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CAPES

Volume 10, Número 3, Jul/Set - 2006

REFLEXÃO

 

História da Enfermagem: ensino, pesquisa e interdisciplinaridade

 

Nursing history: teaching, research and interdisciplinarity

 

La historia de la Enfermería: enseñanza, investigación e interdisciplinariedad

 

 

Maria Itayra Coelho de Souza PadilhaI; Miriam Susskind BorensteinII

IProfa. Adjunta do Depto de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)-Brasil. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery da UFRJ. Vice-Lider do Grupo de Estudos da História do Conhecimento de Enfermagem (GEHCE). Pesquisadora do CNPq. Coord. do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. e-mail: padilha@nfr.ufsc.br
IIProfa. Adjunta do Depto de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)-Brasil. Doutora em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. Lider do Grupo de Estudos da História do Conhecimento de Enfermagem (GEHCE). Pesquisadora do CNPq. e-mail: miriam@nfr.ufsc.br

 

 


RESUMO

Este texto é uma reflexão sobre a importância da História da Enfermagem para a pesquisa e para o ensino da Enfermagem. Discute sobre os objetos da História da Enfermagem tratados por enfermeiras brasileiras e de outros países, cujos estudos enfocam, na sua maioria, o período pós-Florence Nightingale. Apresenta também a importância da interdisciplinaridade para a realização dos estudos históricos, considerando a relação desta com as demais disciplinas. Conclui afirmando que a problematização em torno dos desafios e tendências futuras sobre o ensinar, aprender e pesquisar a História da Enfermagem para todos os níveis é uma possibilidade de reduzir as insuficiências neste campo de estudo e mobilizar tanto docentes quanto discentes e outros interessados para a importância deste tema.

Palavras-chave: História. História da Enfermagem. Enfermagem. Interdisciplinaridade.


ABSTRACT

This text is a reflection upon the importance of nursing history in Nursing research and education. It discusses the objects of nursing history dealt with by nurses from Brazil and other countries, the majority of whose studies have focused on the post-Florence Nightingale period. It also presents the importance of historical studies, considering their relationship with other disciplines. It conclusion, it affirms that the problematization surrounding the future challenges and tendencies for teaching, learning, and researching within nursing history on all levels, offer a possibility for reducing the insufficiencies in this field of study, as well as for mobilizing faculty, students, and others who are interested in the importance of this topic.

Keywords: History. Nursing History. Nursing. Interdisciplinarity.


RESUMEN

En el presente texto se establece una reflexión sobre la importancia de la historia de la enfermería para la investigación y para la enseñanza de la Enfermería. En él se discute sobre los objetos de la historia de la enfermería tratados por enfermeras brasileñas y de otros países, cuyos estudios, en su gran mayoría, enfocan el período posterior a Florence Nightingale. En este estudio también se aborda la importancia de la interdisciplinariedad para la realización de los estudios históricos, considerándola en relación a las demás disciplinas. Se puede concluir afirmando que la problemática alrededor de los desafíos y tendencias futuras sobre el enseñar, aprender e investigar la historia de la Enfermería para todos los niveles, es una posibilidad de reducir las insuficiencias en este campo de estudio, movilizando a docentes, alumnos y otros interesados sobre la importancia de este tema.

Palabras clave: Historia. Historia de la Enfermería. Enfermería. Interdisciplinariedad


 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Ao se pensar na construção de uma história, esta, em geral, caracteriza-se por ser uma escolha, decorrente de algum tipo de informação, boa dose de motivação e paciência por parte do historiador. Esta construção depende basicamente de alguns vestígios encontrados acerca do homem em um determinado período de tempo. Geralmente quando os documentos são abundantes, o historiador tem a possibilidade de fazer múltiplas escolhas, colocar em evidência aquilo que considerar importante e não registrar o que lhe parecer inexpressivo. Sobretudo porque é o historiador quem cria seus materiais, ou, se quiser, os recria: o historiador não vagueia ao acaso pelo passado como um viajante em busca de achados, mas parte com uma intenção precisa e objetiva sobre um problema a resolver, uma hipótese de trabalho a verificar1.

