ISSN (on-line): 2177-9465
ISSN (impressa): 1414-8145
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CAPES

Volume 7, Número 1, Jan/Abr - 2003

ARTIGOS DE PESQUISA

 

Satisfação no trabalho e fatores de estresse da equipe de enfermagem de um centro cirúrgico oncológico

 

Satisfaction in work and stress factors on the nursing team in an oncologic surgical center

 

Satisfacción en el trabajo y factores de estrés del equipo de enfermería de un centro quirúrgico oncológico

 

 

Naluzia de Fátima MeirellesI; Regina Célia Gollner ZeitouneII

IEnfermeira do C.C. do HCI/INCA-.RJ; Enfermeira do Trabalho; Especialista em Enfermagem em Centro Cirúrgico, pela SOBECC/SP. Mestranda em Enfermagem - EEAN/UFRJ. E-mail: naluzia-meirelles@ig.com.br
IIProfessora Adjunta do DESP/ EEAN/UFRJ; Doutora em Enfermagem; Enfermeira do Trabalho; Membro do NUPENST/EEAN/UFRJ

 

 


RESUMO

O artigo tem como objetivo apresentar parte dos resultados da dissertação de mestrado que teve como objeto o estresse no profissional de enfermagem de um centro cirúrgico oncológico (C.C.O.), objetivando traçar o perfil dos profissionais de enfermagem nos aspectos pessoais e profissionais; descrever a percepção dos mesmos acerca da satisfação e estresse no trabalho, e os fatores de estresse no centro cirúrgico. Tratou-se de estudo descritivo tendo como amostra 70 profissionais da equipe de enfermagem. Os resultados apontaram que 47,1% da amostra tinham de 31 a 40 anos; 84,3% com carga horária de trabalho de 40 horas semanais e 40% com escala de plantão 12x36; 28,6% com tempo de atuação no C.C.O. de 10 a 15 anos; 72,9% sentiam-se satisfeitos em trabalhar no C.C.O., apesar de considerar o ambiente muito estressante (62,9%), destacando a organização do trabalho, a administração do pessoal, as tarefas, o ambiente, a clientela e os próprios colegas como fatores relacionados ao estresse no centro cirúrgico.

Palavras-chave: Centro Cirúrgico. Enfermagem. Estresse. Saúde do Trabalhador.


ABSTRACT

The aim of this article is to show a part of the results' from a mastering dissertation whose object was the stress in the nursing profession in an oncologic surgical center (O.S.C.) which had as objectives to describe the nursing staff"s profile, considering the professional and personal aspects; to point out their perception regarding their satisfaction and stress in work, and stress factors in the surgical center. It was a descriptive study with 70 nursing professionals as subjects. The results showed that 47,1% of the sample ranged from 31 to 40 years old; 84,3% work 40 hours per week and 40% on duty 12 x 36h; 28,6% have been working at the O.S.C. from 10 to 15 years; 72,9% felt satisfied in working at the O.S.C., although 62,9% consider it very stressing, highlighting as stress factors, work organization, personal administration, tasks, environment, the suffered patient and the work mates.

Keywords: Surgical Center. Nursing. Stress. Worker's Health.


RESUMEN

El artículo tiene por objetivo presentar parte de los resultados de mi disertación de maestría que tuvo como objeto el estrés en el profesional de enfermería de un centro quirúrgico oncológico (C.Q.O.), teniendo como objetivos: trazar el perfil de los profesionales en los aspectos personales y profesionales; describir la percepción de los mismos acerca de la satisfacción y estrés en el trabajo y los factores de estrés en el centro quirúrgico. El método descriptivo fue usado, teniendo como muestra 70 profesionales del equipo de enfermería. Los resultados apuntaron que 47,1% de la muestra tenían de 31 a 40 años; 84,3% con carga horária de trabajo de 40 horas semanales y 40% con escala de turno 12x36; 28,6% con tiempo de actuación en el C.Q.O. de 10 la 15 años; 72,9% se sentian satisfechos de trabajar en el C.Q.O., apesar de considerar el ambiente muy estresante (62,9%), destacando la organización del trabajo, la administración del personal, las tareas, el ambiente, la clientela y los propios colegas como factores relacionados al estrés en el centro quirúrgico.

