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ISSN (impressa): 1414-8145
Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
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Ministério da Educação
CAPES

Volume 3, Número 1, Jan/Abr - 1999

INTRODUÇÃO

A redescoberta do acervo de fotografias do Centro de Documentação da EEAN / UFRJ, que remonta à década de 20, foi a motivação inicial para a realização de um estudo histórico com estas fontes pois nelas vislumbramos uma nova possibilidade de investigação e descoberta. A quantidade e a qualidade das fotos referentes à Missão Técnica de Cooperação para o Desenvolvimento da Enfermagem Moderna no Brasil sinalizam as pretensões de inserção, posicionamento e reconhecimento da profissão na sociedade brasileira. A intenção de fotografar, a seleção e a divulgação do fotografado revelam a importância atribuída ao registro dessas imagens, nos anos 20, momento em que a prática fotográfica e os métodos de reprodução eram ainda incipientes. São fotografias de acontecimentos informais e formais, que retratam enfermeiras, médicos, sanitaristas, autoridades governamentais brasileiras e da Fundação Rockfeller e alunas de enfermagem. Algumas dessas fotografias foram publicadas em jornais, divulgando cerimônias como formaturas e inaugurações e também cenas do trabalho cotidiano de enfermeiras ou alunas.

O curso de doutorado em enfermagem apresentou-se a mim como a oportunidade de debruçar-me sobre o estudo dessa época e desse material. Ao mesmo tempo, refletimos sobre as dificuldades da utilização da fotografia como fonte primária de pesquisa, uma vez que a interpretação e a análise do texto fotográfico, tomado como documento histórico, conta ainda com poucos estudiosos, sendo que em nossa área não encontramos pesquisa alguma.

Este artigo tem como objetivos descrever a evolução dos usos da fotografia como fonte de pesquisa, demonstrar um procedimento de análise fotográfica e discutir a contribuição da fotografia como método de pesquisa em enfermagem.

A foto utilizada neste artigo se insere na tese referida1 e foi considerada emblemática do momento histórico estudado.

Com ele esperamos divulgar as possibilidades de pesquisa histórica no campo da enfermagem, através da utilização de fotografias, demandando novos métodos de análise e a utilização de novos suportes teóricos.

 

A TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA FOTOGRAFIA COMO FONTE DE PESQUISA

Durante séculos o homem utilizou a câmera obscura2 como auxiliar para o desenho de uma paisagem que por alguma razão lhe interessou conservar. Mesmo antes do advento da fotografia, o homem já buscava destacar do mundo visível um fragmento do real, em determinado lugar e época, cuja imagem se destinava a ser conservada. Com a Revolução Industrial, verifica-se um enorme desenvolvimento das ciências em seus vários campos; surge naquele processo de transformação econômica, social e cultural uma série de invenções. A fotografia, uma das invenções que ocorre naquele contexto3, teve papel fundamental enquanto fonte de informação, instrumento de apoio à pesquisa e também como expressão artística (KOSSOY, 1989, p.21-22e14). Destaca-se ainda, como estímulo para o desenvolvimento industrial fotográfico, o reconhecimento da importância da fotografia como instrumento para o conhecimento dos fenômenos científicos, sociológicos e físicos. Fato que também contribuiu para o progresso das técnicas de impressão, tornando possível a transcrição da foto através dos livros, jornais e revistas (ANDRADE, 1990, p.117).

O advento da fotografia e o desenvolvimento da indústria gráfica possibilitou a multiplicação da imagem fotográfica em quantidades cada vez maiores, através da via impressa, iniciando um novo método de apreensão do real, em função da acessibilidade do homem dos diferentes estratos sociais à informação visual e direta dos hábitos e fatos dos povos distantes. A invenção da fotografia também propiciou a possibilidade de recordação, de criação artística e de documentação (KOSSOY, 1989, p.15).

