ISSN (on-line): 2177-9465
ISSN (impressa): 1414-8145
Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
COPE
ABEC
BVS
CNPQ
FAPERJ
SCIELO
REDALYC
MCTI
Ministério da Educação
CAPES

Volume 10, Número 3, Jul/Set - 2006

RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

Redescobrindo o Centro de Memória da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto: relato de experiência

 

Rediscovering the Memory Center at the Ribeirão Preto College of Nursing: an experience report

 

 

Redescubriendo el Centro de Memoria de la Escuela de Enfermería de Ribeirão Preto: un relato de experiencia

 

 

Luciana Barizon LuchesiI; Isabel Amélia Costa MendesII; Margarida Antonia Villar LuisIII; Toyoko SaekiIV

IDoutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental - Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP
IIProfessora Titular do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada - Escola de Enfermagem Ribeirão Preto/USP
IIIProfessora Titular do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas - Escola de Enfermagem Ribeirão Preto/USP
IVProfessora Doutora do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas - Escola de Enfermagem Ribeirão Preto/USP

 

 


RESUMO

Por meio de relato de experiência, apresenta-se a atuação de um grupo de docentes e alunos no processo de reorganização do Centro de Memória da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo no triênio 2002-2005. Após o resgate da criação do referido Centro, aborda-se sobre os procedimentos e atividades desenvolvidos na reorganização do Centro, em termos de coleção fotográfica, capacitação do grupo, promoção de eventos e inserção de atividades práticas para estimular o interesse dos alunos pela História da Enfermagem.

Palavras-chave: Enfermagem. História da enfermagem. Memória. Arquivos. Educação em Enfermagem.


ABSTRACT

Through an experience report is presented the performance of a group of professors and students in the process of reorganization of the Memory Center of the Ribeirão Preto College of Nursing from University of São Paulo in the period of 2002-2005. After the rescue of creation of the related Center, it is approached the procedures and activities developed in the reorganization of the Center, in terms of photographic collection, group qualification, promotion of events and insertion of practical activities to stimulate the students interest for the History of nursing.

Keywords: Nursing. History of Nursing. Memory. Archives. Education, Nursing.


RESUMEN

Por medio de la narración de experiencias se presentan las actividades de un grupo de docentes y alumnos en proceso de reorganización del Centro de Memoria de la Escuela de Enfermería de Ribeirão Preto de la Universidad de "São Paulo" en el trienio 2002-2005. Posterior a la recuperación de la creación del Centro, se trató sobre los procedimientos y actividades desarrolladas en su reorganización, en términos de colección fotográfica, capacitación grupal, promoción de eventos e introducción de actividades prácticas para estimular el interés de los estudiantes por la historia de enfermería.

Palabras clave: Enfermería. Historia de la Enfermería. Memoria. Archivos. Educación en Enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A pesquisa em História da Enfermagem vem conquistando espaço entre os enfermeiros brasileiros atualmente, principalmente pela importância do seu estudo para análise da atual realidade da profissão, entre outros fatores.

Aparentemente, a temática ganhou impulso na década de 1980, com a sensibilização dos profissionais envolvidos no ensino para a necessidade de estudos históricos e de pesquisadores voltados exclusivamente para a temática, contextualizando a evolução da profissão de forma crítica dentro de um espaço social 1.

Esta expansão recente de pesquisas trouxe consigo um aumento do prestígio dos estudos históricos2. Entretanto, este tipo de pesquisa tem encontrado grandes barreiras para seu desenvolvimento; a principal delas trata-se das condições dos documentos que dão origem a grande parte destes estudos. Ainda são poucas as instituições que se preocupam em conservar documentos e outros materiais que retratem a História da Enfermagem.

O que vemos com freqüência são verdadeiros "tesouros" da nossa história abandonados em arquivos permanentes. Encontram-se, em muitos casos, registros com infestações, rasgados, apagados pelo tempo, quebradiços, entre outros problemas.

Não raramente, imagens são descartadas sem qualquer tratamento prévio. Como conseqüência, ao longo do tempo, teremos o desaparecimento daquele recorte da história. Os pesquisadores são os que têm a maior responsabilidade de localizar, conservar e produzir fontes históricas, a fim de que não se perca a memória da enfermagem 3.