Palabras-Claves: Centro Quirúrgico. Enfermería. Estrés. Salud del Trabajador.


 

 

INTRODUÇÃO

O estudo teve como objeto de investigação o estresse no profissional de enfermagem em um centro cirúrgico oncológico. Pode-se dizer que a inquietação pela questão em foco surgiu a partir dos problemas do cotidiano e as reações individuais ao estresse vivenciados pelos profissionais no ambiente de trabalho.

O estresse ocupacional se destaca como de especial importância com o qual se defronta o trabalhador moderno, vivenciando variadas situações, principalmente em algumas ocupações como, por exemplo, a enfermagem, e mais precisamente em unidades críticas como o centro cirúrgico oncológico. Nesse tipo de unidade, o profissional convive em maior grau com estressores que atuam na sua estrutura biológica, bem como nas suas relações sociais, resultando em demandas psíquicas enfrentadas de diferentes formas, dependendo de cada um .

Com vistas ao estudo do estresse, teve-se como objetivos traçar o perfil dos profissionais de enfermagem de um centro cirúrgico oncológico (C.C.O.) nos aspectos pessoais e profissionais; identificar o grau de satisfação e estresse no trabalho, e os fatores de estresse apontados pelos mesmos.

 

O ESTRESSE E A SAÚDE DO TRABALHADOR

No que se refere ao estresse, Selye (1956) o descreveu como a soma das trocas inespecíficas do organismo em resposta a um estímulo ou situação. Segundo o Instituto Nacional de Segurança e Higiene do Trabalho - Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais, mencionado por Medina (2000, p. 4), o conceito de estresse no trabalho vem a ser "a resposta fisiológica, psicológica e de comportamento de um indivíduo que tenta adaptar-se e ajustar-se à pressões internas e externas". Ele aparece quando se apresenta um desajuste entre a pessoa, o posto de trabalho e a própria organização (MEDINA, 2000).

O estresse até certo ponto é essencial para a saúde física, impulsionando o indivíduo à ação. Entretanto, cada indivíduo possui um determinado limiar na tolerância ao estresse, deixando este de ser benéfico (positivo) para adquirir características negativas. Os pensamentos e emoções comandados pelo estresse influenciam o Sistema Nervoso Central e o Sistema Imune, ativando assim o circuito bidirecional, que ocorre via Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal, iniciando uma cascata por todo o organismo. As manifestações do estresse podem ser de ordem psicológica (insatisfação com o trabalho, ansiedade, depressão), fisiológica (dor de cabeça, hipertensão, taquicardia) ou comportamental (absenteísmo, insônia, fumar ou beber excessivamente).

A teoria interacionista de Magnusom (1986), que vincula o aparelho psíquico ao estresse, acrescenta a influência do meio ambiente ao substrato psicológico do indivíduo. Essa teoria tem como foco de interesse identificar como as situações externas podem provocar reações ansiosas, emocionais e comportamentais, isto é, como o estresse e reações de ansiedade são modificadas pelas expectativas a respeito das conseqüências de condições estressoras.

O atendimento à clientela específica, como no caso do C.C.O. , em que há necessidade de cuidados especiais, requer intervenções mais complexas, assistência ininterrupta e na grande maioria imediata, levando os profissionais de enfermagem a um processo de trabalho diferenciado das unidades consideradas não críticas, pois de acordo com Beck (2001, p.36), "naqueles locais, situações inesperadas e críticas fazem parte do dia-a dia, causando nos trabalhadores manifestações de ansiedade e níveis diferenciados de estresse" .

Segundo especialistas em psicopatologia do trabalho e da Organização Mundial de Saúde (OMS), as situações que causam ansiedade ao trabalhador, desencadeando o estresse, geram desgastes não só emocionais, como também físicos, com manifestações desagradáveis que podem, com o seu agravo, desencadear doenças ( O.M.S., 1985; DEJOURS,1992).