O trabalho historiográfico situa-se invariavelmente na confluência entre o tempo do objeto investigado e o tempo do sujeito investigador. Reconhecer este olhar datado leva-nos a buscar compreender os condicionamentos e obstáculos que, pela ameaça do anacronismo, podem vir a comprometer o rigor da pesquisa. Por outro lado, compreender o que uma época perguntou a respeito da outra conduz à possibilidade de maior familiaridade com ambas2.

A História parece ter-se desenvolvido sobre o modelo da rememoração, da anamnese e da memorização dos grandes historiadores. A perspectiva de escrever e contar a História tem sido bastante questionada, em especial pelos historiadores de ofício atuais, porque coloca a História com uma perspectiva de neutralidade, desprovida de pressupostos, uma história que reconstituía o passado tal qual era pensado e passado, com causalidade encadeada, uma história de causas e efeitos. Quem não se lembra num passado não muito remoto, no primeiro e segundo graus, ou mesmo um pouco mais no tempo passado, no primário, ginásio e científico, quando muitos professores de História enchiam o quadro-negro de "causas e conseqüências relativas aos feitos dos grandes homens, dos vencedores, dos reis e rainhas e de outros do mesmo gênero". Nós diríamos que esta é uma armadilha cronológica, na qual a reconstrução histórica é positivista e entende que a única verdade histórica é aquela presente nos documentos. Documentos estes, na maioria das vezes, inquestionáveis. Com esta visão, reconstrói-se a História tal qual se pensa que ela aconteceu, sem pressupostos teóricos, e sem que o pesquisador possa se envolver profundamente e participar do processo de produção do conhecimento, mas apenas como um articulador que elabora um encadeamento de fatos cronologicamente bem estruturados e definidos.

Daí a expressão "História total" tão criticada pelos historiadores da Escola dos Annales, movimento originado na França no final da década de 1920, decorrente da criação da Revista Annales d'Histoire Economique et Sociale idealizada e editada por Lucien Febvre e Marc Bloch. A partir desse momento, nasce a "História nova", e um de seus pioneiros, Henri Berra, já empregava estes termos em 1930. A história modifica-se dando ênfase à duas características essenciais: sua renovação integral e o desarraigamento de tradições antigas e sólidas. A História nova passa a se interessar virtualmente por toda atividade humana; tudo tem uma história, ou seja, tudo tem um passado que pode ser em princípio reconstruído e relacionado ao restante desse passado. Um dos campos do saber desse novo momento da História é, sem dúvida nenhuma, a interdisciplinaridade. Le Goff traduz o surgimento das ciências compostas como a:

Que unem duas ciências num substantivo e num epíteto: história sociológica, demografia histórica, antropologia histórica; ou criam neologismos híbridos: psicolinguística, etno-história, etc. Essa interdisciplinaridade chegou a dar nascimento a ciências que transgridem as fronteiras das ciências humanas e ciências da natureza ou biológicas: a matemática social, psicofisiologia, etnopsiquiatria e a sociobiologia3:36.

Desde então, a partir do final da década de 1960, o território do historiador estendeu-se a tudo o que é perceptível pelo observador social, sem exceção. Ampliou a História para além de suas antigas margens, e, ao mesmo tempo, retorna a seu antigo domínio, que se imaginava bem explorado. O historiador relê hoje os documentos utilizados por seus predecessores, mas com um novo olhar e outro gabarito, como, por exemplo, passa a se interessar pela história do trabalhador, da família, das mulheres, das crianças, da educação, do sexo, da morte, entre outros, isto é, são zonas que se acham nas fronteiras do biológico e do mental, da natureza e da cultura. As publicações sobre esses temas, inimagináveis há mais de 50 anos atrás, constituem, hoje, um conjunto coerente, sólido, com uma vasta literatura a respeito.