A conservação do patrimônio tem sido alvo da mídia na atualidade. Mas o que significa preservar o patrimônio histórico da enfermagem? Um patrimônio muitas vezes desconhecido dos próprios enfermeiros, cujo conjunto torna-se parte da História da Enfermagem Brasileira.

A ética deste milênio pressupõe que as futuras gerações não sobreviverão se lhe forem tiradas idéias e coisas que para nós hoje são essenciais 4. Entretanto, preservar a História da Enfermagem depende de posturas institucionais acerca de cada acervo, uma vez que ainda se observam fontes documentais descartadas com a finalidade de liberar espaços 5.

As coleções que constituem as bibliotecas apresentam uma ampla diversidade de materiais: papéis, fotografias, etc, que passam por um processo natural de envelhecimento irreversível. Contudo, esses materiais, se forem armazenados e utilizados corretamente, terão uma vida útil prolongada 6.

 

OBJETIVO

Discorrer sobre a experiência de participar do processo de reorganização do Centro de Memória da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (CEMEERP-USP), no período de 2002-2005.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um relato de experiência acerca do trabalho realizado no período de 2002-2005 por voluntários e bolsistas sob orientação de docentes da instituição.

 

A REORGANIZAÇÃO DO CEMEERP:
REDESCOBRINDO A HISTÓRIA

O CEMEERP foi criado em 1988 na gestão da Diretora Profa. Dra. Emília Luigia Saporiti Angerami, na comemoração do 35º aniversário desta instituição7. Em 23 maio de 1989, a Portaria D/EERP-18/89 concretizou a idéia e estabeleceu a comissão responsável (Nadyr Viana Lomônaco Coordenadora, Profa. Dra. Daisy Leslie Steagall Gomes, Prof. Francisco de Assis Correia e Maria José Cesarino Fram).

Para nortear as atividades, foram solicitadas as orientações do Professor José Eduardo Mauro, do Instituto de Estudos Brasileiros/USP, em São Paulo, posteriormente do Professor Fernando Antônio Abrahão, do Centro de Memória da UNICAMP, que aparentemente prestou assessoria por mais longo período às atividades do CEMEERP8. Em setembro de 1989, o referido professor visitou a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, onde, junto com a direção da Escola e a comissão, estabeleceu os objetivos do CEMEERP9.

Em dezembro de 1989, o grupo formado por Senhora Nadyr Viana Lomônaco, Profa. Zaíra Benedini, Maria José Cesarino Fram e Prof. Francisco de Assis Correia realizou visita ao Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro (SP), cuja competência era reconhecida em nível nacional e internacional 7.

Com uma bagagem de conhecimentos adquiridos nessas visitas e reuniões, o grupo iniciou um trabalho de busca de objetos que pudessem constituir o patrimônio histórico da EERP-USP e resgatar o processo de criação da instituição, utilizando informações adquiridas por meio do Professor Carlos Humberto P. Corrêa, da Universidade Federal de Santa Catarina, que culminou na formação de um acervo de história oral 7. Após a finalização dos trabalhos, deu-se, em 5

de março de 1990, a inauguração do CEMEERP7. Contudo, no mês de maio, a portaria D/EERP-27/90 extingue a portaria que estabelecia a Comissão para atuação na Memória Histórica.

Em 1991, a então diretora Profa. Dra. Vera Heloísa Pileggi Vinha lança a Portaria D/EERP - 49/90 em 14 de agosto, estabelecendo novamente a Comissão de Memória Histórica, cujo objetivo principal era dar continuidade à organização do CEMEERP. A Comissão contava com o Prof. Francisco de Assis Correia (presidente), Profa. Dra. Daisy Leslie Steagall Gomes, Profa. Zaíra Benedini, Nadyr Viana Lomônaco, Francisco José Barroso Vessi, Maria José Cesarino Fram, a aluna de Pós-Graduação Eliana Faria de Angelice Biffi e as alunas de graduação Marisa Julio Ragoso e Andréia Pádua Pereira.