Estudos na área de psicologia e psiquiatria vêem a necessidade de que o conhecimento sobre os estressores favoreçam o desenvolvimento de forma de enfrentamento, contribuindo no controle do estresse. Bringuente et al.(1997) consideram muito importante a forma como a pessoa identifica e administra as situações estressoras desenvolvendo mecanismo cognitivo de enfrentamento, em virtude desse mecanismo atuar na prevenção de estresse.

O termo estressor, situação estressante ou fator de estresse, é utilizado para referir-se ao estímulo ou situação que provoca uma resposta de estresse no profissional (MEDINA,2000).

Bringuente (1997), citando Esdras e Santos, referenciando-se ao estresse em ambientes fechados como o centro cirúrgico, alude sobre a preocupação quanto à necessidade de identificação de situações que demandam alto potencial de risco ao estresse através de identificação de estressores, manifestação de pistas de estresse, assim como o seu controle que se darão através do desenvolvimento do potencial humano para autocuidar-se, fortalecendo o seu ego.

Nessa linha de pensamento, algumas características da organização do trabalho são responsáveis pelo desencadeamento do estresse, entre elas, as jornadas de trabalho prolongadas e os ritmos acelerados de trabalho, a atitude repressora e autoritária de uma hierarquia rígida e vertical, a fragmentação das tarefas, os riscos ocupacionais e, conseqüentemente, de quem o realiza.

Para Dejours (1992 ), o sofrimento dos trabalhadores pode ser expresso através da insatisfação e da ansiedade. A satisfação ou a insatisfação do trabalhador podem estar vinculadas a aspectos como: condições de trabalho (ambiente físico, químico e biológico, condições de higiene e segurança) e a organização do trabalho (divisão do trabalho, das tarefas, as relações de poder, as questões de responsabilidades, a habilidade para cuidar de pacientes graves que estabelecem limites/possibilidades diversas dos demais e o relacionamento entre as pessoas).

Naquilo que se refere aos fatores de estresse considerados específicos das profissões de saúde, Calhoun (1980) identificou vários, tais como: excesso de trabalho físico e mental, insegurança do trabalho, má adaptação do profissional ao trabalho, ambigüidade de funções, trabalhar em áreas pouco familiares, lidar com uma população com ansiedades e medos, não participação no planejamento e nas decisões, responsabilidade por outras pessoas, subaproveitamento, recursos inadequados, ambições não satisfeitas, conflitos interpessoais, mudanças tecnológicas rápidas e sentimentos de imortalidade (exposição constante com a morte).

Considerando os ambientes críticos como centro cirúrgico oncológico, o estresse tem constituído um fator de risco à qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem, que normalmente estão em contato com pessoas portadoras de instabilidades orgânicas com perspectivas de morte iminente.

De acordo com Reinhold (1996), as manifestações do estresse podem ser de ordem psicológica (insatisfação com o trabalho, ansiedade, depressão), fisiológica (dor de cabeça, hipertensão, taquicardia) ou comportamental (absenteísmo, insônia, fumar ou beber excessivamente).

Shinyashiki, citado por West e Lisboa (2001), refere que a satisfação pessoal, visualizada pelas organizações em geral, é um diferencial competitivo por se tratar de algo que invariavelmente traz lucro. Complementam os autores que "um profissional insatisfeito e desmotivado pode afetar de forma marcante o clima organizacional de um setor hospitalar, induzindo outros membros da equipe a adotar uma postura semelhante ou, mesmo, desempenhando suas funções de forma inadequada e pouco eficiente." (WEST e LISBOA, 2001, p.17).

O estresse ocupacional, relacionado em vários estudos ao estresse no ambiente de trabalho, tem sido considerado como "o resultado de um desequilíbrio entre a demanda ambiental e a incapacidade individual de lutar contra as exigências do dia-a-dia de nossa existência, sejam elas profissionais ou não" ( FEIX et al. , 2001, p. 11).