Não existe um saber "neutro", uma ciência histórica "objetiva", existe, isso sim, um saber construído por homens e mulheres, que nesse saber exprimiram a cosmovisão, a ideologia, as aderências sociais e culturais próprias de cada um deles. "o homem" e "a mulher" não existem: existem homens e mulheres, vivendo em determinados contextos históricos, econômicos, sociais, religiosos4:30.

A partir do momento em que se começa a perceber a História em uma outra perspectiva, da "História nova", os historiadores começam a dar maior ênfase especialmente a partir da memória dos indivíduos. A História insiste justamente na atualidade dos processos que se deseja estudar, num empreendimento melhor descrito pelas palavras de François Dosse5:108:

A memória pluralizada, fragmentada, extravasa hoje por todos os lados o território do historiador. Importante instrumento dos elos sociais da identidade individual e coletiva, ela está no cerne de uma questão essencial. Depois de ter sido instrumento de manipulação durante muito tempo, ela pode ser reinvestida numa perspectiva interpretativa aberta para o futuro, fonte de reapropriação coletiva, e não simplesmente museografia desvinculada do presente. A memória, supondo a presença de um ausente, continuará sendo o ponto de união entre passado e presente, no difícil diálogo entre o mundo dos mortos e o dos vivos.

Porém, os possíveis encaminhamentos ao pensar sobre isto podem levar a riscos em acrescentar preconceitos, estereótipos e até construir novos equívocos, confundindo a realidade. A própria História da Enfermagem inserida nos cenários sociais ao longo dos tempos torna-se aberta a aproximações e afastamentos das verdades e seus significados6.

A história das profissões permite compreender o presente e traçar o futuro, especialmente pela forma como esta veio se construindo ao longo do tempo, pelo modus operandi de como o saber prático e teórico foram se aproximando, dando forma àquilo que posteriormente se tornou em profissão. A Enfermagem é uma profissão que ao longo do tempo vem desconstruindo e construindo sua história, libertando-se de antigos paradigmas e introduzindo outros mais coerentes com a sua compreensão de enfermagem como idéia, como corpo político-social e como formadora de opiniões7. A sua relação com a sociedade é permeada pelos conceitos que se estabeleceram na sua trajetória histórica e que influenciam até hoje a concepção do que é e qual o seu significado enquanto profissão da saúde.

Este texto pretende trazer a luz em algumas reflexões sobre a importância da história das profissões e, mais especificamente, da enfermagem para a pesquisa e para o ensino da Enfermagem, assim como apresentar a interdisciplinaridade como essencial para a realização dos estudos históricos, considerando a relação desta com as demais disciplinas.

 

A PESQUISA DA HISTÓRIA DA ENFERMAGEM

O trabalho mais conhecido no Brasil sobre a História da Enfermagem foi escrito por Waleska Paixão8 que, mediante pesquisa bibliográfica, faz uma retrospectiva cronológica da Enfermagem desde a idade antiga até o século XX, dando ênfase à influência religiosa sobre a profissão. Citado na maioria dos estudos sobre o assunto, vem servindo de livro-texto nos cursos de graduação em Enfermagem de todo o país9, 10. Existem vários outros livros do gênero em outros idiomas 11, 12,13 com a mesma perspectiva. Estes autores, embora sejam importantes na medida em que foram os primeiros a se preocupar em registrar a História da Enfermagem, seguem o modelo tradicional de "contar a história" pelo valor dos fatos, porém sem vinculá-los ao contexto da época. Estes textos podem ser citados como exemplos de "História total" criticadas pelos criadores da História nova.

Com o franco desenvolvimento da Pós-graduação em Enfermagem a partir da década de 1980 no Brasil, foi inegável a ampliação da produção científica nesta área de conhecimento, tanto do ponto de vista de dissertações e teses como de artigos publicados em periódicos indexados e livros, dentre outros. Se hoje a Pós-Graduação Stricto Sensu é um segmento consolidado no cenário educacional brasileiro e internacional, na área de saúde e de enfermagem, a mesma tem contribuído, decisivamente para a formação de recursos humanos qualificados e para o desenvolvimento científico-tecnológico nacional, deixando claro o seu papel estratégico neste cenário.