Contudo, em 26 de abril de 1991, a Portaria D/EERP - 16/91, no intuito de desburocratizar as atividades da EERP e resolver a situação de comissões que exerciam ações concomitantes ou justapostas a Seções administrativas, extinguiu algumas comissões, entre elas a de Memória Histórica (D/EERP - 49/90). Alguns docentes pertencentes à comissão ainda mantiveram atividades relacionadas ao acervo, mas, devido à carência de pessoal, o CEMEERP manteve-se pouco ativo até 1999.

Em 1999, a propósito das comemorações dos 20 anos do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental da EERP-USP, o Grupo de Estudo e Pesquisas em Comunicação no Processo em Enfermagem (GEPECOPEn), liderado pela Profa. Dra. Isabel Amélia Costa Mendes, organizou e realizou o FORUM: MEMÓRIA E HISTÓRIA INSTITUCIONAL, que contou com a participação da Profa. Dra. Jussara Sauthier, então membro da Diretoria do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (NUPHEBRAS) e professora da Escola de Enfermagem Anna Nery. Este evento incluiu duas conferências: "Importância da preservação da memória institucional/profissional" e "Preservação de fontes para pesquisa histórica", proferidas pela Profa. Dra. Jussara Sauthier, que também ministrou um treinamento prático a funcionários de vários setores da EERP-USP, com o objetivo de sensibilizá-los para a importância e valorização da documentação histórica e organização do acervo documental de cada setor10.

No mesmo ano, na tentativa de impulsionar as atividades de organização do CEMEERP, a EERP-USP conseguiu, na Coordenadoria de Assistência Social da USP, uma bolsa-trabalho por um período de dois anos para estagiário, mas, em virtude da amplitude do CEMEERP e demanda de trabalho, abraçou apenas uma pequena parte do arquivo e proporcionou a abertura do acervo para visitas. Após este período, não houve continuidade das atividades, em decorrência da não-aprovação da renovação da bolsa em 2001.

Neste sentido, a reorganização do CEMEERP pôde favorecer o atendimento da demanda de pesquisas sobre a História da EERP, além das interfaces com áreas de pesquisa em História da Enfermagem, como estudos de gênero, identidade profissional, entre outros, reforçando a necessidade de um grupo permanente para desenvolvimento de trabalho contínuo.

Ao longo da historia mundial, em relação aos arquivos, verifica-se um esforço na sua organização em momentos positivos, no intuito de mantê-los vivos na mente dos povos. Em contrapartida, observamos que este processo se inverte em tempos de tensão, como em guerras e revoluções, quando não é incomum o desaparecimento criminoso de registros5.

Em 2002, a enfermeira Luciana Barizon Luchesi e uma aluna de graduação, Lia Mara da Silva, iniciaram um trabalho voluntário de diagnóstico do acervo e tentaram reabrir o CEMEERP ao público. Contudo, as dificuldades orçamentárias permitiram poucas atividades além da visitação. As atividades foram possíveis graças à autorização da Diretora da EERP em 2002 Profa. Dra. Emília Campos de Carvalho.

No período de outubro de 2003 a outubro de 2004, a EERP-USP contou com a participação de três bolsistas no CEMEERP por meio de recursos financeiros fornecidos por um projeto enviado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, permanecendo a enfermeira como voluntária. Nesse ano, o CEMEERP passou a contar com o apoio constante da Direção da EERP através da Diretora e Vice-Diretora (Profas. Dras. Isabel Amélia Costa Mendes e Margarita Antonia Villar Luís) e também com orientação da Profa. Dra. Toyoko Saeki.

Atividades realizadas durante o período de 2002-2005

- Visitação

As atividades dos bolsistas vinculadas ao projeto proporcionaram a abertura do CEMEERP para visitação com horário fixo. Esta atividade conferiu maior contato dos alunos de graduação com a memória da EERP-USP, além de promover o interesse de alunos em desenvolver pesquisas na área de história. O acervo foi visitado por várias escolas da rede municipal, alunos de graduação, docentes, além de professores estrangeiros. Além de ampliar a visibilidade do CEMEERP, da EERP-USP e da Enfermagem como profissão, vale lembrar que a abertura de arquivos ao público é o cumprimento de sua função social 5.