A ampliação da noção de documento surgiu com a História Nova4, baseada numa multiplicidade de fontes: escritos de todos os tipos, documentos figurados, produtos de escavações arqueológicas, documentos orais, visuais, etc. Assim, o campo do documento histórico deixou de ser constituído apenas pelos textos e pelos documentos escritos. O desenvolvimento tecnológico influenciou a constituição dos arquivos, abrindo espaços para a memória visual e oral (LEGOFF, 1993, p.28).

Os documentos fotográficos representam não apenas uma estética ligada à sua expressão mas também uma estética de vida ideológica, num determinado contexto, num momento da história, sendo ainda um documento fidedigno porque registra o fato no momento do acontecimento. A análise da representação fotográfica deve incluir elementos de ordem histórica e cultural, uma vez que a fotografia expressa uma época, uma visão de mundo, um "ethos", relações sociais e as ideologias dos indivíduos, e estes contribuem para a produção da própria fotografia.

No século passado, a fotografia apenas apoiava a linguagem escrita, sendo empregada para ilustrar o texto, sem nenhuma autonomia. Alguns cientistas empregaram-na como uma forma de ampliar a visão do pesquisador, chamando a atenção para detalhes que passaram despercebidos em suas anotações (CAMPOS, 1992, p.99). Em ambos os casos, o registro fotográfico é utilizado como ilustração, no sentido de constatar a existência dos fatos, dificultando a possibilidade de compreensão do universo ideológico dessas imagens.

As ciências sociais e históricas demonstram, a partir da década de 80, uma disposição em usar a fotografia como fonte histórica. Os historiadores da história social e da história das mentalidades são os que mais têm se dedicado ao estudo do texto fotográfico, ao passo que os sociólogos e antropólogos utilizam a técnica fotográfica como instrumento complementar da pesquisa (MIGUEL, 1993, p.124).

A bibliografia teórica sobre interpretação das fotografias ainda é escassa. Existem poucas publicações sobre a metodologia da análise do texto fotográfico. Proliferam estudos que utilizam a fotografia como ilustração e outros que partem da utilização da fotografia como objeto de trabalho, mas que se restringem a relatos superficiais pois apenas descrevem as fotografias, sem levar em conta a polissemia das fotos, já que elas são estudadas a partir de conceitos predefinidos, que não consideram outros significados (MIGUEL, 1993, p.122).

 

O MÉTODO DE ANÁLISE FOTOGRÁFICA

As imagens fotográficas possuem três características básicas em sua estrutura: expressividade (pois é uma representação plástica, uma forma de expressão visual); ambigüidade (porque, ao mesmo tempo que atesta a existência do fato, não representa uma prova fidedigna do real); e ideologia (porque revela o universo ideológico do indivíduo). Através de uma imagem aparentemente neutra, as fotografias registram relações entre indivíduos em um determinado contexto social, possibilitando ao pesquisador deparar com um conteúdo recoberto pelo discurso e pela ideologia (CAMPOS, 1992, p.104).

A utilização da fotografia como fonte de pesquisa requer a descrição e a narrativa dos aspectos visualizáveis. E esta descrição é feita em termos de alguns parâmetros, que vão determinar a estrutura do conteúdo e fornecer uma análise dos fatos sociais contidos. A descrição e as fotografias preliminarmente selecionadas conforme classificação cronológica e/ou temática, de acordo com o objeto de estudo, são fases iniciais e parciais do processo de pesquisa, pois a imagem não se comunica por si só, totalmente (LEITE, 1986, p.1485). Essa classificação possibilita a ordenação de grupos de fotografias, o que permite a elaboração de categorias iniciais de análise e seleção das fotografias mais significativas (emblemáticas).