Articulados a este desenvolvimento, estudos mais críticos foram publicados no país, a partir da década de 1980, com uma preocupação em compreender a Enfermagem como parte de um processo histórico, social, cultural, político, educativo e de gênero, analisando e denunciando de modo mais nítido a conduta modesta, conformista e dócil de grande parte das enfermeiras nas relações com quem representa o poder, contrário à sua conduta autoritária, freqüentemente assumida nas relações com os demais elementos da equipe de enfermagem14.

Não obstante, grande parte desses estudos são restritos à Enfermagem nightingaleana, a qual só se tornou realidade no Brasil com a inauguração, no Rio de Janeiro, da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1923, posteriormente denominada de Escola de Enfermagem Anna Nery.

Examinando a literatura específica de enfermagem sobre o assunto, verificamos uma preocupação crescente em fim de subsidiar um conhecimento que

permita estabelecer relações entre o passado e o presente. Nelson e Gordon15, ao analisarem a profissão de enfermagem no seu fazer cotidiano, complementam suas idéias argumentando que o avanço da profissão deve ser orientado pelo entendimento e respeito pela Enfermagem como uma prática que possui uma história.

Com a ampliação dos estudos nesta área, faz-se necessário de forma urgente que os enfermeiros se apropriem dos conhecimentos de outras disciplinas, dentre elas a de História, para adquirir maior domínio e sabedoria para conhecer e discutir de forma crítica, madura e reflexiva sobre a História da Enfermagem, e, dessa forma, adquirir condições de analisar a realidade atual. Essa relação entre o passado e o presente se estabelece na busca do conhecimento, de maneira a se questionar o passado numa série de questões que são o "agora". Esse "agora" provavelmente influenciará no futuro da profissão. Com essas questões, a concepção de verdade sofre grandes mudanças, como também a aceitação do que pode ser o resultado da produção do conhecimento e do valor do conhecimento produzido. É possível lidar com a produção do conhecimento através de uma forma um pouco mais livre de leitura do tempo histórico; entretanto, esta forma implica em fazê-lo de forma crítica, reflexiva e construtiva, e não neutra.

Percebe-se que realizar a pesquisa histórica para construir a História da Enfermagem e das enfermeiras é um desafio a ser enfrentado crescentemente. Para tanto, o registro sistematizado da História da Enfermagem nas diversas faces e fases, desenvolvida nas diferentes regiões do mundo, poderá ser um exercício de auto conhecimento das enfermeiras com conseqüente explicação de sua identidade e da identidade da profissão. E o reconhecimento por parte da sociedade possivelmente virá através de uma prática exercida efetivamente e consubstanciada pelo próprio desempenho de profissionais da Enfermagem, sendo que isto ainda é um outro desafio a ser enfrentado.

Os significados da profissão Enfermagem influenciam sobremaneira a compreensão desta como conceito. As representações vem sendo desconstruídas especialmente pelos estudos desenvolvidos nos últimos quinze anos, sendo substituída por visões mais coerentes e mais próximas da realidade, ou seja, da Enfermagem como uma profissão que tem peculiaridades no cuidar do outrob e também de si.

No que se refere a pesquisa histórica em Enfermagem em nível internacional, esta foi introduzida pela enfermeira norte-americana Teresa E. Christy18, que estabeleceu um método legítimo de investigação há mais de uma década. Christy aperfeiçoou o método e reforçou a necessidade de realizar pesquisa histórica em Enfermagem muito antes do que a grande maioria dos estudiosos de Enfermagem a aceitasse como um método de pesquisa. Ao realizarmos uma busca na literatura brasileira sobre a História da Enfermagem e também sobre a utilização da pesquisa histórica, nos deparamos ainda com escassa literatura a respeito, conforme detalharemos nos próximos parágrafos. Entretanto, a partir das duas últimas décadas, começa a ocorrer no espaço brasileiro um interesse maior por parte dos enfermeiros em contar, ainda que de forma tímida, a História da Enfermagem.