- Levantamento bibliográfico

Realizou-se um levantamento bibliográfico sobre procedimentos a serem realizados no acervo, sobre o histórico da EERP-USP, destacando literatura acerca da conservação preventiva e importância da preservação do patrimônio histórico. Hoje o acervo já possui uma pequena biblioteca de 54 cadernos técnicos, 2 livros, apostilas e textos.

- Diagnóstico

Com o propósito de sistematizar as atividades a serem realizadas no CEMEERP, foi realizado um diagnóstico amplo do acervo, sendo identificado o acervo fotográfico como o de maior risco de deterioração. Neste sentido, os esforços, inicialmente, foram voltados para a coleção fotográfica.

- Treinamentos

Bolsistas e enfermeira voluntária foram submetidos a treinamento na área de conservação preventiva para fotografias, oferecido por profissionais do Setor de Arquivos da USP (SAUSP), e, posteriormente, no Museu Paulista-USP, com especialistas na área de conservação preventiva, para posterior aplicação do conhecimento no CEMEERP.

- Aquisição de materiais básicos de proteção ao acervo fotográfico

Com o propósito de dar início às atividades práticas no CEMEERP, foi realizada a compra de materiais de proteção ao usuário e aos documentos, tais como luvas, máscaras, óculos de proteção e aventais.

- Digitalização do acervo fotográfico

As fotografias (3.186) foram acondicionadas em papel com ph neutro, embaladas uma a uma, e a catalogação da foto foi indicada no verso. Estas anotações foram realizadas com lápis específico para este fim. As informações foram também registradas em um arquivo de papel e, em seguida, armazenadas em pastas suspensas em arquivos de aço.

Considerando que havia manipulação excessiva das fotos por muita procura das mesmas pela comunidade de docentes e alunos para digitalização e posterior utilização em trabalhos científicos, optamos pela digitalização completa para, em seguida, adotar a restrição de sua manipulação de forma a proteger o acervo iconográfico. Deste modo, quando o usuário necessita da imagem, o CEMEERP já oferece a mesma em formato digital.

Há sempre resistências a esta restrição, mas é preciso ter em perspectiva que o homem é um dos maiores agressores dos objetos de caráter histórico. A simples manipulação que ocorre em bibliotecas e acervos já é suficiente para a degradação do material, pois pode produzir acidez e manchas causadas por acidez e gordura do suor das mãos. Agressões mais extensas, como dobrar, escrever, colocar clipes, colar fitas, etc, vão contra às necessidades de conservação dos materiais, e essas atitudes muitas vezes causam danos irreversíveis 11.

O uso da informática, mesmo que em catálogos, ajuda o usuário a selecionar suas necessidades sem acessar manualmente a documentação, o que é desnecessário. Também o uso de cópias pode promover a longevidade de documentos originais de grande valor histórico ou que se encontre em estado de deteriorização 12.

O grupo de trabalho optou pela digitalização do material após descobrir que a quantidade de radiação UV emitida por máquinas copiadoras varia de acordo com a fabricação da máquina; porém, é consenso que é improvável que curtas exposições à luz para fins de cópias simples causem danos mensuráveis ao documento. Somente se tornam alvo de preocupação quando o objeto é copiado múltiplas vezes 13.

- Organização de banco de dados sobre fotos digitalizadas

Um banco de dados provisório foi instalado pela Equipe de Informática da EERP e alimentado pela equipe de bolsistas do CEMEERP, a fim de tornar-se um catálogo de busca. O banco de dados contém as informações acerca de cada foto (nº de tombo, código, pasta em que se encontra a fotografia, referência, assunto, conteúdo, local, integrantes da foto, data e dimensão da foto). Desta forma, o usuário pode localizar fotos no computador sem a necessidade de manipulação do acervo. O banco de dados conta com o registro das 3.186 fotografias e, em breve, também contará com o registro dos livros e demais documentos do acervo.

A tecnologia utilizada na imagem digital pode proporcionar cópias de alta qualidade do item original; isso reduz o acesso direto a documentos importantes, tornando-se um elemento de preservação e de acesso. A identidade do original é mantida, e os sistemas de indexação promovem buscas eficazes, diminuindo as "expedições de caça" 14.