A descrição e análise interna do conjunto de fotografias selecionadas objetiva apreender os elementos revelados pelo conteúdo. O estudo do contexto em que as fotografias foram produzidas pode ser feito com base em documentos escritos, orais e em fontes secundárias. Neste estudo, levanta-se as características internas da coleção no que se refere ao tamanho, data, local, tipo de foto, conservação e publicação. Posteriormente, procede-se à releitura das fotografias, buscando os contraste-se as continuidades, as aproximações e distanciamentos, as presenças e ausências à luz das categorias de análise. Para esse conhecimento, é preciso uma leitura atenta, articulação das fotografias a outros textos, orais ou escritos, e justaposição das diversas imagens sobre a mesma temática para a apreensão das mudanças ou o prolongamento do mundo visível, uma vez que a fotografia não registra a passagem do tempo, pois a imagem fotográfica é essencialmente o instante congelado. O conhecimento do estágio tecnológico alcançado pelo recurso fotográfico por ocasião da tomada é fundamental para evitar equívocos na interpretação das imagens (LEITE, 1986, p.1484 esegs).

A utilização da fotografia como documentação histórica implica em observar, analisar e compor fotografias já existentes, onde as condições de conservação escapam ao pesquisador. Em geral, as fotografias estão agrupadas ou avulsas, não identificadas e sem unidade temática. Além disso, a documentação fotográfica possui caráter informativo diferente do da documentação escrita, pois transmite-se de forma imediata. Entretanto, as diversas leituras que o documento escrito permite é restrita no caso da imagem fotográfica (LEITE, 1983,p.7-8).

Para estudar o significado e conteúdo da fotografia é preciso recuperar uma construção ignorada, além de considerar o estágio tecnológico alcançado por ocasião da tomada, para evitar equívocos em relação à interpretação dessas imagens.

Ao desvendar a intrincada rede de significações da fotografia deste estudo, buscamos perceber os aspectos da mensagem elaborados pela fotografia, permitindo a apreensão de suas significações, considerando também o contexto de sua produção e articulando-a aos documentos escritos e às fontes secundárias.

Contudo, "tanto o documento escrito quanto as imagens iconográficas são representações que aguardam um leitor que as decifre" (LEITE, 1986, p.1483).

 

A PRÁTICA DA ANÁLISE FOTOGRÁFICA

O presente texto se baseia no desenvolvimento de uma de tese de doutorado, que tem como objeto a luta simbólica pela persistência da liderança norte-americana após a implantação e consolidação do ensino de enfermagem moderna no Rio de Janeiro, mesmo após o término da Missão de Cooperação Técnica para o Desenvolvimento da Enfermagem no Brasil, que aqui atuou, del921al931, sob os auspícios da Fundação Rockfeller. Trata-se de um estudo histórico-social, cujo recorte temporal engloba o período de 1928 a 1938. O estudo enfatiza as duas gestões de Bertha Lucille Pullen na direção da atual Escola Anna Nery. Vale ressaltar que ambas as gestões de Pullen deveram-se a circustâncias especiais. Sua primeira gestão como terceira diretora da Escola de Enfermeiras d. Anna Nery (1928-1931) se caracteriza como um tempo de prorrogação da Missão Parsons no Brasil, decorrente de uma decisão de nível político, já que o acordo inicial previa seu término em 1928, após as gestões de Claire Louise Kieninger (1923-1925) e de Loraine Genevieve Dennhardt (1925-1928), que implantaram a escola de enfermeiras e diplomaram quatro turmas em um total de 70 enfermeiras.