Nos Estados Unidos e Canadá, as enfermeiras têm se preocupado em introduzir mais recentemente trabalhos históricos em livros-textos para uso na formação dos estudantes de Enfermagem19,20. Estes textos não somente refletem conhecimentos, mas também procuram oferecer aos estudantes uma visão de si mesmos, procurando fortalecer suas identidades e suas relações com o público.

Atualmente já é possível falar de História da Enfermagem que compreende produções de maior ou menor expressão e que têm sido elaboradas sob forma de artigos, livros, dissertações e teses referentes a sua evolução. O resultado caracteriza-se por um quadro bastante heterogêneo. A heterogeneidade não se refere apenas à postura teórica dos trabalhos. Refere-se aos objetos de pesquisa, às abordagens críticas ou descritivas, às influências predominantes da bibliografia americana ou européia. Como ocorre em quase todos os "objetos novos" de estudo, a História da Enfermagem passa por diversos tipos de abordagem.

Em pesquisa realizada sobre os estudos históricos no Brasil decorrentes dos resultados de teses e dissertaçõesc, identificamos apenas 88 estudos que tratavam de temáticas como identidade profissional, institucionalização da Enfermagem no Brasil, entidades organizativas, especialidades de enfermagem e estudos sobre a criação das escolas de Enfermagem brasileiras. Nestes estudos, percebe-se que, a partir da década de 1980, acentuaram-se as preocupações das estudiosas de Enfermagem com os estudos da profissão numa perspectiva historiográfica, especialmente para compreender a Enfermagem como parte de um processo histórico, social, cultural, político, educativo e de gênero.

A História da Enfermagem confunde-se com a história das mulheres, que usufruiu e contribuiu para as transformações da nova História, que alterou o conceito de documentação (pelo valor da história oral), que diversificou objetos de estudo (a identidade profissional, o cuidado, os uniformes, as relações de poder, o masculino e o feminino, o processo de trabalho, entre outros), como foco de interesse historiográfico21.

A História serve para elucidar o contexto vivido e fornecer os significados deste contexto. O conhecimento das correntes sócio-econômicas, culturais e políticas que influenciaram o longo percurso da História sobre a prática dos cuidados permite que as enfermeiras libertem-se de heranças passadas. A enfermeira historiadora americana Olga Church afirma, porém, que graduados de programas de enfermagem que não tenham conhecimento de sua herança não estão adequadamente orientados para a profissão22:1. Arlene Keeling23 concorda, acreditando que a História da Enfermagem fornece um senso de identidade profissional.

Na verdade, a medida em que se conhece a história de uma profissão, como, em nosso caso, a da Enfermagem, se percebe quanto e como a Enfermagem não é inseparável de outras atividades da vida, do mundo da saúde e seus compromissos sociais. É com este olhar que a História adere a possibilidade de delinear e identificar quem são, o que pensam, o que sentem, como agem e, ainda, quais as perspectivas do que terão as enfermeiras em sua caminhada como um grupo profissional contextualizado24.

O conhecimento histórico está ligado à época de sua produção, ao presente do historiador, que é sempre novo. Se o presente é sempre novo e reinterpreta de forma nova o passado, a verdade do passado será também sempre nova, pois é dominada pela novidade do presente.

 

A INTERDISCIPLINARIDADE E A HISTÓRIA DA ENFERMAGEM

Inúmeros são estudiosos que têm discutido a interdisciplinaridade. Entretanto, apesar dos estudos realizados, não foi possível formalizar um conceito capaz de unir epistemólogos, filósofos e educadores em torno de um consenso. E será mesmo preciso tê-lo, no momento em que se constata, segundo Japiassú25, que a ciência ou algumas teorias científicas renunciaram às pretensões de totalidade e completude, e que a ciência busca a universalidade da prática, e não de uma teoria afirmada a priori. A ciência já não pretende tornar absoluto um conhecimento hegemônico. Neste contexto, a ciência não pretende perder de vista a disciplinaridade, mas vislumbra a possibilidade de um diálogo interdisciplinar, que aproxime os saberes específicos, oriundos dos diversos campos do conhecimento, em uma fala compreensível, audível aos diversos interlocutores 26.