Nessa linha de pensamento, cabe resgatar a questão da Saúde do Trabalhador. Assim, a saúde no trabalho (saúde ocupacional) adotada em 1950 e revisada em 1995, pela OIT/OMS, preconiza como objetivo : a promoção e a manutenção do máximo grau de bem estar físico, mental e social dos trabalhadores em todas as ocupações e a prevenção entre os trabalhadores dos transtornos de saúde causados por suas condições de trabalho; a proteção dos trabalhadores contra os riscos ocupacionais resultantes de fatores adversos à saúde; a colocação e manutenção dos trabalhadores em um ambiente de trabalho adaptados a suas condições fisiológicas e psicológicas; e em resumo, a adaptação do trabalho ao indivíduo e de cada indivíduo a seu trabalho (ICN, 1998).

Nesse contexto, tem-se as doenças ocupacionais que podem ocorrer após vários anos de exposição a riscos, tornando difícil o estabelecimento do nexo causal entre a exposição e o dano ocorrido (MENDES e DIAS, 1994). Assim, deve-se considerar a importância da identificação precoce de alterações e fontes que causem prejuízo à saúde do trabalhador e que sejam passíveis de intervenção não só da instituição como do próprio corpo de enfermagem, antes que ocorram doenças.

 

METODOLOGIA

O estudo foi de natureza descritiva e exploratória com abordagem quantitativa, tomando como base Polit et al.(1995) .

A amostra foi constituída por um grupo de 70 profissionais de enfermagem (Enfermeiros e técnicos e/ou auxiliares de enfermagem), da unidade de centro cirúrgico de uma instituição oncológica da cidade do Rio de Janeiro, após consentimento por escrito da instituição e dos informantes, atendendo a Resolução nª 196. O levantamento dos dados deu-se através da entrevista individualizada, com aplicação de um questionário constituído de questões fechadas e abertas, compostas de duas partes: dados pessoais e profissionais, avaliação do trabalho quanto à satisfação e estresse, e os fatores geradores de estresse no ambiente de trabalho.

A coleta de dados ocorreu no período de janeiro a fevereiro de 2002, após autorização da Comissão de Ética em Pesquisa do Hospital, local de estudo.

Neste estudo, os dados coletados foram inicialmente tratados e analisados a partir do Epi-Info 6.04, e apresentados em números absolutos e percentuais, através de tabelas e gráficos.

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

CARACTERÍSTICAS PESSOAIS E PROFISSIONAIS

Com vistas ao objeto de estudo fez-se necessário traçar um perfil da amostra com aspectos que de alguma forma estão relacionados ao estresse, foco de estudo.

Neste sentido, os dados referentes a este perfil estão apresentados nos QUADROS sumarizados I e II , a seguir:

 

 

A amostra foi construída de uma grande maioria do sexo feminino (87,1%), e 12,9% de sujeitos do sexo masculino. Este é um fator relevante no trabalho da enfermagem, já que o seu contingente é formado na maioria por mulheres, e no centro cirúrgico a demanda de esforço físico é grande devido às caixas de instrumentais serem pesadas; e a mulher pode suportar cerca da metade da carga física que o homem suporta.

Estryn-Behar e Marziale apud Guedes e Mauro (2001) referem que o dispêndio elevado de força muscular e gasto excessivo de energia fÍsica tem ocasionado problemas posturais e fadiga geral nos trabalhadores, tornando-se mais grave na medida em que se constata uma predominância de mulheres na força de trabalho empregada no hospital .

Quanto à faixa etária, percebe-se que o maior contingente de trabalhadores no centro cirúrgico encontrava-se na faixa de 31 a 40 anos (47,1%), portanto pessoas mais maduras e possivelmente com experiências anteriores de inserção no mercado de trabalho. Interessante seria avaliar se esses indivíduos ingressaram mais jovens e permaneceram nos seus postos de trabalho ou se o ingresso deles na atividade está se dando numa etapa mais tardia, isso porque o tempo de trabalho é fator que interfere na adaptação ao trabalho e os efeitos sobre a saúde das pessoas de acordo com a faixa etária , predisposição entre outros fatores.

Em relação ao grau de instrução que os profissionais apresentam, sobressaiu-se aqueles com 2º grau completo, com 35,7% do total, seguido de 30% com 3º grau completo, e de 24,3% com 3º grau incompleto.O maior quantitativo sem dúvida relaciona-se às categorias dos auxiliares e técnicos para os quais se exige o 2º grau, contudo observa-se que 54,3% possuem qualificação mais avançada, provavelmente empenhados num melhor "status" e melhor remuneração dentro da instituição.