- Rebobinamento periódico das fitas VHS do acervo audiovisual

Após a finalização da digitalização do banco de dados, demos início à atuação no acervo audiovisual. O mesmo tem recebido cuidados de manutenção, como rebobinamento semestral de fitas. O acervo conta com 70 fitas VHS contendo fatos importantes da história da EERP-USP.

- Transcrição do conteúdo de fitas-cassete do acervo sonoro

Iniciou-se também a transcrição do acervo sonoro, priorizando o conjunto de história oral realizado pelos fundadores do CEMEERP em 1990, cujo conteúdo revela personalidades que foram fundamentais para a formação da identidade da EERP-USP. O acervo é constituído de 21 fitas-cassete.

- Orçamento de materiais específicos para acondicionamento do acervo fotográfico

Pesquisaram-se materiais específicos para higienização e acondicionamento das fotografias, segundo normas técnicas atuais de conservação preventiva, orientadas por especialistas do Museu Paulista-USP. No momento, iniciamos as atividades de higienização, sendo trabalhadas até o momento 1.700 fotografias. Infelizmente esta atividade, devido a dificuldades de deslocamento da equipe para treinamentos e à falta de recursos materiais, não pôde ser realizada anteriormente ao processo de digitalização, momento em que ainda não havia recursos da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP.

As fotografias hoje são higienizadas, embaladas em folha de polietileno, com papel cartão protegendo o verso da fotografia, armazenadas em caixas próprias para a guarda de documentos antigos, e colocadas na posição horizontal.

Conservação preventiva compõe-se de "intervenções diretas, feitas com a finalidade de resguardar o objeto, prevenindo possíveis malefícios. Exemplos: higienização, pequenos reparos, acondicionamento, etc." 11:3.

- Participação e promoção de eventos científicos para estimular o interesse dos alunos pela História da Enfermagem

Em março de 2004 houve apresentação do grupo do CEMEERP para os alunos ingressantes no 1º ano. As atividades, na ocasião, limitaram-se à orientação de leituras aos alunos, sem a participação em estágio prático, pois não houve tempo necessário para que os alunos estagiassem.

Os trabalhos iniciais do acervo foram apresentados no trabalho "O processo de Revitalização do Centro de Memória da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP: A Memória em Tempos de Internet", com a finalidade de familiarizar os voluntários do acervo com a elaboração de um trabalho para evento científico. O trabalho foi apresentado na forma de pôster no 9º Simpósio Brasileiro de Comunicação em Enfermagem 9º SIBRACEn, realizado em Ribeirão Preto, de 27 a 28 de maio de 2004.

Idealizada pelos bolsistas e voluntários do CEMEERP, contando com o apoio da Comissão de Cultura e Extensão da EERP-USP, da Direção da EERP-USP e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da Universidade de São Paulo, realizou-se, de 03 a 04 de novembro do mesmo ano, a Semana Professora Glete de Alcântara. O objetivo da semana foi homenagear a memória da Professora Glete de Alcântara (fundadora da EERP-USP) na passagem de seus 30 anos de falecimento, através da história oral, relatada por docentes que conviveram com ela, e debates pertinentes à História da Enfermagem Brasileira. A iniciativa da semana foi mantida, e, em 2006, teremos sua terceira edição.

Também no mês de novembro, por meio dos Seminários Científicos promovidos pelo Programa de Educação Tutorial (PET) da EERP, o CEMEERP apresentou palestra referente às suas funções e importância para a EERP-USP e para a enfermagem brasileira.

Devido aos constantes estímulos da Direção da EERP para a atualização dos voluntários e bolsistas do acervo, alguns voluntários têm participado de eventos sobre a temática, como o II Congreso Internacional y VII Congreso Nacional de História de la Enfermería, em Granada, Espanha, em 2004, e o II Colóquio Latino-Americano de História da Enfermagem, no Rio de Janeiro, em 2005.

Ainda em 2005, a enfermeira, que atua voluntariamente no CEMEERP, enquanto aluna de Pós-Graduação desta instituição, foi bolsista do Programa de Aperfeiçoamento de Ensino (PAE) na disciplina de História da Enfermagem, possibilitando um estágio prático dos alunos do 1º ano no CEMEERP e a participação dos alunos em discussões sobre a importância da preservação do patrimônio histórico.