Com o término da missão Parsons, em 1931, Edith de Magalhães Fraenkel assume a superintendência geral do Serviço de Enfermeiras e Raquel Haddock Lobo a direção da Escola de Enfermagem Anna Nery. Assim, os destinos da enfermagem passam às mãos de enfermeiras brasileiras, mas não eram enfermeiras "ananeri". No entanto, a morte prematura e inesperada de Rachel Haddock Lobo colocou em jogo poderosos interesses, que se voltaram para a escolha da nova diretora da Escola. Embora a esta altura o DNSP já contasse com 120 enfermeiras diplomadas pela Escola Anna Nery, sendo 17 com curso de pós-graduação nos Estados Unidos, a decisão final foi a de que

Esta pesquisa utilizou como fontes de dados primários o acervo fotográfico articulado à documentação escrita, ambos pertencentes ao Centro de Documentação da EEAN/UFRJ. além do mais e periódicos. Pela associação das fotografias aos documentos escritos, dentro do recorte temporal proposto e de acordo com a temática do estudo, será construída uma base de informações que permitiu uma apreensão mais profunda da realidade.

Para demonstração do método, apresenta-se a seguir a leitura de uma imagem fotográfica como documento histórico.

 


Foto: A Missão de Enfermeiras da Fundação Rockfeller no Brasil encerra as atividades: a liderança nativa assume o poder.

 

A implantação e consolidação da enfermagem moderna no país, no início do século, ocorreu sob a égide da saúde pública e da enfermagem norte-americana, no bojo da Reforma Sanitária de 1920, liderada por Carlos Chagas. Almoço de despedida oferecido pela classe médica do Rio de Janeiro a Ethel Parsons, que por dez anos (1921-1931) chefiou a Missão Técnica para o Desenvolvimento da Enfermagem no Brasil, patrocinada pela Fundação Rockfeller e sediada na capital da República. A emergência de um novo grupo no poder está simbolizada na foto através das disposições hierárquicas espaciais das pessoas.

Localização da fotografia: Arquivo Iconográfico do Centro de Documentação da EEAN/UFRJ

 

FICHA TÉCNICA

Foto em preto e branco, avulsa, do tipo posada, fixada sobre suporte de papel, enquadrada em um retângulo de 30 cm de largura e 21 de altura, em cuja margem inferior encontra-se manuscrita a legenda: "Almoço Palace Hotel a Mrs Parsons Classe Med". Na gestão de Cecília Pêcego Coelho na direção da Escola de Enfermagem Anna Nery (1975-1980), Maria Madalena Werneck e Ana Jaguaribe Nava desenharam a silhueta do grupo, numeraram cada figura em papel vegetal, sendo identificadas dezoito delas, cujos nomes foram anotados, a lápis, no verso da foto e iniciaram um processo de tratamento arquivístico das fotografias.

 

ASSUNTO, LOCAL E DATA DO EVENTO

A foto refere-se a um evento formal, ou seja, um almoço de despedida oferecido pela classe médica do Rio de Janeiro a Ethel Parsons, que por dez anos (1921-1931) vinha chefiando a Missão Técnica para o Desenvolvimento da Enfermagem no Brasil, patrocinada pela Fundação Rockfeller e sediada na capital da República. Trata-se de uma reunião de caráter estritamente civil, uma vez que não há presentes figuras religiosas ou militares.

Local e data: Rio de Janeiro, setembro de 1931, na vigência do Governo Provisório, instalado após a Revolução de 30, que deu início à era Vargas.

 

COMPOSIÇÃO DA FOTOGRAFÍA

O cenário é um salão do Palace Hotel, de pé direito alto. A parede que serve de pano de fundo é decorada com motivos regulares (folhagem estilizada). Elementos verticais, como se fossem colunas revestidas de madeira, dividem essa parede em painéis. Um pouco ´a direita da linha média da composição há uma larga porta dupla envidraçada, cujos caixilhos são brancos, e que se encontra entreaberta. O piso apresenta pequenos retângulos em composição geométrica, parecendo ser de cerâmica ou madeira. Não há tapetes nem cortinas à vista.

Trata-se de uma pose coletiva, na qual 39 pessoas (trinta homens e nove mulheres) estão dispostos frontalmente em relação à câmera, em quatro fileiras consecutivas, sendo que somente na primeira fila as pessoas encontram-se sentadas.

