar nenhum elemento do que está se mostrando através da circunstância, que é a experiência da pessoa. Seguir este método, que é a condivisão (GIACOMINI, 1987), garante uma postura mais aberta e atenta possível para com a realidade encontrada. Neste sentido, ao realizar ações educativas voltadas à família, torna-se possível o estabelecimento de laços de confiança e conseqüentemente a adesão às orientações realizadas pela equipe. Na abordagem com os pais/responsáveis, devemos:

 partir da cultura deles e daquilo que eles já sabem;

 ajudar a descobrir e a trabalhar com as suas potencialidades e recursos e a enfrentar os problemas;

 ensinar a partir de experiências concretas: "fazer com".

É importante ainda, adequar-se ao tipo de linguagem e de ações educativas a serem desenvolvidas, garantindo assim, uma maior eficácia nas intervenções.

Ao verificar as atitudes dos membros da família em relação aos cuidados de saúde, é fundamental partir sempre dos aspectos positivos, valorizar aquilo que a família faz de melhor para o bem estar da criança, pois o fato de iniciar as orientações apontando os hábitos errados ou aquilo que está faltando no ambiente, pode criar um obstáculo no relacionamento com esta família. Os encontros com os pais/responsáveis deverão ser uma ocasião para que estes descubram a sua dignidade, grandeza, utilidade e potencialidade no cuidado com a criança e com a própria vida.

 

ALGUNS CUIDADOS COM A ALIMENTAÇÃO

O conhecimento da alimentação adequada para cada faixa etária é de fundamental importância para se estabelecer uma boa nutrição, mas é preciso lembrar que cada criança apresenta seu próprio ritmo ao se alimentar. Por isso é necessário evitar ambientes agitados ou apressar a criança para terminar a refeição, a fim de não prejudicar a ingestão do que foi oferecido.

O leite materno é o alimento ideal para a criança até os seis meses de vida, não sendo necessário oferecer qualquer outro alimento ou líquidos como chá e água durante este período. E após este período a criança pode receber sucos de fruta, papas de frutas e papas salgadas gradativamente, até estar recebendo a alimentação normal da família

Com relação à criança desnutrida, a alimentação desta pode ser a mesma oferecida para uma criança saudável, tendo a atenção para alguns cuidados, tais como: oferecer um alimento de cada grupo, garantir horários regulares das refeições, estimular a criança no momento da refeição, se necessário alimentar a criança com a ajuda de um adulto, evitar que a criança faça atividade física após a refeição, garantir que a criança tenha um período de descanso após o almoço, ter uma atenção especial com a alimentação na presença de uma outra doença associada e manter a criança sentada ao ser alimentada e em um ambiente tranqüilo.

Sawaya, A & Solymos (2002, p. 81) a partir da experiência de tratamento de crianças desnutridas no Centro de Recuperação e Educação Nutricional, no município de São Paulo, descrevem as estratégias e o tipo de alimentação para a criança desnutrida acompanhada em centros de recuperação ou na comunidade.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao término do presente curso espera-se sensibilizar profissionais que atuam junto à população materno-infantil quanto à magnitude do problema da desnutrição infantil, bem como fornecer subsídios para o estabelecimento de estratégias de prevenção e controle deste agravo na família e na comunidade.

Considera-se, ainda, de grande relevância a capacitação de enfermeiros para atuarem em ações de vigilância à saúde na comunidade, pois estas contribuem para melhoria das condições de vida das crianças nestes ambientes e conseqüentemente para a redução da desnutrição e mortalidade infantil.

 

BIBLIOGRAFIA

FERNANDES, B. S.; FERNANDES, M. T. B.; BISMARCK-NASR, E.M.; ALBUQUERQUE, M.R Vencendo a desnutrição: abordagem clínica e preventiva. São Paulo: Salus Paulista, 2002. p.155. (Coleção Vencendo a Desnutrição).

GIACOMINI, M. R.; HAYASHI, M.; PINHEIRO, S. A. Trabalho social em favela: o método da codivisão. São Paulo: Cortez, 1987.

GIUSSANI, L. O Senso Religioso. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p.43-56

GOMEZ, R et al Mortality in second and third degree malnutrition. J Trop. Pediatr., 2 77-83,1956.

OMS- NCHS (NATIONAL CENTER FOR HEALTH STATISTICS). Growth curves for children birth-18 years. United States Departament of Health, Education and Welfare Publication nº 7,1977.

PNSN. Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição, IBGE, INAN/IPEA, Brasília, 1989.

SAWAYA, A L. & SOLYMOS, G.M.B. Vencendo a desnutrição na família e na comunidade. São Paulo: Salus Paulista, 2002. p.96. (Coleção Vencendo a Desnutrição)

SOLYMOS, G. M. B. Vencendo a desnutrição: Abordagem Psicológica. São Paulo: Salus Paulista, 2002.

SOTNEY, N. Educação para a saúde: manual para o pessoal de saúde da zona rural. São Paulo: Paulinas, 1981, p.95.

WASIK, B. H.; BRYANT, D. M. LYONS, C. M. Home visiting-procedures for helping families. United States: SAGE Publications, 1990, p. 45-66.

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