A qualificação, seguindo as suas vertentes de saber, salário e ocupação, é histórica e deveria refletir o "status" do trabalhador na organização; e sua retribuição financeira deveria variar com o tempo de formação e função social da atividade desempenhada (PITTA, 1994).

No QUADRO II, observa-se que, dos trabalhadores do Centro Cirúrgico Oncológico em estudo, 10% eram enfermeiras, sendo 2,9% com atuação na gerência das Salas de Operações (SO) e 7,1% com atuação na Recuperação Pós-Anestésica (RPA). Quanto à maioria dos participantes,90% eram Técnicos e Auxiliares de Enfermagem indistintamente, exercendo suas funções na SO 75,7% e na RPA 14,3%.

Quanto ao turno de trabalho, ocorreu predomínio do exercício no serviço diurno (82,9%), tendo em vista a demanda do serviço para o atendimento às dez salas de cirurgias .Fica evidente o número bem reduzido de funcionários à noite, embora o fluxo de atividades seja bastante considerável, devido às cirurgias que ultrapassam o horário das 19 horas; as emergências que são comuns; a assistência aos clientes no pós-operatório imediato na RPA; e as atividades relacionadas ao preparo dos instrumentais das cirurgias e o preparo das salas e materiais para a programação do dia seguinte. É importante ressaltar que o turno noturno está constituído em sua totalidade (100%) de profissionais do sexo feminino.

No que se refere à carga horária e escala de trabalho, verifica-se que a carga horária exercida pelos profissionais de enfermagem era na sua grande maioria de 40 horas semanais com 84,3%; a escala de plantão exercida por eles era a de 12x36, horas, com 40% sobre os demais. Considerando a realidade de cumprimento de carga horária de trabalho de 40 horas semanais, e por se tratar o local do estudo um hospital com um ritmo de trabalho bastante tenso e com a presença constante de patologias graves, a dor e sofrimento do cliente portador de câncer, os profissionais se sentem sobrecarregados (emocional e afetivamente) pelo número de horas tão elevado de atuação nessa situação, podendo desencadear ou aumentar o estresse.

De acordo com Bulhões (1998), a duração da atividade, hora ou execução da tarefa e pressão dos ritmos e de horários do meio social são elementos decisivos da dificuldade laboral, sendo importantes fatores de processos fisiológicos e psicológicos para o trabalho.

No que se refere ao tempo de atuação no centro cirúrgico são predominante os períodos que variam entre 10 a 15 anos (28,6%) e 15 a 20 anos (27,1%) , totalizando 55,1% , podendo estar significando a identificação do profissional com a função e atividades que exercem, ou sensibilidade emocional com a clientela sofrida, ou mesmo a situação economicamente estável e que atende às suas expectativas.

Quanto aos trabalhadores possuírem outro vínculo empregatício, os resultados apontaram que 44,3% não possuíam outro emprego, enquanto que 55,7% tinham outro vínculo.O local de atuação do outro emprego de maior percentual declarados por eles foi centro cirúrgico (41,4%).

Esses resultados levaram à reflexão de que apesar de grande percentual dos trabalhadores dedicarem doze horas no centro cirúrgico, ainda se sobrecarregam com atuação em outro serviço, que para Pitta (1994) o que ocorre na prática é que os baixos salários para muitos e a ideologia de ascensão social para outros pressionam no sentido de assumirem dois ou mais empregos comprometendo o descanso, lazer e vida familiar. Muitos são os efeitos nocivos de longas jornadas de trabalho, muitas vezes levando a esforços excessivos que agravarão ou causarão estresse.

 

SATISFAÇÃO E ESTRESSE NO TRABALHO

Atendendo aos objetivos do estudo,os resultados referentes ao grau de satisfação e avaliação do estresse no trabalho , na opinião dos entrevistados, estão apresentados nos QUADROS III e IV, a seguir.