O ensino da História da Enfermagem representa um momento crucial na formação do aluno para que seja despertado seu interesse pelo assunto. Contudo, estudos apontam que o ensino da História da Enfermagem era uma sucessão de nomes importantes para a enfermagem, desprovidos do contexto histórico, social e político da sociedade em que cada personagem apareceu 15. Desprover as informações de seu contexto político, social geral e da oportunidade de analisar criticamente as ações ante este cenário empobrece a disciplina, pois não desperta o censo crítico dos alunos.

A disciplina de História da Enfermagem na EERP-USP e o estágio prático no CEMEERP despertaram o interesse dos alunos pelo acervo. A introdução de atividade prática na Disciplina de História da Enfermagem, em maio de 2005, motivou a candidatura de 11 voluntários para o CEMEERP, permitindo o estabelecimento de um estágio voluntário de 4 horas mensais, durante 7 meses, a fim de não prejudicar as atividades acadêmicas dos alunos. Fica, portanto, demonstrado que a disciplina pode também, além de cumprir sua finalidade educativa e cultural, servir como estratégia para sensibilização e mobilização de talentos com potencial de agregar valor aos projetos culturais, de ensino e de pesquisa.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como se pode observar, a intenção do grupo que trabalhou neste período não foi apenas de reorganizar o acervo, mas também de despertar o interesse da comunidade EERP-USP pela História da Enfermagem. A experiência mostrou que a falta de interesse dos alunos pela temática torna lento o processo de reorganização, pois, no momento, este trabalho depende da ajuda de voluntários. É preciso integrar o CEMEERP à estrutura administrativa da instituição para garantia de continuidade dos processos e de permanência de pessoal em treinamento, para que o processo de trabalho ali instalado reverta em resultados e produtos acadêmicos e culturais que tenham reflexos em toda a ambiência em que se insere. Para o alcance dessa meta, temos sempre em perspectiva os processos e os êxitos conquistados pelo Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (NUPHEBRAS), vinculado ao Departamento de Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem Anna Nery-UFRJ.

Porém, enquanto não se consegue as estruturas física, organizacional e humana idealizadas, com a inserção deste novo grupo de voluntários em 2005, nossa esperança está renovada, não deixando, obviamente, de pleitear recursos perante as instituições de fomento a fim de contratar especialistas em arquivologia para assessoria. Seria mais recomendado para a área física de um arquivo sua divisão em quatro espaços (recepção, guarda, higienização ou restauro e biblioteca)5.

Considerando-se a importância da Professora Glete de Alcântara para a História da Enfermagem Brasileira e de outras líderes que a sucederam na mesma instituição, torna-se imensa a responsabilidade da EERP-USP na organização e disponibilização do acervo do CEMEERP para a comunidade em geral.

As críticas no que se refere ao trabalho museológico na maioria das vezes são de pessoas externas ao meio profissional, ou que simplesmente não são simpatizantes dos museus como instituição. Já os profissionais de conservação preocupam-se em discutir questões de suas atividades num contexto social 4.

Os acervos, além da guarda e conservação, devem ser centros de produção de conhecimento. Neste sentido, podem-se destacar experiências bem-sucedidas, como o Centro de Documentação da Escola Anna Nery, assim como o Museu da Escola de Enfermagem USP 2.

O processo implantado inicialmente no CEMEERP inspira-se na experiência do Centro de Documentação da Escola Anna Nery, que, nos seus 15 anos aproximadamente de existência, procurou criar uma interação entre a organização documental e a literatura sobre a história da instituição, a ciência arquivística e o bom senso5.

Ainda é necessário muito investimento, especificamente no desenvolvimento de planos de preservação das coleções e documentos, na obtenção e capacitação de recursos humanos, com a promoção de intercâmbios para cooperação técnica e desenvolvimento de pesquisas, buscando analisar sistematicamente as necessidades de preservação, identificar prioridades, captar recursos para execução de projetos, normatizar os procedimentos técnicos e disponibilizar em formato digital todo o acervo do CEMEERP.

