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Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
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Ministério da Educação
CAPES

Volume 2, Número 1, Jan/Ago - 1998

INTRODUÇÃO

A diretriz que orientou a elaboração deste tema é o entendimento de que, para atingir o objetivo de prestar uma assistência de enfermagem adequada, é necessário, principalmente, aceitar o outro - a clientela - como ele é, ou seja, como ele se apresenta como pessoa, demonstrando que ele é aceito através de uma aproximação, livre de preconceitos e baseada no respeito (Castelo Branco, 1996).

É comum a equipe de enfermagem desempenhar uma assistência centrada em rotinas básicas como: verificar sinais vitais, administrar medicação, proporcionar cuidados higiênicos, ou apenas "tomar conta" (no sentido de vigiar). Se não levarmos em conta a subjetividade da clientela, a "ação de cuidar" será uma consecutiva repetição de rotinas, independente dos anseios de nossos clientes.

Frente a estas inquietações surgiram alguns questionamentos:

- Quais são as expectativas da clientela em relação à assistência de enfermagem?

- Será que, ao desenvolver a assistência de enfermagem, são consideradas as "necessidades sentidas" pela clientela?

- Quais são suas necessidades assistenciais?

Estes questionamentos levaram ao desenvolvimento de um estudo com o objetivo de compreender as necessidades da cliente* que está internada em uma Enfermaria Psiquiátrica, frente à assistência de enfermagem.

 

REFLEXÕES

De acordo com a literatura específica, o fundamento da assistência de Enfermagem Psiquiátrica são o relacionamento interpessoal e o estabelecimento de um ambiente terapêutico, sendo que ambos permitirão ao cliente mover-se em direção à sua saúde (Peplau, 1952; Irving, 1979; Taylor, 1992).

Relacionamento interpessoal com o cliente psiquiátrico caracteriza-se pela percepção deste como ser humano, com as peculiaridades que o transtorno psíquico lhe impõe, e como são transpostas da melhor maneira possível as barreiras sociais e/ou culturais na busca de um entendimento (Elsas 1987). Neste sentido, para Castelo Branco e Tocantins (1996), o relacionamento interpessoal só poderá ser efetivo se conhecermos "a pessoa" do cliente, que é um ser humano com uma história de vida, constituída por suas experiências vivenciadas, seus valores e conceitos, e com perspectivas de vida e de assistência a serem considerados.

Ambiente terapêutico é aquele que atende às necessidades psicossociais da pessoa, e está apoiado no relacionamento de equipe profissional com a clientela sob o cuidado da mesma (Elsas 1987). Assim, e ainda segundo Castelo Branco (1996), um ambiente só pode ser terapêutico se oferecer atendimentos às necessidades da cliente mediante um relacionamento que envolve aproximação física e emocional. Ou seja, é através dos cuidados de enfermagem, voltados para as experiências da clientela como pessoa, que haverá um crescimento da Enfermagem Psiquiátrica, trazendo no reconhecimento de práticas inerentes à assistência o grande salto para seu efetivo papel terapêutico. Não devemos nos ater apenas ao atendimento de suas necessidades básicas, teoricamente preestabelecidas - a assistência de enfermagem vai mais além.

A preocupação com as necessidades da clientela em relação à enfermagem levou-nos a considerar a importância de uma abordagem compreensiva, por esta centralizar suas questões de análise no sujeito que está vivenciando e agindo em um determinado contexto de relações entre pessoas, isto é, no contexto da Enfermagem.

E, com esta preocupação, foi desenvolvido um estudo fundamentado no referencial fenomenológico. Entendemos que este era um dos modos mais adequados para abordar o tema, por focalizar as vivências dos sujeitos em relação ao fenômeno que foi objeto deste estudo - as necessidades da clientela (Tocantins, 1993, Castelo Branco, 1996; Rodrigues, 1996).