 

 

A minoria dos entrevistados (8,6%) referiu insatisfação no trabalho, 14,2% estavam parcialmente satisfeitos, e a grande maioria (72,9%) encontrava-se satisfeitos no trabalho. Não é fácil apontar fatores capazes de influir no comportamento das pessoas, de acordo com as pesquisas sobre satisfação no trabalho, considerando a grande complexidade do fato de compreender tal situação e intervir de forma adequada para a ocorrência de mudanças de atitude, principalmente em decorrência das diferenças de personalidade e da organização social (WEST e LISBOA, 2001).

Quando se buscou o que levava o trabalhador àquele grau de satisfação por eles referidos, foram apontados diversos fatores representados nas falas a seguir:

quanto a satisfação:

"As atividades são completamente diferentes das enfermarias" (A.2)

"Me identifico com o tipo de serviço" (A.10)

"Gosto de trabalhar com cirurgias, acho que aprendemos todos os dias com coisas novas" (T.30)

quanto à parcialmente satisfeito:

"Um pouco sufocada, pois mesmo adorando o meu trabalho neste setor, em alguns momentos ficamos sobrecarregados de tarefas" (A.3 )

"Devido ao corre-corre e nível de responsabilidade muito grande" (T.56)

"Sinto-me satisfeita como profissional.Porém desassistida quanto à chefia" (A .60)

quanto à insatisfação:

"Por não me sentir respeitada como pessoa e profissional, e o gerenciamento pouco democrático" (T.19)

"Sinto-me incompleto do ponto de vista profissional, pois sinto necessidade de cuidar" (T.22)

"Sinto-me cansada, desmotivada e frustrada. Não acostumo nunca com o local de trabalho. Sinto incoerência em todo momento" (A.41)

Verificou-se neste estudo (QUADRO IV) que a atividade dos profissionais de enfermagem no centro cirúrgico oncológico foi considerada muito estressante por 62,9% dos sujeitos e pouco estressante por 20%. Foram poucos que julgaram muitíssimo estressante (10%) ou nada estressante (4,3%), além de alguns sujeitos (2,8%) não terem respondido esta questão. Estes dados são extremamente relevantes, na medida em que o reconhecimento da situação do trabalhador no seu ambiente de trabalho leva-o a buscar seus próprios meios de controle, ou seja , estratégias para lidar com o estresse.

 

FATORES GERADORES DE ESTRESSE NO TRABALHO

Analisando-se os fatores geradores de estresse no cotidiano do trabalho do centro cirúrgico oncológico, chegou-se aos resultados categorizados nos QUADROS V e VI .

 

Dos fatores que favorecem o estresse, destacaram-se como os de maior referência os relacionados ao trabalho/tarefas, seguidos pelos relacionados à administração de pessoal (QUADRO V).

Segundo Chamorro e Zeitoune (1999), os riscos ocupacionais para a saúde são originados no processo de trabalho, e podem ser atribuídos a um conjunto de fatores presentes no ambiente de trabalho, estando associados às suas condições de trabalho, em particular à sua organização, natureza ou conteúdo da atividade. Os riscos para a saúde, no caso da enfermagem, não podem ser atribuídos a causas simples, mas a um conjunto de fatores presentes no local de trabalho, que podem levar à deterioração de sua saúde física e mental.

Entre os fatores de estresse mais referidos pelos trabalhadores, destacaram-se as relações interpessoais conflituosas, sobrecarga de trabalho, carga horária excessiva, recursos humanos insuficientes, falta de valorização para uns ou protecionismo para outros, patologia que deprime e a convivência com o sofrimento, administração deficiente do horário do pessoal e falta de reuniões e oportunidade de expressão de sentimentos (FIGURA 1.).


Figura 1 - Clique para ampliar

 

Os fatores apontados pelos profissionais do C.C.O. vão ao encontro do referido por Zeitoune (1996), ou seja, a autora destaca que algumas características do local de trabalho, no contexto da enfermagem, como as atividades em si, as posturas utilizadas, a carga horária de trabalho, os turnos de trabalho e a remuneração, além da exposição a agentes biológicos, entre outros, levam ao comprometimento da saúde do Trabalhador.