Todos os participantes apresentam-se em trajes formais: os homens de terno e gravata (alguns de polainas claras) e as mulheres com toilettes ou uniformes de enfermeira. Todas de chapéu, sapatos de salto alto e meias de seda. As mulheres sentadas mantêm uma atitude corporal mais rígida do que a dos homens: seus dois pés apoiam-se no chão, seus joelhos mantêm-se unidos sob a saia, e suas mãos enluvadas repousam sobre o colo.

Em termos de indumentária, o traje escolhido foi o social. Nessa época, a tendência geral da moda começava a priorizar as linhas retas e econômicas, ao invés dos babados, saias amplas, coletes, sobrecasacas, etc. Era a época dos tailleurs, blusas de seda, temos claros, roupas leves e adequadas a um estilo de vida "internacionalmente carioca" (Andrade, 1991, p.387). A indumentária utilizada pelos integrantes da fotografia corresponde ao conservadorismo dos padrões de comportamento adotados como urna forma de diferenciação do grupo pela aparência.

 

1° PLANO DA FOTOGRAFÍA

Na primeira fila, onde se véem dez pessoas sentadas (seis homens e quatro mulheres), apenas dois homens não foram identificados. São elas (da esquerda para direita):

1.Celia Peixoto Alves

2.Rachel Haddock Lobo

3.J. P. Fontenelle

4.Edith de Magalhães Fraenkel

5.Belisário Pena

6.Ethel Parsons

7.Carlos Chagas

8.Clementino Fraga

No que se refere ao reconhecimento dos semblantes das pessoas fotografadas pelas gerações seguintes, nota-se que, dentre as pessoas sentadas na primeira fila, apenas dois homens não foram reconhecidos e que as pessoas identificadas são figuras notáveis em relação ao nosso objeto de estudo, e também 'a sociedade do Rio de Janeiro de então.

A posição das pessoas umas em relação às outras e também sua posição no retângulo da foto evidencia proximidades e afastamentos (das figuras centrais na foto).

A figura central é a do Diretor do Departamento Nacional de Saúde, à época Belisário Pena, que representa a autoridade governamental, mas se apresenta em uma postura pouco convencional, com braços e pernas cruzados e o corpo relaxado sobre a cadeira e ladeado pelas duas enfermeiras de maior prestígio no Brasil: a americana chefe da missão, Mrs. Parsons, e a brasileira, Edith de Magalhães Fraenkel, sua substituta como chefe da Superintendência de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde.

A figura mais impressionante pelo biotipo, pelo porte e pelo vestuário é a da homenageada, Mrs Parsons, em traje de passeio, que se encontra entre o Diretor Belisário Pena e Carlos Chagas, Diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) de 1920 a 1926, quando promoveu a vinda da missão ao Brasil para implantar a enfermagem moderna (o pai fundador).

Edith de Magalhães Fraenkel (ex-chefe do serviço de visitação da Inspetoria de Tuberculose, tinha um curso de dois anos de enfermeira voluntária da Cruz Vermelha; em 1922, recebeu bolsa da Fundação Rockfeller para a Philadelphia General School of Nursing, retornando ao Brasil em 1925), de uniforme de saúde pública, incluindo manteau, está sentada entre o então Diretor do DNS e J. P. Fontenelle, sanitarista ilustre e jornalista, grande divulgador da enfermagem, um dos primeiros a apoiar a formação de enfermeiras de saúde pública no Brasil.

Ao lado de Carlos Chagas, encontra-se Clementino Fraga, seu amigo e sucessor no DNSP, clínico ilustre e professor da Faculdade Nacional de Medicina da então Universidade do Brasil (hojeUFRJ).