O estudo foi desenvolvido a partir das concepções de Schutz (1962; 1972), pois teórica e metodológicamente este autor permite abordar a questão do significado da ação - o sentido que o sujeito dá a sua ação, o significado da ação do outro (Capalbo, 1979). A sociologia compreensiva de Schutz fundamenta-se naquele que vivencia a experiência, valoriza a vivência daquele que realmente realiza e sente a ação, que é única, pois só este é que pode dizer o que pretende.

Schutz (1962; 1972) encaminha uma abordagem que valoriza o sujeito, e isto na assistência de Enfermagem é fundamental, já que esta assistência surge na relação entre duas ou mais pessoas: a Enfermeira tem por objetivo atender às necessidades do outro, e para isto é necessário conhecer o outro, compreendê-lo e saber dele quais são as suas necessidades.

O estudo foi desenvolvido com clientes internadas na Enfermaria Feminina da Unidade de Internação do Instituto Philippe Pinei. Neste contexto, procurou-se obter os depoimentos das clientes no momento de ação de procura individual pela Enfermagem, realizando uma entrevista com uma questão orientadora: O que você tem em vista quando procura a Enfermagem?

Os depoimentos foram obtidos no período de 12 de fevereiro de 1996 a 22 de março de 1996. Foram entrevistadas 13 clientes, perfazendo um total de 24 depoimentos, pois entrevistamos cada cliente que nos procurava, independente de já ter sido entrevistada ou não. Esta estratégia foi utilizada entendendo que as pessoas, segundo Schutz (1962:9;20-21), têm os seus motivos-para em função da sua situação biográfica, sendo a de agora diferente daquela de meio minuto atrás.

Desta maneira, buscou-se apreender e compreender, o "significado da ação" de procura dessas clientes pela Enfermagem, desvelando assim suas necessidades assistenciais.

A análise dos depoimentos ocorreu tendo em vista a concepção de tipicidade da ação, segundo Schutz (in Wagner, 1979). Nesta análise, procurou-se captar o que existia de invariável, ou seja, o que existia em comum nas diferentes falas das pessoas quanto às expectativas quando da ação da procura pela Enfermagem.

Emergiram dos depoimentos duas categorias concretas do vivido, que permitiram construir como típico da clientela "internada em uma enfermaria psiquiátrica" que a mesma procura a Enfermagem para atender suas necessidades assistenciais de conversar para ser ajudada a se sentir melhor e intermediar a resolução de problemas relacionados a sua internação na instituição (Castelo Branco e Tocantins, 1996:39).

A análise compreensiva foi feita a partir deste típico e englobou as necessidades assistenciais de enfermagem por parte da clientela que está internada em uma Enfermaria Psiquiátrica.

Assim, a questão da comunicação surgiu como um dos aspectos mais relevantes.

...quando eu procuro a enfermeira é para falar um pouco das minhas alucinações, das minhas idéias loucas que eu tenho na cabeça...tem uma história, tem uma fantasia na cabeça... aí eu procuro para falar desta fantasia.eu procuro uma enfermeira, uma enfermeira que eu sei que vai me ouvir...aí eu procuro ela, procuro pra falar sobre as minhas idéias...(...)...eu procuro a enfermagem porque eu tenho uma necessidade muito grande de falar...

...ontem eu vi você conversando com outra pessoa, e vi que você estava interessada em conversar com esta outra pessoa e ajudando-a,...(...)....e eu tô precisando desta ajuda, pra sobreviver,...

Vim falar com a Sr.ª para pedir que me ajude...(...) Me sinto mais calma depois de conversar com a Sr.ª...Eu queria conversar..(...)...gostei de conversar com você...desabafei um pouco...estou mais calma. (...) Ser ouvida, principalmente.

Posso conversar com a Sr.ª?(...) Conversar...dizer o que está se passando comigo para que você possa me ajudar...

...não estou mais sentindo nada, porque eu estou me desabafando com a Sr.ª...

Quero falar... ser ouvida...

...o que me levou a te procurar é exatamente a vontade de conversar...