No que se refere à determinação do quantitativo de trabalhadores de enfermagem necessários ao serviço, trata-se de questão complexa, uma vez que tem interferência de outras gerências, principalmente pelos custos envolvidos com pessoal.

No caso específico em estudo, West e Lisboa (2001) referem que o tipo de serviço precisa contar não somente com um número adequado de profissionais, mas também com indivíduos preparados, para que executem as tarefas com consciência da importância do seu trabalho para a qualidade da assistência prestada.

A falta de parceria entre profissionais, principalmente em ambiente crítico como o centro cirúrgico e na especialidade de oncologia, é sem dúvida bastante preocupante, não só em relação à clientela assistida, mas também em relação à saúde desses trabalhadores , atuando sob forte tensão. Para Girdano e Evely apud Lipp (1996, p.237) "sobrecarga é o mesmo que superestímulo, ou seja, o estado no qual as exigências excedem a capacidade do indivíduo de processar ou cumprir as mesmas, ocorrendo distress [estresse excessivo]."

Para Guedes e Mauro (2001), a sobrecarga de trabalho inviabiliza um melhor desempenho no trabalho bem como pode predispor o trabalhador ao estresse, pelos danos à sua saúde física e mental . As autoras referem que as condições de trabalho representam a interação e o inter-relacionamento das circunstâncias material, psíquica, biológica e social, que por sua vez são influenciadas pelos fatores econômico, técnico e organizacional do trabalho, constituem o ambiente e proporcionam os determinantes da atividade laboral.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados do estudo permitiram algumas considerações.

No que se refere aos aspectos pessoais e profissionais, a maioria da amostra era do sexo feminino, numa faixa de idade de 31 a 40 anos, majoritariamente tendo cursado até o segundo grau , possuindo outro emprego , também em centro cirúrgico, ou seja outro ambiente fechado e de mesma similaridade, com tempo de serviço de 10 a 20 anos numa carga de 40 horas semanais.

Com vistas a esses resultados, pode-se dizer que tais aspectos podem estar corroborando o estresse considerado pelos entrevistados, oriundo de sobrecarga de trabalho, uma vez que este foi o fator de estresse mais apontado pelos profissionais.

A identificação de satisfação em relação ao trabalho, apesar de todo o estresse apontado, apóia-se em Mauro (1996) que considera o trabalho uma das ações mais importantes na vida do ser humano, pois é da sua atividade que ele adquire os elementos para a sua própria subsistência e a de seus familiares. Porém, não o faz apenas por salário, mas também pelo fato de sentir satisfação emocional profunda pelo trabalho e pelos resultados que advém do seu esforço.

Além do contato direto com o sofrimento do cliente com câncer, existe um número elevado de elementos imponderáveis, próprios do tipo de trabalho, como uma certa identificação estabelecida entre o profissional e o papel desempenhado por ele.

O ambiente de trabalho, como se pode constatar, é consideravelmente estressante. As atividades desenvolvidas exigem alto grau de responsabilidade e grau de qualificação, com desgaste emocional intenso, sendo exercidos durante anos e com carga horária excessiva.

O excesso de atividades desenvolvidas pelos trabalhadores do estudo, recursos humanos deficientes e a cobrança contínua no trabalho inviabilizam um ambiente de trabalho a contento. Como diz em West e Lisboa (2001), nos serviços de saúde o quantitativo de pessoal é inferior ao necessário para atender às exigências cotidianas, sobrecarregando os trabalhadores e levando ao comprometimento da qualidade dos serviços prestados e da saúde do trabalhador.

Inicialmente, os fatores de estresse identificados neste estudo servem de ponto de partida para promover reflexões acerca da qualidade de vida do trabalhador relacionadas às condições do ambiente de trabalho , implementando programas de atenção à saúde do trabalhador, organização racional e valorização do trabalho, bem como a interação multiprofissional.

Ressalta-se ser de fundamental importância o investimento na prevenção do estresse como controle da saúde dos trabalhadores de enfermagem, oportunizando o alcance de maior rendimento no trabalho e uma assistência de qualidade.

 

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Recebido em 23/07/2002
Reapresentado em 25/02/2003
Aprovado em 31/03/2003

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