Segundo Japiassú25: 120, à interdisciplinaridade faz-se mister a intercomunicação entre as disciplinas, de modo que resulte em uma modificação entre elas, através de diálogo compreensível, uma vez que a simples troca de informações entre organizações disciplinares não constitui um método interdisciplinar. O referido autor fornece elementos teóricos para a integração metodológica no campo interdisciplinar. Para isso, aponta a tendência de as pesquisas serem realizadas em grupos organizados ou equipes de trabalho, tomando o lugar da pesquisa individual. Ele avalia que a tendência das Ciências Humanas é a orientação para os problemas e o investimento em uma metodologia nova, que dê conta da perspectiva interdisciplinar, embora reconheça a dificuldade em se trabalhar com uma metodologia "consertada".

Por outro lado, Demo27: 84, sem pretender anular a disciplinaridade, e, ao mesmo tempo, admitindo as mudanças que se registram no campo da metodologia das ciências, mostra que a ciência, mesmo que seja articulada de maneiras diferentes, que utilize métodos qualitativos e mais flexíveis, na tentativa de adquirir o conhecimento do todo, não prescinde da formalização do objeto de pesquisa. Para ele, a ciência evoluiu a tal ponto, graças à especialização, que permitiu um amadurecimento calcado na [...] superação do olhar superficial, entrando na direção analítica do real. Define a interdisciplinaridade [...] como a arte do aprofundamento com sentido de abrangência, para dar conta, ao mesmo tempo, da particularidade e da complexidade do real 27:88-89. Ele sugere a prática de pesquisa em grupo como a metodologia mais indicada, pela possibilidade da cooperação qualitativa entre especialistas. Esta prática será viabilizada através das equipes de profissionais ou pesquisadores especialistas, mediados pela linguagem, pelo diálogo e pelos métodos acessíveis a todos.

A Enfermagem, quando trata de sua história, necessariamente se apropria e se aproxima dos territórios interdisciplinares, não apenas do historiador, mas também do antropólogo, sociólogo, psicólogo, filósofo, apenas para falar de alguns, porque sem eles não há como compreender os processos pelos quais a História da Enfermagem foi construída. Isto foi influenciado, sim, pela nova História, que ampliou o olhar do historiador para as demais disciplinas, estabelecendo "relações de boa vizinhança" entre estas. Cada disciplina carrega as suas particularidades e recupera o passado pelas pontes interdisciplinares, como um caleidoscópio, de inúmeras facetas. O conhecimento é livre, e o olhar sobre o mesmo é impregnado das vivências disciplinares. Como enfoca Schwartcz28: 70 confirma esta posição:

Um novo grau de autonomia para a história cultural e para a cultura é conquistado nesse momento, assim como se diluem as fronteiras que dividiam os mitos e a história, como se coubesse aos primeiros o reino da subjetividade e da imaginação e à segunda, pensada sempre no singular, o universo da verdade e da objetividade. Com o enfraquecimento de uma história do tipo événementielle e o reconhecimento de lógicas culturais diversas, apreendidas na longa duração, a "vizinhança" deixa de ser assumida enquanto área de litígio e passa a ser pensada em termos de relações de companheirismo e trocas recíprocas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A relação da profissão com a sociedade é permeada pelos conceitos, preconceitos e estereótipos que se estabeleceram na sua trajetória histórica e que influenciam, até hoje, a concepção do seu significado enquanto profissão da saúde composta de gente que cuida de gente. Em parte, a História da Enfermagem, assim como a história das mulheres, continua infelizmente como um campo suplementar. Hoje, existe a clareza sobre a historicidade da História, que contribui para o desdobramento dos processos de recuperação da verdade entre o presente e o passado. E, acrescentando às contribuições do método biográfico e às técnicas de história oral, Pierre Nora introduziu a ego-história, como tomada de consciência de que a história que cada um faz é tributária de sua própria história e da relação que estabeleceu com a sua época.