Ao lado de J. P. Fontenelle, encontra-se Rachel Haddock Lobo (formada pela Escola de Enfermagem de Assistência Pública, em Paris; completou seu preparo com os quatro últimos meses do Curso da Escola de Enfermeiras Anna Nery, referentes à saúde pública; de maio de 1927 a dezembro de 1929, esteve nos Estados Unidos, preparando-se para assumir a direção da Escola Anna Nery, com bolsa de estudos da Fundação Rockfeller), em uniforme hospitalar e capa correspondente, já então diretora da EAN e do Serviço de Enfermagem do Hospital São Francisco de Assis, ladeada por Celia Peixoto Alves, de uniforme de saúde pública e manteau correspondente.

A esquerda de Ethel Parsons, estão sentados Carlos Chagas e Clementino Fraga, ambos na condição de ex-Diretores do Departamento Nacional de Saúde Pública, na Primeira República. E à direita de Ethel Parsons, se concentraram Belisário Penna, Diretor do Departamento Nacional de Saúde; Edith de Magalhães Frankael, Superintendente do Serviço de Enfermeiras; J. P. Fontenelle, Professor da Escola de Enfermeiras que denunciou a evasão das enfermeiras de saúde pública; Celia Peixoto Alves, Enfermeira do DNSP e Professora da Escola; Raquel Haddock Lobo, Diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery.

A distribuição espacial das pessoas na foto, que corresponde à posição por elas ocupadas no espaço social, evidencia a emergência de uma nova liderança, mostrando as novas teias de poder. As figuras que, na década de 20, influenciavam o processo decisório em relação à questão sanitária do país encontram-se todas à esquerda da figura central, enquanto que as autoridades sanitárias constituídas pelo novo governo, inclusive as enfermeiras, situam-se nos lugares de honra, à direita da figura central. Tal disposição evidencia que, diante das novas tendências políticas, surgiram novas alianças, mais adequadas às circunstâncias em que passavam a se dar os jogos de poder.

 

2° PLANO DA FOTOGRAFIA

Nas demais filas, sendo a segunda composta por 11 pessoas de pé (seis homens e cinco mulheres), e as 3ª e 4ªpor 17 homens, foram identificadas as seguintes figuras (todos os homens identificados são médicos):

15. Paulo Brandão; 16. Zulema de Castro Amado; 17. Marina Bandeira de Oliveira; 18. ThompsonMotta; 21. Alvares Barata; 22. Laís Netto dos Reys; 24. Antero Junqueira; 27. Durvalina Damasceno; 35. Egidio Salles Guerra; 36. Odillon Barroso

Apresentam-se todos de pé, alguns dos nomes masculinos indicados correspondem a professores da Faculdade Nacional de Medicina. De pé, mas atrás de Belisário Pena, encontra-se Laís Netto dos Reys, em traje de passeio, diplomada pela primeira turma da EAN, ex-Diretora do Serviço de Enfermagem do Hospital São Sebastião e futura Diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery5.

De pé, atrás de J.P. Fontenelle e de Edith de Magalhães Fraenkel e ao lado de Thompson Motta (Diretor do Hospital São Francisco de Assis)6, estão duas enfermeiras de saúde pública brasileiras das duas primeiras turmas de diplomadas pela EAN, ambas com pós-graduação nos EUA (Zulema de Castro Amado e Marina Bandeira de Oliveira), uniformizadas, mas sem manteau. Apesar de haver cinco enfermeiras uniformizadas, não figura na foto a touca de enfermeira annaneri, o que corresponde a uma ausência marcante, uma vez que a Escola já havia diplomado mais de 100 enfermeiras. A Diretora da EAN e do Hospital São Francisco de Assis apresenta-se de uniforme hospitalar, de sua escola de origem.

 

APRECIAÇÃO GERAL

O propósito desta foto foi o de fixar para a posteridade a despedida oficial de Ethel Parsons, conservando a memória institucional, e divulgar o evento para os não presentes, dando uma demonstração pública de prestígio. A ambigüidade da foto reside em que, ao registrar o término da missão, que se encontrava sem condições políticas de permanência, ainda se dava uma demonstração pública de prestígio, mas ao mesmo tempo evidenciava a nova teia de poder constituído ao início da Era Vargas.