No que se refere ao ensino, a experiência de introduzir atividades práticas no CEMEERP, na disciplina de História da Enfermagem, mostrou que essa é uma estratégia bem-sucedida para estimular o aluno a valorizar a História da Enfermagem. O manuseio de objetos, documentos e outras "testemunhas" do tempo tornaram a história uma ciência viva, interessante, evidenciando um recorte das raízes da profissão e aproximando os alunos da mesma.

 

Referências

1. Trevizan MA, Mendes IAC. A pesquisa histórica como necessidade na enfermagem. Rev Gauch Enferm 1985;6(1):27-34.

2. Barreira IA. Memória e história para uma nova visão da enfermagem no Brasil. Rev Latino-am Enfermagem 1999 jul;7(3):87-93.

3. Santos RM, Trezza MCSF, Candiotti ZMC, Leite JL. A enfermagem como objeto da História: uma reflexão sobre o tema. Rev Bras Enferm 2001 out/dez;54(4):638-44.

4. Paula TCT. Inventando moda e costurando a história: pensando a conservação de têxteis no Museu Paulista/USP [tese de doutorado]. São Paulo (SP): Escola de Comunicações e Artes / USP; 1999.

5. Sauthier J. Memória e história: o Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery. Esc Anna Nery Rev Enferm 2000 dez;4(3):339-346.

6. Novotny D. Conservación preventiva en bibliotecas y archivos. [página en linea]. Argentina(AR): Fundación Patrimonio Histórico 2000; [acceso en 10 mar 2004]; [aprox. 1 tela]. Disponible en: http://www.patrimoniohistorico.org.ar/ClavesOAP-01.html

7. Lomônaco NV, Benedini Z, Steagall-Gomes DL, Correia FA, Fram MJC. Centro de Memória da EERP (CEMEERP): Folder institucional. [Ribeirão Preto]: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/ USP [1990]. 1p.

8. Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Ata da 2ª. Reunião da Comissão de Memória Histórica. Ribeirão Preto (SP); 1989 ago.

9. Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Ata da 4ª. Reunião da Comissão de Memória Histórica. Ribeirão Preto(SP); 1989 set.

10. Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Comemorações dos 20 Anos do Programa de Pós-Graduação - Área de Enfermagem Fundamental, Departamento de Enfermagem Geral e Especializada - EERP / USP. [página on line]. Ribeirão Preto (SP): Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto; 1999;[citado 10 ago 2005];[aprox. 1 tela]. Disponível em: http://www.eerp.usp.br/aefund/eventos.htm

11. Costa MF. Noções básicas de conservação preventiva de documentos. [página on line]. Rio de Janeiro (RJ): Centro de Informação Científica e Tecnológica, Biblioteca de Manguinhos, Laboratório de Conservação Preventiva de Documentos da Fundação Oswaldo Cruz; 2003;[citado 10 mar 2004];[aprox.14 telas]. Disponível em: http://rede.cict.fiocruz.br/eventos/encontro/marilene.pdf

12. Checkley-Scott C. Preservación y acceso al patrimonio en bibliotecas y archivos. Traducción y comentarios de Susana Meden. [página en linea]. Argentina(AR): Fundación Patrimonio Histórico 2001; [acceso 10 mar 2004]; [aprox. 1 tela]. Disponible en: http://www.patrimoniohistorico.org.ar/ClavesOAP-03-04.html

13. National Preservation Office (UK). Photocopying of library and archive materials. [page on line]. London (UK): NPO Preservation Guidance: Preservation Management Series; 2000.; [cited 2006 jul 16]; [aprox. 9 telas]. Avaliable in: http://www.bl.uk/services/npo/pdf/photocopy.pdf

14. Conway P. Preservação no universo digital. 2ª ed. Caderno 52. Tradução de José Luiz Pedersoli Júnior e Rubens Ribeiro Gonçalves da Silva. Projeto Conservação Preventiva em bibliotecas e arquivos. Rio de Janeiro (RJ): Arquivo nacional; 2001.

15. Di Lascio CMS. O ensino da história na formação do enfermeiro. Rev Bras Enferm 1985 abr/jun;38(2),126-37.

 

 

Recebido em 15/03/2006
Reapresentado em 24/07/2006
Aprovado em 20/09/2006

 

© Copyright 2022 - Escola Anna Nery Revista de Enfermagem - Todos os Direitos Reservados
GN1