Entendemos que a necessidade de conversar não se reduz simplesmente ao falar, mas envolve principalmente a possibilidade de ser ouvida, de falar com alguém, com alguém que a escute. Portanto, é necessidade desta clientela fazer-se conhecer através da linguagem para que assim possa ser compreendida, aceita como ser humano único, respeitada em sua maneira própria, singular, de ver o mundo, ou seja, como pensa, sente e age: expressar livremente o significado de suas ações. Neste estudo, o ser ouvida da cliente conduz ao escutar da Enfermagem, ao saber ouvir. E este é uma técnica de comunicação terapêutica.

Para Schutz (1972:158; 160-161 ), é através da comunicação que a pessoa explicita seu motivo-para. Ele considera que o ato comunicativo tem como meta não apenas que alguém tome conhecimento dele mas, sim, que sua mensagem motive a pessoa, que toma conhecimento, a assumir uma atitude particular ou a desenvolver algum tipo de conduta.

Assim, no que se refere à Enfermagem, é principalmente através da comunicação verbal que a cliente, internada em uma enfermaria psiquiátrica, expressa suas necessidades (Taylor, 1992:56).

Outro aspecto importante que surgiu foi a questão da intermediação durante a internação, como uma das necessidades da clientela

Eu tô com febre desde ontem, e tô com muita dor na garganta, não consigo engolir direito, queria que você examinasse minha garganta...(...)...eu tenho também que voltar lá no Benjamim Constant pra consultar, nem com os óculos eu tô conseguindo ler direito, você vê alguém pra me levar lá?

...eu vim mostrar meu pé como está...olha aí...inchado...(mostra o pé direito que se encontra edemaciado)...como tá isso...olha como tá isso...(mostra a região coxo-femural esquerda que apresenta um hematoma).. :olha como tá isso...(...) Espero muita coisa...uma ajuda...(...)...a Sr.ª pede pra alguém do plantão de hoje catar meu cabelo pra tirar os piolhos? Eu tô cheia de piolho.

...vim para dizer que há 5 dias não evacuo, e isto está me incomodando muito, sinto vontade de fazer cocô, vou ao banheiro, faço força e não sai nada, está muito endurecido...acho que é a mudança da alimentação e do ambiente...em casa vou ao banheiro todos os dias... você pode me ajudar?

Estou com muita dor no pé, me ajuda? Acho que ele está quebrado.

...some tudo aqui, some tudo, sumiram com a minha roupa, eu tô com essa roupa aqui (mostra o vestido do Hospital).:.mas eu não tenho outra...sumiu escova de dente...que que tu podes fazer por mim? (...)...mas pelo amor de Deus, ficar com a calcinha podre, olha aqui minha calcinha...podre...tem que providenciar vir alguém da minha família, providencia entendeu? (...)...querida me salve...eu não agüento mais ficar aqui....sem roupa, com a calcinha podre...tomei banho, não tenho roupa entendeu?...ainda roubaram tudo, eu tô com uma sandalhinha aqui que eu achei...me arruma alguma roupa, uma calça, eu tô com a calcinha imunda...não adianta tomar banho e botar a mesma calcinha suja...(...)...eu quero uma escova de dente, uma pasta de dente...posso fazer uma listinha?...o que você pode fazer por mim quanto essas coisas que eu estou precisando? (....)... você pode ver se arranja a roupa e a calcinha agora?

Se, por um lado, o processo terapêutico visa tornar a pessoa o mais independente possível, por outro, em algumas situações durante a internação, a cliente necessita da Enfermeira para fazer algo por ela e não apenas com ela. Isto ocorre não por ela ser dependente como pessoa mas sim pela situação que ela está vivenciando naquele momento.

A internação propriamente dita implica na necessidade que a cliente tem de acesso a alguns serviços, de saúde ou não, fora da instituição, e esta intermediação ela espera que seja feita pela equipe de Enfermagem. Como é de responsabilidade de todos os membros da equipe de Enfermagem providenciar para que as necessidades da cliente sejam satisfeitas, mesmo que estas não dependam de sua própria atividade profissional, a intermediação também compõe o atendimento a estas necessidades.