As três figuras-tipo de enfermeiras da época estão representadas: a mulher da sociedade, pela enfermeira norte-americana Ethel Parsons (lady); a profissional militarizada, por Edith de Magalhães Fraenkel e a enfermeira caridosa e abnegada, por Rachel Haddock Lobo.

No que se refere à mulher da sociedade, várias das candidatas ao curso de enfermagem da Escola de Enfermeiras do DNSP provinham da classe mé-dia-alta da sociedade. Não obstante, se candidatas oriundas de famílias pobres poderiam ser recebidas, o mesmo não ocorreria com candidatas negras7 (Barreira, 1995, p. 26). Em geral, as aprovadas no processo de seleção eram moças de família de boa situação social, muitas das quais haviam recebido educação esmerada para os padrões da época8, e haviam assimilado os valores da sociedade e da instituição.

O sentimento patriótico encontrava-se associado ao sentimento cristão. Ao ideal de serviço fundamentado em um código de ética, em uma obrigação moral afim ao religioso, mesclava-se o ideário de servir à pátria. A caridade, essência da doutrina cristã, encontrava expressão na atividade profissional da enfermeira, compreendendo nessa visão a parte que lhe cabia amenizar o sofrimento do ser humano. Além disso, o conceito de enfermagem-vocação, defendido por Florence, e adotado pelas enfermeiras norte-americanas, era reproduzido pelas alunas. Negavam elas a possibilidade de trabalharem para sobreviver, até porque a maioria pertencia a famílias de maior poder aquisitivo, reforçando o discurso da abnegação e renúncia (Sauthier, 1996, p. 165 e segs).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como vimos acima, a utilização da fotografia, como fonte de informação, possibilita a apreensão de outros significados, através dos aspectos estéticos e ideológicos representados na imagem fotográfica e que não estão presentes em outras fontes documentais. No exemplo apresentado, a utilização da fotografia como documento histórico contribuiu para ampliar as possibilidades de apreensão do clima social da época, das hierarquias estabelecidas de poder e prestígio, das alianças existentes entre frações dos grupos empenhados no jogo de poder, bem como das novas tendências políticas.

Essa vantagem oferecida pelas fontes fotográficas é tanto mais favorável, pelo menos no que interessa à enfermagem, quando se sabe a existência de farto material fotográfico, mais ou menos organizado, sob a forma de coleções, em instituições de ensino ou de serviço ou em entidades de classe espalhadas pelo país.

A importância e a riqueza desse material fotográfico e seu potencial para o trabalho de reconstituição histórica nos remete à necessidade de preservação, resgate, organização e divulgação.

Tais tarefas são tão importantes quanto urgentes pois, à medida que a fotografia se distancia da época em que foi produzida, mas dificieis as possibilidades de suas informações serem resgatadas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ANDRADE, Ana Maria Manad de Souza. Sob o signo da imagem. A produção fotográfica e o controle dos códigos de representação social da classe dominante do Rio de Janeiro na Iª metade do Século XIX. Rio de Janeiro: UFF, 1991. v. 1. Tese (Doutorado em Historia) - Univerisade Federal Fluminense, 1991.

2. BARREIRA, leda de Alencar. A enfermeira ananéri no país do futuro: a aventura da luta contra a tuberculose. Rio de Janeiro: UFRJ, 1992. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem Anna Nery/Universidade Federal do Rio de Janeiro.

3. Os primórdios da enfermagem no Brasil: sanitaristas brasileiras e enfermeiras norte-americanas. Rio de Janeiro, 1995 (Relatório Bolsista do CNPq). Mimeo.

4. et al. Renovação no ensino e na pesquisa de historia da enfermagem brasileira: a experiência da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1997.

