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Volume 13, Número 1, Jan/Mar - 2009

RESENHA

 

Kaneji ShiratoriI

IDoutora, Professora Associada do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Enfermagem (PPGEnf) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Coordenadora do Núcleo de Extensão, Pesquisa e Extensão da Faculdade do Futuro Manhuaçu MG. Brasil. E mail kanejish@yahoo.com.br.

 

 

Comparato, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 716p.

Pode existir algo de mais valioso que o alcance da felicidade? A felicidade é a recompensa de esforços constantes e direcionados, e como tal é o foco de atenção da ética. O sentido dado à ética nesse livro se baseia na compreensão quanto à sua abrangência como um sistema de dever-ser, largo e contraditório, na maioria das vezes, da religião, da moral e do direito. Ressalta a convergência atual do pensamento para uma "visão integradora das sociedades e civilizações". Trata-se de um estudo histórico e estrutural, densamente subsidiado de reflexões, críticas e perspectivas do dever-ser humano, não apenas no âmbito das ideias, mas expressando os modos de vida e as ideias de alguns pensadores que repercutiram na sociedade de forma geral, até o momento contemporâneo. Destaca que, para o entendimento dos fatos históricos, é necessário que ele esteja interconectado de saberes originários da economia, sociologia, antropologia, direito, geografia, linguística de períodos determinados, e, por estarmos em uma era global requer-se a intercomunicação de todos os povos da Terra. Apresenta os diversos sentidos e tratamentos obtidos pela ética e pela moral ao longo da trajetória humana, os quais estão discutidos e apresentados em três partes: a primeira configura a passagem do mundo antigo ao mundo moderno, no qual se observa a hegemonia ideológica, originária na Europa (séc. XVI), que, predominando até o séc. XX, fez configurar as bases do pensamento moderno; a segunda destaca o porquê da era das contradições; e, a terceira situa a ética em um mundo onde se requer que prevaleça o dever-ser solidário com a técnica e a ética se completando para impulsionar a união dos povos e das civilizações, com as perspectiva de construções teóricas e institucionais da nova ética. O fulcro da compreensão da sociedade atual situa-se no período histórico que o autor em epígrafe, com base em Karl Jaspers, denomina axial (o eixo histórico da humanidade), aquele compreendido entre os sécs. VIII a II a.C., quando se enunciaram os princípios fundamentais e se estabeleceram as diretrizes da vida, os quais vigem até o momento. Enfatiza-se que é necessário reconsiderar em conjunto os três grandes sistemas de regulação da conduta humana religião, moral e direito, que, nas antigas civilizações, formavam um só; no mundo moderno, eles se distinguem e se opõem entre si. A liberdade no mundo antigo correspondeu exclusivamente a uma participação do indivíduo na vida política. Portanto, só os cidadãos, isto é, aqueles que tinham direito de participar das decisões públicas, consideravam-se livres e socialmente eram absorvidos pelo grupo social clã, família, tribo, cidade, apesar de se submeterem aos costumes dos seus antepassados na regulação de suas vidas privadas. Contrariamente ao período contemporâneo, no qual predomina o ter sobre o ser, com mentalidade e instituições regidos pelo capital, na antiguidade evidenciava-se o desprezo pelos afazeres mecânicos e pela mercantilização. O rompimento da compreensão da liberdade no mundo antigo verifica-se no período axial com o surgimento da fé monoteísta e do saber filosófico, fundado na razão. As religiões locais ou nacionais começaram a desaparecer, cedendo lugar à religião universal de um Deus único e verdadeiro. O monoteísmo judaico, que inaugurou a nova fase, apresentou uma característica revolucionária, apresentando a ligação entre o culto e a ética; observa-se no Decálogo mais de 50% preceitos morais e não culturais. Na modernidade, evidencia-se a mentalidade sob a ideologia individualista do capitalismo, com as liberdades privadas acentuando o direito de resistir à interferência estatal. No âmbito religioso, podem-se situar as consequências éticas das diferenças entre São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino. São Francisco de Assis apresentou por base o paradoxo prescrito por Jesus no Evangelho: "O que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará" (Lucas, 9, 24). Em São Tomás de Aquino, grande promotor da razão filosófica na análise dos preceitos religiosos, ao contrário, o critério supremo da vida ética é o justo meio-termo, preconizado por Aristóteles: nada de excessivo. No Brasil, a noção de ética continua interligada à fruição das franquias privadas, pois se observa a condenação de uma figura pública que furta, porque a sua conduta não difere, substancialmente, do ato do particular de quem também o pratica. No entanto, há uma enorme dificuldade em apropriar-se da compreensão de que uma política de privatização do Estado, ou de endividamento público, é infinitamente mais danosa para a sociedade atual e o futuro do país do que a prática de um peculato. A razão disso encontra-se na ausência de espírito republicano, denunciada por Frei Vicente do Salvador (1627): "Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela e trata do bem comum, senão cada um do bem particular". Vislumbra-se que a mundialização humanista deve conceber a tecnologia associada à ética para que não haja ruptura da humanidade, pois "a ética ignorante do saber tecnológico é ineficiente e vazia." Assim, a ciência e a técnica devem ser reconhecidas como patrimônio da humanidade, se se pensar o grande projeto de humanização mundial. Neste sentido, verifica-se a possibilidade de apropriação do objeto tratado no estudo de Comparato pela enfermagem, pois, além de trazer os princípios e os fundamentos para compreensão da ética/bioética, vislumbra o sentido ético da vida, assinalando as lições da sabedoria mitológica e suas interpretações; a finalidade da vida humana; e o sentido ético da história, que são elementos cotejados pelo enfermeiro nas suas atividades cotidianas. O verdadeiro sentido da vida consiste na convivência pacífica e harmoniosa de todos os seres humanos, pois é preferível o desaparecimento à busca insensata da imortalidade, aviltando a tudo e a todos. Viver não é um simples existir biológico, é existir no contexto do mundo com todos os contrastes, conflitos, harmonia e construindo a história, e é isso que a Enfermagem busca compreender.

 

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