Neste contexto, entende-se ser necessário desenvolver novas práticas assistenciais, baseadas no respeito, na aceitação, que envolvam realmente coexistência e participação, ajudando a clientela a expressar e explorar seus sentimentos e suas necessidades, que lhe permitam ser sujeito de sua própria história. E preciso saber escutá-la.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo realizado propiciou reafirmar também o entendimento de que a aproximação, de cada um dos membros da equipe de Enfermagem com a clientela internada, dar-se-á a partir de uma efetiva supervisão da Enfermeira. A ela cabe subsidiar esta equipe tecnicamente, com o objetivo de aprimorá-la, propiciando condições favoráveis para um adequado desenvolvimento das atividades assistenciais.

Entendemos que a Enfermeira Psiquiátrica deve assumir a responsabilidade da educação continuada de sua equipe no que se refere ao atendimento das necessidades da clientela. Contudo, esta educação só será possível através da assistência direta prestada pela Enfermeira.

Na Enfermagem Psiquiátrica, é necessário uma habilidade situacional, pois, à medida que se propõe o respeito à clientela em sua totalidade, cada relação estabelecida com cada cliente será única. E esta habilidade situacional somente poderá se dar através de um fio condutor lógico e coerente com a atitude profissional embasada por esta perspectiva compreensiva.

Esta é uma outra perspectiva do assistir em Enfermagem, onde o assistir e o pesquisar integram-se mutuamente, com a possibilidade de subsidiar concretamente a educação. A assistência pautada no pesquisar conduzirá ao estabelecimento, dinâmico por natureza, de um diagnóstico de Enfermagem adequado às necessidades sentidas pela clientela, isto é, subsidia a ação profissional da Enfermeira.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CASTELO BRANCO, Alba Lúcia, TOCANTINS, Florence Romijn. A cliente internada e a enfermagem psiquiátrica. Rio de Janeiro: UNI-RIO/SBO, 1996.

2. ELSAS, Berenice Xavier. Intervenção de saúde mental em hospital geral: um modelo de abordagem para enfermeiros. Tese (Doutorado) - Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 1987.

3. IRVING, Susan. Enfermagem psiquiátrica básica. Rio de Janeiro:Interamericana, 1979.

4. PEPLAU, Hildegard E. Interpersonal relations in nursing. New York:G.P. Putnam's Sons, 1952.

5. RODRIGUES, Benedita Maria Rego Deusdará. O cuidar de crianças em creche comunitária: redimensionando o treinamento numa perspectiva compreensiva. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1996.

6. SCHUTZ, Alfred. Collected papers 1 : the problem of social reality. the hague: Martinus Nijhoff, 1962. Fenomenología del mundo social: introducción a la ociologia comprensiva. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1972.

7. TAYLOR, Cecilia Monat. Fundamentos de enfermagem psiquiátrica de Mereness. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

8. TOCANTINS, Florence Romijn. As necessidades na relação cliente-enfermeiro em uma unidade básica de saúde: uma abordagem na perspectiva de Alfred Schutz. Rio de Janeiro: UFRJ, 1993. Tese (Doutorado em Enfermagem).Escola de Enfermagem Anna Nery - Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1993.

9. WAGNER, Helmut R. (org.) Fenomenología e relações sociais.Textos escolhidos de Alfred Schutz. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

 

1. Conferência apresentada na Mesa. Redonda "Avanços nos Diagnósticos Multiprofissionais" da II JORNADA DE SAÚDE MENTAL, na Universidade Catálica de Petrópolis em 2519/97.
2. partir deste momento da. trajetória, o "tipo vivido cliente internada em enfermaria psiquiátrica" será referido como "cliente" e "clientela", fundamentado em Schutz. (1972:262).

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