5. CAMPOS, Maria Christina S. de Souza. A associação da fotografia aos relatos orais na reconstrução histórico-sociológica da memória familiar: reflexões sobre a pesquisa sociológica. São Paulo: Centro de Estudos Rurais e Urbanos, 1992. (Coleção TEXTOS, 2. série, n.3).

6. CARVALHO, A. C. de. Associação Brasileira de Enfermagem 1926-1976. Documentário. Brasília: 1976.

7. KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática, 1989.

8. LE GOFF, J. A historia nova. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

9. LEITE, Miriam L. Moreira. Fotografia de família potencialidades e limitações da documentação fotográfica". Cadernos CERU, São Paulo, n. 18, maio 1983, p. 79-89.

10. A imagem através das palavras. Ciência e Cultura, v. 38, n. 9,1986.

11. Fotografia e história. Ciência Hoje, v. 7, n. 39, jan-fev/1988.

12. MIGUEL, M.L.C. A fotografia como documento: uma instigação à leitura. Revista do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, v.6, n.1/2, jan./dez., 1993.

13.NETO, V. de O. Introdução à Fotografia. In: Departamento de Publicações do IBE, Colégio Bennett, 1976.

14. PARSONS, Ethel. A enfermagem moderna no Brasil. In: Exposições e relatórios. Rio de Janeiro, 1922. (Centro de Documentação; EEAN / UFRJ - módulo A, caixa l,doc. 16).

15. SANTOS, Tânia Cristina Franco, BARREIRA, leda de Alencar. A câmera discreta e o olhar indiscreto: a persistência da liderança norte-americana no ensino da enfermagem na capital do Brasil 1928-1938. Rio de Janeiro, 1998. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem Anna Nery/Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1998.

16. SAUTHIER, Jussara. A missão das enfermeiras norte-americanas na Capital da República 1921-1931. Rio de Janeiro: EEAN/UFRJ, 1996. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem Anna Nery/ Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1996.


1. Orientada pela professora doutora leda de Alencar Barreira e defendida em 16 de dezembro de 1998
2. O termo "câmera obscura" se aplica a qualquer invenção ótica na qual é formada uma imagem da cena, visível em um anteparo colocado em um quarto escuro ou em uma caixa grande. Esta já era conhecida desde o século XV e possuía, exceto pelo obturador, todos os elementos essenciais à câmera fotográfica (Neto, 1976,p.3).
3. Com a invenção da fotografia, a imagem dos objetos já podia ser gravada diretamente pela ação da luz sobre uma superfície sensibilizada químicamente (Neto, 1976, p. 3).
4. A História Nova foi um movimento iniciado na França, na virada da década de 20, que representou uma reação à história positivista, centrada nos acontecimentos, na história dos grandes homens, de forma narrativa ou dogmática. A história nova trata da história dos homens, ao invés da pequena parte da história de alguns homens, considera as estruturas, o movimento e a totalidade (Le Goff, 1993, p. 28).
5. Zaíra Cintra Vidal permaneceu na Escola de 1927 a 1942 (fez pós-graduação nos Estados Unidos). Foi o "braço direito" de Bertha Lucile Pullen, no entanto, não a sucedeu na direção da Escola de Enfermeiras.
6. Ex-Asilo da Mendicidade São Francisco de Assis, transformado em Hospital Geral da Assistência do DNSP.
7. A partir da classe de 1926, a questão da discriminação racial na seleção das candidatas tornou-se aguda, com publicação de denúncias em jornais. Ethel Parsons reconhecia, em seu relatório, que a política da Escola vinha sendo mesmo a de evitar a entrada de alunas negras, até que o conceito da profissão junto ao público tivesse mudado, para que se pudesse atrair "a melhor classe de mulheres para a nova profissão"(BARREIRA, 1995, p. 26).
8. A formação da mulher, até as primeiras décadas do século 20, era basicamente familiar e estava orientada a preparar-se para os afazeres da casa (SAUTHIER, 1996, p. 162).

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