Entendemos a História da Enfermagem no campo do ensino e pesquisa como um processo de sedimentação e ampliação, cabendo, ainda, reconhecer as limitações visíveis na produção científica da Enfermagem brasileira. Ela ainda está em processo de acelerado desenvolvimento, no que se refere aos estudos de natureza sócio-histórica, criando possibilidades de "reconstrução" desses saberes, constituintes dos contextos históricos e culturais específicos, inclusive o de um campo de saber e prática como o da Enfermagem29.

As referências ao passado provocam o pensar a História como indispensável para entender o que é indispensável para todos. A História serve para elucidar o contexto vivido e fornecer os significados deste contexto. Assim, o conhecimento histórico da Enfermagem elucida o contexto e fornece os significados para a cultura da profissão.

O conhecimento das correntes sócio-econômicas, culturais e políticas que influenciaram o longo percurso da História sobre a prática dos cuidados possibilitam que as enfermeiras libertem-se de heranças passadas, na compreensão do presente.

A História para nós é um imenso campo de possibilidades, no qual inúmeros "agoras" irão questionar momentos, trabalhar perspectivas e investigar pressupostos. A problematização da História é um ponto de partida para entender os desdobramentos do desenvolvimento da Enfermagem, e não apenas uma referência em cima da historiografia ou dos livros que já foram escritos. A problematização em torno dos desafios e tendências futuras sobre o ensinar, aprender e pesquisar a História da Enfermagem para todos os níveis é uma possibilidade de reduzir as insuficiências neste campo de saber e mobilizar tanto docentes quanto discentes e outros interessados para a importância da HISTÓRIA DA ENFERMAGEM como profissão constitutiva de uma área de saber, estabelecendo a ponte entre passado e presente, para construção do futuro.

A contribuição da História da Enfermagem se dá primeiro na formação de uma consciência crítica e reflexiva e de uma atitude intelectual do enfermeiro e, depois, no que se refere à elaboração de novas formas de percepção e apreciação da realidade social, que possibilitem uma concepção e uma formulação mais elaborada de um projeto profissional concentrado. A prática pedagógica em História da Enfermagem, entendida como prática de ensino ou de orientação favorece o desenvolvimento de capacidades de reconstrução de visões do senso comum, pela contextualização do problema e pela análise dos interesses que movem os grupos empenhados no jogo de forças, que determina os rumos da História30:705.

Sem dúvida nenhuma, na construção da História da Enfermagem, deve-se considerar a possibilidade da interdisciplinaridade, pois, através dela, é possível agregar um amplo campo de conhecimentos, tendo como produto final uma história mais ampla, teoricamente consistente, com diferentes significados e percepções, fornecendo maior compreensão acerca da profissão e identidade para os profissionais que nela atuam.

 

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Notas

a Henry Berr, no Revue de Synthese Historique, T.50, p.19, diz que o adjetivo "nova" refere-se ao movimento da New History, lançado em 1912 nos EUA, e sobretudo a H. E. Barnes que publicou em 1919, Psychology and History e apresentou o movimento em The New History and The Social Sciences (1925).3

b Neste estudo realizamos uma discussão crítica acerca da Enfermagem e a importância dos estudos históricos para seu entendimento reconstrução de um novo ideário. Numa perspectiva internacional, Gordon e Nelson27 apresentam uma reflexão crítica sobre a Enfermagem partindo da idéia de anjos que cuidam para a de uma profissional competente comprometida com o cuidar.

c Foram estudados aproximadamente 2525 resumos de teses e dissertações produzidas desde a criação de seus primeiros programas (1972) até o ano de 2003, por meio de consulta aos Catálogos de Informações sobre Pesquisas e Pesquisadores em Enfermagem - período 1979 a 2003, que publicam os resumos dos exemplares que compõem o Banco de Teses do Centro de Estudos e Pesquisa em Enfermagem da Associação Brasileira de Enfermagem (CEPEn/ABEn), anterior ao Banco atualmente mantido pela CAPES.

 

 

Recebido em 01/06/2006
Reapresentado em 10/11/2006
Aprovado em 06/12/2006

 

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